Por uma paz duradoura, sonhar não faz mal

Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

Immanuel Kant (1724-18040), tido como um daqueles filósofos que volta e meia nos deparamos em nosso cotidiano diverso, mesmo que as pessoas não pratiquem a filosofia com afinco, elas o trazem em suas tarefas mais simples, o momento presente não poderia ser mais propício para se trazer esse grande pensador à tona, é um personagem que pode nos ajudar a compreender o presente e lançar luzes para o novo mundo que todos esperam, venha o mais rápido possível. Kant nasceu em Konigsberg, antigo território da Alemanha e hoje pertencente à Rússia; desde pequeno revelou-se um prodígio e já na fase adulta mostrou grande interesse na matemática, filosofia e na teologia; aluno, professor e reitor da Universidade de Konigsberg, jamais deixou a sua terra natal, aqueles que o conheceram dizem que foi um professor de grandes qualidades, humor fino, alegre, sabedoria invejável.

Kant em toda a sua longa trajetória, manteve o seu estilo existencial extremamente rigoroso, mesmo tendo uma saúde bastante frágil e uma leve deformação em um dos ombros, adotou para si uma constituição pessoal onde prescreveu as suas máximas; uma rotina tida por alguns como enervante, mas que o completou, foi assim feliz em seu modo de viver, sua meticulosidade aos olhos de hoje é um contraponto para muitas coisas que deixamos de lado, senão vejamos: Kant acordava todos os dias as cinco da manhã e logo se dedicava ao trabalho, lecionava e estudava até as treze horas, depois vinha o almoço, sempre convidava pessoas para estarem com ele nesse momento, as quinze horas e trinta minutos saía para dar seu passeio, as pessoas inclusive acertavam seus relógios por essa caminhada e as vinte e duas horas ia dormir; loucura, excentricidade, talvez; Kant foi Kant.

Passados mais de duzentos anos, Kant continua sendo atualidade em muitos pontos, entretanto o que queremos ressaltar é a sua preocupação com o todo que nos faz uma só humanidade, uma só casa; se Kant é complexo, não são menos complexos os problemas com os quais ele se defrontou e que nós sob variadas formas os enfrentamos ainda hoje. No abissal mundo kantiano, tanto os seres humanos como as instituições funcionam em perfeita sintonia, mas isso quando defrontado com o atual modelo vigente muitas perguntas e também críticas podem ser dirigidas a este grande pensador. Não ser mais guiado pela sua razão, mas quase que intermitentemente, o ser do século XXI guia-se não por suas convicções mais puras, mas sim por aquilo que lhe parece mais palatável; ao não buscar a sua autonomia, o ser perdeu toda e qualquer coerência e determinação, não se revoluciona.

Justo também aqui trazermos alguns comentários sobre o desejo de Kant por uma paz perpétua, já em seu tempo Kant presenciava acontecimentos que na sua visão não poderiam ser jamais tratados como toleráveis, a guerra por si só é uma ignomínia atroz que conduz os seres humanos sempre a novas e cada vez mais cruéis experiências, o custo da guerra é sempre impagável, nenhuma cicatriz se apaga caso o ser humano seja usado num conflito como mero meio de conquista de outra nação. Sua paz perpétua vai tratar também das dívidas contraídas por pequenas nações em relação às mais fortes, o que muito se observa hoje em relação ao comércio internacional, quase sempre tem havido uma injusta troca de bens e serviços, o ônus recaindo sobre aqueles que tem tudo a perder e quase nada a ganhar; com o tempo essa paz que Kant almejava tornou-se um caro artigo de luxo.

Ponto polêmico na sua paz perpétua é aquele que almeja a um governo universal pautado em princípios ainda mais universais para todos, sabe-se claramente que tal ideia por mais cheia de boas intenções kantianas não se coaduna com o pensar atual, que aliás trava uma guerra silenciosa e desmedida em todas as frentes. A crise viral expôs todas as fragilidades das nações, as suas ilusões, os seus caprichos mesquinhos, as suas falcatruas em querer aparentar aquilo que não se é de verdade; no projeto mundo amplamente adulterado por alguns espertalhões, de pouco valem a hospitalidade, a amizade e o reconhecimento do outro, uma firme defesa dos direitos humanos elementos esses tão fortemente defendidos por Kant. Essa paz almejada pelo filósofo de Konigsberg e por nós todos, com ou sem um governo mundial vai depender única e exclusivamente de todos nós.

Bioeticamente, Immanuel Kant nos faz pensar sobre tudo o que fizemos até agora de nós mesmos e com aquilo que fizemos em relação à natureza no todo, a paz é um dos elementos fundantes para a sociedade futura que queremos construir, paz de aparência como ela foi almejada e construída até hoje jamais dará certo, pequenas “guerrinhas” travadas aqui e acolá aos poucos podem se avolumar até tomarem a forma de um corpo desmedido e fora de controle; pequenas violências com as quais convivemos todos os dias, não podem ser a desculpa de que este mundo está perdido e é preciso ir urgentemente morar em Marte. A razão humana capaz do que é capaz, não pode estar atrelada aos instrumentos de morte que aí estão, prontos para dizimarem a vida; a nova razão que se almeja, oxalá venha sem demora esteja sim pautada em valores que sempre fizeram parte da vida do ser humano e foram enterrados pelos primeiros defensores da modernidade; o que deve ser enterrado para sempre, sem direito a ressurreição é a nossa estupidez férrea.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética pela PUCPR, Especialista em Filosofia pela PUC-PR;

Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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