Sudoeste Tecnológico

Sudoeste do Paraná: Um solo fértil também para a tecnologia

Cesar Colini, gerente Regional Sul do Sebrae/PR

Assessoria

A economia da região sudoeste do Paraná, historicamente, notabilizou-se pelos resultados no setor agrícola. Somente os núcleos regionais de Pato Branco e Francisco Beltrão produziram mais de 2,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2019/2020, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Paraná. O Sudoeste é também a maior bacia leiteira paranaense.

Mas o solo sudoestino não é fértil apenas para as atividades agropecuárias. Nos últimos anos, a região descobriu uma nova vocação: a tecnologia. Em 27 de outubro deste ano, Pato Branco tornou-se, oficialmente, a Capital Tecnológica e Inovadora do Estado, com a publicação da Lei nº 20.363, graças às iniciativas em pesquisa, inovação e incubação de empresas de base tecnológica.

Ecossistema de inovação

Contudo, Pato Branco não é o único município a se destacar no setor tecnológico. Há projetos em várias cidades, resultados das atividades do Ecossistema de Inovação do Sudoeste. Amsop, Sebrae/PR, Prefeituras de Dois Vizinhos, Francisco Beltrão e Pato Branco, Sistema Fiep, Cacispar, Agência de Desenvolvimento Regional do Sudoeste do Paraná, Irdes – Instituto Regional de Desenvolvimento Econômico e Social, instituições de ensino superior e incubadoras tecnológicas fazem parte da governança.

Assim como a produção agrícola obtém resultados com uma combinação de fatores, situação semelhante se verifica no segmento tecnológico. Para tanto, o Sebrae/PR desenvolve uma série de projetos e ações voltadas ao setor de tecnologia e inovação no Sudoeste. Cesar Giovani Colini, gerente da Regional Sul do Sebrae/PR, explica que, na última década, foi criado um ambiente favorável à inovação no Sudoeste, que vem se traduzindo em resultados econômicos do setor de tecnologia com impacto positivo em diversas áreas.

“A transformação que vemos na região é a soma dos esforços de muitos atores da governança para construir um ambiente sustentável para o surgimento, e crescimento, de iniciativas inovadoras e com potencial para novos negócios, gerando emprego e renda para a comunidade”, reflete Cesar.

Em 2019, governança do Ecossistema de Inovação comemorou dez anos

Ações realizadas pelo Sebrae/PR na região, em 2020

– Startup Garage e Lugar de Ideia é na Prática, com instituições de ensino superior parceiras;

– La Frontera Inova, com a Governança Territorial e instituições de ensino superior da fronteira do Paraná com a Argentina;

– Formação de novos habitats de inovação, com incubadoras da UTFPR em Dois Vizinhos e Francisco Beltrão;

– Edital de implantação da Certificação Cerne (Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos) com as incubadoras de Pato Branco, Francisco Beltrão e Dois Vizinhos;

– Apoio na implantação do Programa de Inovação com a Cresol;

– Parceria na implantação do Centro de Inovação da ACEFB;

– Metodologia de Privacy by Design e LGPD com o Núcleo Beltronense das Empresas de Tecnologia da Informação;

– Edital específico a projetos inovadores do Sudoeste, em parceria com a governança do ecossistema regional de inovação e com a Fundação Araucária;

– Programa Tech By Sebrae com verticais setoriais de Agro, TIC, Eletroeletrônico, Varejo Digital e Saúde;

– Ecossistema Connexion, em parceria com a governança do ecossistema regional de inovação.

Startups

O Sebrae/PR mantém programas permanentes voltados para startups. Na Regional Sul, foram mapeadas 249 startups, 167 delas atendidas pelo Sebrae/PR. Neste ano, mesmo com as dificuldades provocadas pela pandemia de Covid-19, as atividades envolveram 1.473 participantes, com oficinas, palestras, cursos e 240 horas de consultorias.

Mais de uma década de trabalho

Em junho de 2019, o Ecossistema de Inovação do Sudoeste completou dez anos de existência. Em evento realizado na sede da Amsop, representantes da governança divulgaram uma pesquisa realizada com mais de 1.600 pessoas da região, com destaque para o faturamento das empresas e para a percepção da sociedade quanto à cultura da inovação.

No setor econômico, a pesquisa apontou que as empresas da região investiram, em média, 3,8% do faturamento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), o que representou 2,54% da receita líquida de vendas. Ainda nas empresas pesquisadas, 37,5% dedicaram mais de 5% do faturamento para PD&I. Quanto ao retorno do investimento, 62,5% das entrevistadas registraram ganhos superiores a 10% nos dez anos do ecossistema. A aferição seguiu os moldes da Pesquisa de Inovação (Pintec), do IBGE.

Incubadoras

O plantio de novos negócios também passa pelas incubadoras tecnológicas. No início deste ano, o Sebrae/PR divulgou análise dos resultados do Programa de Incubadoras no Paraná, no período de 2016 a 2019. Os indicadores, obtidos após levantamento com as 17 incubadoras de 14 cidades, são estimulantes. O retorno operacional do investimento (ROI) sobre o faturamento das startups que passaram pela incubação foi de R$ 19,50 para cada R$ 1,00 investido pelo Sebrae/PR.

Nos impostos, as startups incubadas recolheram R$ 1,39 para cada real investido pelo Sebrae/PR, nos quatro anos. Ou seja, retornaram aos cofres públicos 39% a mais do que foi investido no período. O custo para geração de um novo emprego de base tecnológica criado nas incubadoras foi de R$ 10.429,00 em quatro anos de investimento.

O Programa de Incubadoras do Sebrae/PR está em 14 cidades, três no Sudoeste: Incubadora Tecnológica de Francisco Beltrão (Intec); Incubadora Tecnológica Sudotec, de Dois Vizinhos; e Incubadora da UTFPR em Pato Branco.

Em Dois Vizinhos, a Incubadora Tecnológica da Associação para o Desenvolvimento Tecnológico do Sudoeste do Paraná (Sudotec) registra números expressivos. Apenas em 2019, somando as sete empresas incubadas (três delas foram graduadas no final do ano), o faturamento chegou a R$ 1.029.000,00. A média dos últimos três anos está em R$ 1 milhão.

“As empresas geraram 35 postos de trabalho diretos e algumas atendem clientes no Brasil e até no exterior. A arrecadação de impostos municipais e federais foi cerca de R$ 87 mil”, relata Marinete Camilo, coordenadora da Incubadora Tecnológica da Sudotec.

“O aporte de recursos do Sebrae nos permite participar da ReinovaPR [Rede Paranaense de Incubadoras e Aceleradoras de Empreendimentos Inovadores] e contribui com consultorias nas mais diversas áreas. Sem a parceria, a entidade não teria condições de ofertar os recursos vigentes”, completa Marinete.

Dando frutos

LeadFinder está na lista Top 10 New Treds 2020

Os frutos do trabalho estão aparecendo. Uma das incubadas na incubadora da Sudotec é a LeadFinder, cliente do Sebrae/PR. A empresa, que desenvolveu uma ferramenta digital para prospecção de clientes, apareceu em novembro no Top 10 New Trends (2020). A lista apresenta as dez startups de tendências de 2020 e foi divulgada pela Open Startups, plataforma internacional para startups e cientistas se conectarem com as oportunidades do mercado corporativo e de investimentos.

A presença da LeadFinder na lista de novas tendências resulta de uma pontuação elaborada pela Open Startups, que mede a quantidade e intensidade dos relacionamentos firmados entre a startup e o mercado corporativo (leia-se grandes empresas). Segundo dados da plataforma, das 13.177 startups participantes, 1.310 (cerca de 10%) fizeram inovação aberta com 1.968 empresas nos últimos 12 meses.

“Optamos pelo caminho de conexões com empresas de alcance nacional, como Amazon, Docol, Suvinil e Portobello. Grandes corporações estão atentas para a inovação proporcionada pelas startups”, conta Fernando Osmarini, diretor de negócios da LeadFinder.

A empresa, fundada em 2015, conquistou seu primeiro cliente três anos depois. O apoio da Sudotec (Associação para o Desenvolvimento Tecnológico do Sudoeste do Paraná), onde está incubada, e do Sebrae/PR é apontado como fundamental para o desenvolvimento do negócio.

“A Sudotec é uma parceira incrível. Com a estrutura que nos oferecem, conseguimos reduzir custos e contratar mais duas pessoas. E contamos com o auxílio do Sebrae desde a conceituação da ideia até a definição do negócio. Estamos em outro momento e o Sebrae continua contribuindo”, completa Osmarini.

Retorno dos investimentos

O custo-benefício dos investimentos também pode ser verificado na Incubadora de Inovações da UTFPR (IUT) – Câmpus Pato Branco. Estudo divulgado em maio de 2018 mostrou um retrato da iniciativa no ecossistema. O relatório revela que, de 1998 a 2017, a IUT teve 78 empresas incubadas e pré-incubadas de base tecnológica. Oito empresas (10,25%) foram graduadas pela incubadora nessas duas décadas e permanecem ativas na região sudoeste do Paraná.

O número de graduadas parece pequeno, mas os resultados delas, somados, são impactantes: R$ 45,46 milhões em faturamento, R$ 3,45 milhões pagos em impostos, 189 empregos gerados e cinco marcas e patentes registradas, apenas em 2017.

A Inobram Automações, de Pato Branco, é uma das empresas graduadas na IUT. O empreendimento começou em 2004, quando Cleverson Faustino Brandelero e Fernando Gnoatto, acadêmicos do então Cefet, conheceram-se na própria incubadora.

Os dois já trabalhavam em uma indústria de eletrônicos e tinham a mesma intenção: desenvolver soluções para o agronegócio.

“Nosso primeiro produto, que está até hoje no portfólio, foi um sistema de pesagem de aves. Nós passamos por várias fases da incubadora, mas foi importante contar com uma estrutura que potencializa a evolução, com contatos, consultorias, instituições parceiras”, analisa Cleverson Brandelero.

A importância de ter um ponto comercial (a incubadora, no caso) também é salientada, assim com a oportunidade de participar de eventos e feiras.

“Quando estávamos na incubadora, tivemos a oportunidade de participar de feiras em outros estados. Em uma delas, conseguimos conversar com grandes empresas e fechar novos negócios”, recorda Fernando Gnoatto.

Os sócios consideram 2010 como um marco na trajetória da Inobram, que passou a crescer 35% ao ano. Hoje, a empresa tem 131 colaboradores, 42 produtos (entre hardware e software) e mais de 500 clientes espalhados pela América Latina.

Parcerias

O Sudovalley – Núcleo de Startups do Sudoeste e o Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI), que reúne as empresas do setor em Pato Branco, estão no rol de parceiros do Sebrae/PR.

Alaxendro Rodrigo Dal Piva, presidente do NTI, comenta que a parceria com o Sebrae tem contribuído para o crescimento das empresas do setor.

“Além de consultorias, o incentivo para a melhoria de processos, com a certificação do MPS.Br via recursos do Sebraetec [programa voltado para inovações nos negócios] tem sido importante para as empresas”, cita.

O empresário salienta ainda o envolvimento dos integrantes do setor em palestras, eventos e capacitações. “Ações que promovem o dinamismo do sistema, no sentido de trazer novas perspectivas e o que o mundo está fazendo, das tendências”, frisa Alaxendro.

Cerca de 150 startups estão no Sudovalley, somando os quatro grupos: geral e os núcleos de Pato Branco, Dois Vizinhos e Francisco Beltrão. Aproximadamente 60 participam ativamente. Henrique A. Camargo, coordenador do núcleo de Francisco Beltrão do Sudovalley, pontua que todos os atores do ecossistema são importantes.

“É claro que ter uma instituição como o Sebrae como parceira é importante, pois vem fomentar, ajudar a criar novas iniciativas e apoiar as criadas por núcleos, entidades, comunidades. No Sudoeste, temos todas as condições, tudo aqui na mão”, resume Henrique.

Ciclo virtuoso

A Softfocus, de Pato Branco, é um bom exemplo para ilustrar muitos dos ciclos do ecossistema de inovação. Surgida na Incubadora de Inovações da UTFPR (IUT), a empresa atua desde 2003 no segmento de software sob demanda e, nos últimos anos, tem se voltado para o desenvolvimento de soluções para o agronegócio. A empresa, que surgiu em uma incubadora, passou por todo o ciclo do ecossistema de inovação.

Para Alessandro Graczyk Moraes, diretor da Softfocus, o apoio do Sebrae/PR é muito importante para as empresas que estão surgindo.

“O suporte é essencial, especialmente para empresas nascentes, que ainda estão muito dedicadas apenas aos aspectos técnicos do produto. Normalmente, essas pessoas não têm conhecimento profundo do mercado e da gestão. Conteúdos que o Sebrae trabalha fortemente”, resume Alessandro.

O empresário lembra também do apoio recebido em 2009 e 2012, com implantações de níveis diferentes da certificação MPS.Br (Melhoria do Processo de Software Brasileiro, programa da Softex com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

“Éramos uma empresa pequena e tivemos a oportunidade de receber as consultorias com valor subsidiado. Nos ajudou muito a melhorar os processos de desenvolvimento e fazer projetos com maior qualidade. Nossos clientes sentiram a diferença”, exemplifica.

Atualmente, a Softfocus conta com 30 colaboradores e cresce 40% ao ano, em média. Mais de 500 mil produtores rurais já utilizam alguma das soluções da empresa, que estão disponíveis em mais de 2.500 agências de instituições financeiras de todo o Brasil.

Perspectivas

O gerente da Regional Sul do Sebrae/PR observa que o trabalho desenvolvido tem como base os modelos de negócios inovadores ligados ao futuro digital. “A pandemia acelerou o processo de desenvolvimento tecnológico das empresas. E já estamos buscando novos avanços. Para 2021, estamos trabalhando em um estudo que vai mensurar o grau de competitividade do nosso ecossistema”, antecipa Cesar Giovani Colini. (Assessoria)

Inovar faz a diferença

Alessandro Moraes, diretor da Softfocus

Outros frutos do trabalho desenvolvido pelo Sebrae/PR e parceiros no ecossistema estão surgindo. Mesmo com a pandemia, muitas empresas têm conseguido melhorar as performances e conquistar clientes pelo Brasil. Algumas delas até no exterior.

Cash Local, Pato Branco

Instalada no Parque Tecnológico de Pato Branco, a empresa criou uma plataforma de fidelização em cashback (em tradução livre, dinheiro de volta). A solução oferecida pela Cash Local é uma forma de “moeda do comércio local”.

A empresa foi formalizada no início de 2020. Thiarles Prado, um dos sócios, conta que o negócio, que tem quatro colaboradores, teria muitas dificuldades sem os apoios disponíveis no ecossistema.

“Nossa empresa, de certa forma, nasceu em um evento promovido pelo Sebrae, chamado Startup Weekend. Lá, fizemos as primeiras validações do que ainda era uma ideia. Depois vieram consultorias, mentorias, participação de feiras e eventos e muito networking”, relembra Thiarles. Atualmente, a Cash Local atua em quatro cidades do sudoeste do Paraná, outros três municípios de Minas Gerais, e já projeta expansão comercial.

Geo-X, Realeza

A empresa é parceira no desenvolvimento de um software que pode ser aplicado a drones, para identificar riscos de contaminação pela Covid-19. A plataforma foi desenvolvida pela Airspace Systems e a Geo-X, em cooperação com o Departamento de Defesa Norte-americano. O All-Clear é um sistema automatizado de detecção de máscaras, distanciamento social, pontos de contato e temperatura corporal. O sistema até permite comandar uma frota de drones pulverizadores para a sanitização de áreas urbanas.

“Tivemos ajuda para fazer contatos com cientistas e professores da área de programação. Agora, estamos recebendo mentorias relacionadas à importação de hardwares para um próximo projeto, e auxílio nos contatos com despachantes aduaneiros e documentações pertinentes. O Sebrae também está construindo pontes com empreendedores como a Arena Hub (centro de inovação de São Paulo), contribuindo para o crescimento e escalabilidade dos nossos projetos”, conclui Fernando Ghiraldi, responsável pelas operações da Geo-X no Brasil

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