Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

Com o fim colossal do mundo socialista em 1.989 fizeram-nos crer que tudo estava terminado, ou seja, um capítulo nefasto da história saia de cena para dar lugar a outro período recheado de grandes novidades, circulação livre de tudo aquilo que pudesse trazer paz, benesses, alegria e prosperidade para todos; em suma uma novela com ingredientes míticos a se perderem de vista, obnubilando toda e qualquer crítica num primeiro momento. A palavra de ordem a partir de então passou a ser globalização, tema que ao longo dos anos cresceu, foram assim aparecendo as “boas surpresas” em diversos campos, nada de controle, fora com toda e qualquer regulamentação, o Estado não serve para quase nada, a não ser em algumas ocasiões muito restritas, interligação vinte e quatro horas por dia entre todos; a saga por libertar todas as amarras, levou o ser humano onde ele não queria.

Passada aquela grande euforia, não demorou muito para que começassem a pipocar em todos os cantos severas e bem fundamentadas críticas em relação ao modelo imposto pela globalização, hoje mais do que nunca ela está sob um ataque severo, pois ela produziu diversos fatos que alteraram drasticamente a vida, bem como a história humana; foram apenas e tão somente os humanos com suas novas concepções de mundo, concepções tomadas a peito mais pela emoção do momento do que por uma ponderada racionalidade de todos os sentidos. Os mundos “fantásticos” que a globalização nos prometeu, é agora um local de profundas anomalias, não nos tornamos deuses, mas sim frágeis e inoperantes seres humanos que diante de um vírus mortal não somos nada, a interligação imoderada de tudo com tudo, em especial com forças desconhecidas nos transportaram para o caos.

Curiosamente, algo bem perceptível agora é a ausência daquelas vozes “proféticas” desse mundo abundante, mais uma vez ficou provado que a globalização dividiu entre poucos todos os lucros absurdos que conseguiu e deixou uma conta avassaladora para ser paga para a grande maioria do Planeta. Tudo e todos agora são reféns de um sistema que produziu bens de grande magnitude em setores bem específicos, mas também em nome desse progresso sem consciência, deixou-nos um rastro enorme de dejetos por todos os lados que poluem e fazem agonizar grandes parcelas da humanidade; uma dessas parcelas chama-se refugiados, fenômeno complexo diante de nossos olhos, pois toda e qualquer decisão tomada em qualquer canto, queiramos ou não afeta-nos, direta ou indiretamente, os refugiados mais ainda; no drama do momento muitos os têm como peças descartáveis.

Um refugiado em primeiro lugar é um ser humano concreto, não alguma coisa ou algo abstrato, impalpável, ou até mesmo fora das realidades existentes, bem ao contrário, nos últimos tempos essa palavra, refugiado, tem tomado conta de inúmeros noticiários, em especial àquelas relacionadas com as diversas tragédias que ocorrem no Planeta; o alarme sobre esse tema vem sendo soado faz tempo, sejamos sinceros, ele é mais uma criação nada fantástica do antropoceno. São milhões de refugiados no mundo nessa hora de muitas adversidades, para onde quer que eles vão, pairam sob suas pessoas muitos perigos, há muitos são negados os direitos humanos básicos, está se tornando comum vermos famílias inteiras de refugiados pedirem ajuda nos semáforos de nossas cidades; não raro eles sofrem ameaças de todo tipo, falta de trabalho, moradia, dinheiro, carecem de quase tudo.

Os refugiados como dito acima, são frutos do antropoceno, suas vidas ao passarem por essa experiência estarão indelevelmente de um modo ou de outro, marcadas para todo o sempre, pois respiraram os ares tóxicos de uma globalização perversamente incivilizada; no refugiado, na maioria das vezes estão as marcas desastrosas das guerras, das secas em suas terras, da falta de trabalho para levar alimento à sua família, muitos foram expulsos apenas e tão somente por serem de etnia, religião ou cor da pele, diferentes dos dirigentes governamentais ou ainda por não compactuarem com esses. Para não morrerem submetem-se a uma via crucis, na maioria das vezes incerta; desumanizados na sua essência, os refugiados tornam-se presas fáceis dos novos modelos escravocratas, essa tragédia mundial, longe de terminar, pode nos trazer muitos desdobramentos imprevisíveis.

Bioeticamente, são muitos os refugiados no nosso imenso Brasil do século XXI, não são ignorantes, pervertidos em seu modo de viver, muito menos preguiçosos como querem alguns nos passar; quando somos sinceros com o nosso eu mais profundo não podemos ter dúvidas de que na grande maioria de nossas famílias, os nossos antepassados vieram de lugares diversos; é comum ouvir nas histórias familiares que os antigos fugiram dos seus países de origem por causa das perseguições, fome e guerra, sendo assim devemos muito aos refugiados de outrora que por sua vez nos permitiram chegar até aqui. No atual “choque de civilizações”, mesmo dentro de nosso país podemos encontrar aos milhares, brasileiros refugiados, sem eira nem beira, episódios dramáticos tem se repetido com frequência e são testemunhas vivas de uma entre tantas sombras que pairam  sob a sociedade; para não perecermos em definitivo como humanidade, tenhamos menos fé naqueles cliques virulentos e mentirosos que transmitem apenas ódio contra o outro, sejamos sim humanos. 

De Verê-PR, Mestre em Bioética pela PUCPR, Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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