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A lhama ou o cientista?

Conheça o cientista de Pato Branco que participa de pesquisa para encontrar uma alternativa contra o novo coronavírus

Desde que existe a história, existem heróis. Seja inventado, seja projetado pelo nosso inconsciente, o ser humano adora acreditar em algo ou alguém — principalmente alguém — que engrandeça a condição humana. 

Os heróis são como a gente, só que elevado a quinta potência: mais fortes, mais inteligentes, mais sagazes. Elegemos uma figura e, voilà, a transformamos em nosso salvador da pátria, aquele em quem nos espelhar será garantia de uma vida plena, com muito dinheiro e muito consumo, como pede nossa cultura americana. Acumulamos coisas, negligenciamos conhecimento.

O problema é depositar nossas esperanças nos “lugares” errados: a glamourização de instagrammers; a confiança em parlamentares improdutivos; a supervalorização da opinião de “especialistas” que não tem embasamento técnico nenhum no que dizem; a credibilidade cega em líderes que se dizem religiosos, mas contabilizam fiéis como cifras; lideranças políticas que subestimam a ciência e a informação. 

Nos quadrinhos, nenhum desses personagens entraria para Os Vingadores ou a Liga da Justiça. Ao contrário, eles seriam combatidos — e a vida real nos esfregou isso na cara com a chegada de um supervilão.

Quando surge o novo coronavírus no mundo, nossos heróis ficam perdidos. Seus “instintos” se mostram falhos, seus corpos sarados e sua superalimentação a base de comida viva não os deixa imunes, sua opinião não serve de nada para proteger a humanidade e a praia onde eles meditam para recarregar as energias para a semana está interditada.

Enquanto uma parte da população morre de covid-19, e uma outra parcela de fome, eles não sabem o que fazer para conter o inimigo. 

É nesse momento que surge o único que pode nos salvar: a ciência. E talvez uma lhama.

Pato-branquense na linha de frente científica
João Paulo Catani é de Pato Branco, mas hoje vive na Bélgica. Até lá foi uma longa jornada de formação acadêmica e científica que possibilitaram que ele participasse de uma das pesquisas mais promissoras sobre o Sars-COV-2, nome dado ao novo coronavírus. 
“Esse é um momento que coloca em evidência a importância da ciência em nossa sociedade, algo que é tão subvalorizado em um país como o Brasil. Nessa hora não é nenhum político que vai entregar a solução para a covid-19, quem vai fazer isso é o cientista mal pago e desvalorizado e que estava desenvolvendo sua pesquisa já há muitos anos em alguma universidade pública”, diz. 

O Vlaams Instituut voor Biotechnologie (VIB), da Universidade de Ghent, onde Catani atua como cientista pós-doutor, há muito tempo desenvolve pesquisas com anticorpos de lhamas, inicialmente sobre HIV e Influenza, e agora sobre o Sars-COV-2.

“O trabalho voltado para o SARS-COV-2 é recente, uma iniciativa que começou no fim de janeiro. Foi um grupo de resposta com 17 integrantes montado pelos professores Xavier Saelens e Nico Callewaert, para tentar suprir a urgência da pandemia”, explica.  O estudo envolve ainda uma rede de colaboração internacional, com grupos de pesquisa nos EUA e Alemanha.

Recentemente, o estudo foi manchete dos maiores periódicos mundiais, incluindo o New York Times, porque tem demonstrado resultados muito positivos.

 

Lhamas e nanocorpos
Desde 2016, os cientistas pesquisam sobre os anticorpos das lhamas. Isso porque, enquanto os seres humanos produzem apenas um tipo de anticorpo, composto de dois tipos de cadeias de proteínas, lhamas produzem dois tipos: um semelhante em tamanho e constituição aos anticorpos humanos, e outro muito menor, com apenas cerca de 25% do tamanho de anticorpos humanos, chamado de nanocorpos.

Esses nanocorpos, por sua natureza, conseguem acessar bolsas e fendas menores nas proteínas que são inacessíveis para anticorpos convencionais. Por isso os nanocorpos da lhama podem ser mais eficazes na neutralização do Sars-COV-2 e também de outros vírus.

Os anticorpos das lhamas também são facilmente manipulados, e podem ser ligados ou fundidos com outros anticorpos, incluindo anticorpos humanos, e permanecem estáveis, apesar dessas manipulações.

Assim, a equipe do professor Xavier Saelens, com colaboração direta do laboratório de Jason McLellan, da Universidade do Texas, em Austin, EUA, isolou e caracterizou esse pequeno anticorpo, mostrando exatamente onde ele se liga às proteínas do vírus que permitem que ele entre nas células hospedeiras. Ao direcionar essas proteínas, o anticorpo pode neutralizar o vírus, sendo um passo importante na busca de um medicamento antiviral contra a covid-19. 

Além de os novos resultados fornecerem a primeira evidência de que o nanocorpo pode impedir o novo coronavírus de infectar células humanas, ele torna possível sua produção em larga escala usando processos de produção comuns na indústria biofarmacêutica.

Com o avanço das pesquisas, os cientistas caminham para os ensaios clínicos. “Esses ensaios são difíceis e muito rigorosos. Não se pode correr contra o tempo e, apesar da urgência, a regulamentação e todos os cuidados precisam ser respeitados”, disse Catani.  

“Um exemplo clássico”, lembra Catani, “é o da cloroquina ou hidroxicloroquina. Essa droga já havia sido testada contra a epidemia de Ebola e não funcionou. Também foi testada contra Chikungunya e de fato piorou a infecção. Nem sempre o resultado obtido in vitro é confirmado posteriormente, em modelos animais ou ainda em ensaios clínicos. Contudo, após a devida avaliação, o anticorpo pode ser uma opção viável para o tratamento da covid-19”.

Baseados nessas informações — que são fatos, por isso impassíveis de opinião — cabe a você o julgamento de quem é o herói da história: a lhama ou o cientista?

 

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