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Colecionador de histórias

Paulino tinha sete anos quando ganhou um jogo de canetas com bico de pena. Hoje, aos 75, ele tem um minimuseu na sua própria casa, com mais de 2.000 itens antigos dos mais diferentes tipos

Imagina uma casa antiga de madeira. Agora imagina que, além dos móveis geralmente utilizados [como mesa, cadeiras, cama e geladeira], possui inúmeros objetos antigos, os quais fazem parte da sua decoração e, em alguns casos, são usados nos afazeres do dia a dia.

Essa casa — ou minimuseu — existe e está localizada num sítio na comunidade Anjo da Guarda, no interior de Honório Serpa. Logo na chegada é possível ver no portão e na cerca da área várias rodas antigas de carroças.

A residência pertence ao casal de agricultores idosos Delminda e Paulino Beles Silveira, que moram há 53 anos no mesmo endereço, desde quando casaram em 1967. 

Dessa união, nasceram os filhos [Josélio, Damaris, Lindamar, Rosecleia, Eliel Paulo e Rólida]. Embora não residam mais com os seus pais, eles assim como Delminda acompanham o hobby de colecionar de Silveira, que começou com uma pequena coleção de peças antigas e hoje ultrapassa os 2000 itens.

Como tudo começou
Silveira tem 75 anos e é natural de Campos Novos (SC). Quando pequeno já era bastante curioso e interessado em histórias dos antepassados. Morou grande parte de sua infância com a família em uma casa humilde, na comunidade de Pedregulho, interior de Palmas. Seus pais eram agricultores.

“Meu avô paterno, José Manuel, tinha um pequeno armazém em Pedregulho, no qual vendia desde produtos como sal, açúcar e farinha de trigo, como itens relacionados à agricultura, entre outros. Era bem diversificado”, relembra o agricultor.

Certo dia, seu avô resolveu fechar o estabelecimento e se mudar para o estado de Santa Catarina. Com isso, aquele menino curioso e que adorava coisas diferentes pediu a ele que lhe desse alguns itens do armazém. 

“Eu tinha dez anos de idade quando ele resolveu se mudar e lhe pedi três itens: um lampião de querosene; um avil ou isqueiro; e uma faquinha com cabo de metal, que inclusive recentemente desapareceu”, lamenta.

Essas peças ele guarda com muito carinho, assim como um jogo de canetas com bico de pena, que ganhou aos sete anos de uma professora. “Recém tinha começado a frequentar a Escola Isolada, em Pedregulho. Minha professora, Iracema Fabrício das Neves, disse para mim: ‘Vejo que você tem desenvoltura para ir longe. Então vou te abençoar com esse presente. Guarde-o!’. E está comigo até hoje”.

O tempo foi passando e Silveira tinha até então esses quatro itens antigos. Ele almejava colecionar mais peças históricas. Contudo, seu “projeto” só começou de fato aos 14 anos.

“Tenho uma fivela de cinta metálica, que ganhei de um senhor que estava jogando baralho e a utilizava. Ele se chamava Saladino José Vitório. Fui até ele e disse: ‘Poderia me vender essa fivela de cinta?’. Ele me perguntou o porquê e respondi que queria guardar coisas antigas. Achei que ele fosse me dar uma cintada (risos), mas tirou a cinta e me deu a fivela de presente, a qual também tenho até hoje”.

A partir daí, Silveira nunca mais parou de reunir antiguidades. Quando via que alguma pessoa não tinha interesse por determinado objeto, pedia a essa pessoa de presente ou negociava. 

Casamento
Quando Silveira casou com Delminda, em 1967, a princípio ela não era muito favorável em relação a iniciativa de guardar coisas antigas. “Contudo, pouco tempo depois, passou a ser uma grande incentivadora. Ela diz que estou fazendo o papel certo. Tanto que me ajuda a organizar os itens que reúno, na medida do possível [devido a questões de saúde]. Sem contar que me auxilia a conseguir mais peças; quando vê algo já me avisa”.

Além dos seis filhos, Silveira e Delminda têm 12 netos e seis bisnetos. A única filha que mora em Honório Serpa, na área urbana, é a Rólida. Josélio e Rosecleia moram em Curitiba; Damaris, nos Estados Unidos; e Eliel Paulo e Lindamar, na Espanha.

Um dos seus netos, o Joseph Kaluã, de quatro anos de idade, é um dos fortes candidatos a dar continuidade ao hobby do avô. Ele é irmão de Olívia Maelle, os quais são filhos de Rólida. “Ele prefere ficar o tempo todo aqui no interior. Principalmente durante as férias adora ficar direto aqui conosco. Porque ele me pergunta as coisas, é muito curioso. Inclusive, tenho um relógio de bolso, que sempre pede que seja dado a ele de presente quando crescer”, diz.

O agricultor acrescenta que o interesse às antiguidades deve ser por ele estar próximo ao minimuseu. “Torço para que ele permaneça assim. Estou com esperança que possa dar continuidade nisso”.

Peças
Peças de montaria, indumentária gaúcha, instrumentos de agricultura, relógios, cuias, máquinas de escrever, cédulas, moedas, televisores, rádios, máquinas fotográficas e livros são apenas alguns dos itens que ele coleciona. 

Segundo o agricultor aposentado, os 2.000 itens são oriundos de mais de 60 países e, se for contar minuciosamente item por item [sem repetir, como o dinheiro, que possui várias cédulas e moedas], são cerca de 350 objetos.
 
Parte das peças ele adquiriu, mas a maioria foi presente. Para diferenciar as peças doadas Silveira possui um livro, em que registra o nome de quem o presenteou, o CPF e a sua origem. Durante todos esses anos, ele estima que cerca de 80 pessoas colaboraram de vários lugares, sobretudo de Palmas e Coronel Vivida.

Por ter alguns filhos que moram no exterior, o colecionador visitou pelo menos 15 países, como Holanda, Espanha, Alemanha, Portugal e Estados Unidos. “Alguns dos itens que fazem parte do meu minimuseu consegui pessoalmente no exterior. Mas são poucos, porque não há como trazer muita coisa. Da Itália, por exemplo, trouxe um relógio de vidro; da França, um jogo de taças; da Alemanha, o boné de um brigadeiro que usou na Segunda Guerra Mundial e me presenteou. De outros lugares trouxe chaveiros e por aí vai”.

Recordações
Como o colecionador gosta bastante de ler, o item que mais tem apreço é uma bíblia, que inclusive é uma das peças mais antigas de seu acervo, impressa provavelmente no século XIX.

“Sempre fui voltado à leitura da bíblia. Então quando morei uma época em Curitiba, um cidadão chamado Abel dos Santos me deu essa bíblia de presente. Isso faz uns 40 anos, sendo que ela é uma das primeiras traduzidas para o português. Tanto que, onde menciona ‘Filipenses’, por exemplo, está escrito com ‘Ph’”, destaca, informando que já leu a bíblia na íntegra 16 vezes até então.

Outro item antigo é uma forrageira manual, de 1717. “Consegui com um cidadão de Francisco Beltrão, que se mudou para Coronel Vivida. Fiquei sabendo, corri atrás e consegui. Essa eu comprei, dei uma novilha por ela [esse foi o item que paguei mais caro, inclusive]. A forrageira era de um herdeiro e possui a data em alto relevo, na parte de aço”.

Silveira acrescenta que faz 11 anos que possui esse objeto e o utilizou até pouco tempo atrás. “Como sou pobre financeiramente, não tinha poder aquisitivo para comprar maquinários para a minha propriedade, que pudessem fazer forragem. Então essa nos quebrava um galho. Como quebrou uma peça, não a utilizamos mais, porém nos ajudou bastante”.

Relevância
Muitas pessoas enaltecem a iniciativa de Silveira; outros, segundo ele, consideram uma “besteira correr atrás e não ter lucro. Porque não cobro nada para visitações em minha casa. Ou, quando querem itens emprestados para exposições, forneço na medida do possível”.
Quando algumas pessoas o questionam sobre o que ele ganha com o seu minimuseu, ele responde: “Eu gosto de história. Ganho conhecimento, que é o que gosto. Independente, com mais dinheiro ou menos dinheiro, eu vivo. Não será isso [o museu] que fará a diferença para viver”. O aposentado acrescenta: “Só espero que alguém dê sequência a tudo isso quando eu ‘pedir a conta dessa etapa”.

Casa da Cultura
Tendo em vista as condições de saúde da sua esposa, Silveira colocou à venda a propriedade há algum tempo. “Coloquei a terra à venda também porque a minha idade está avançada. Assim, o ideal seria morar na área urbana de Honório Serpa. Conseguindo vender a minha propriedade, penso em construir uma Casa da Cultura para instalar o minimuseu”, projeta.

Ele afirma que não pretende parar de buscar mais objetos antigos. “Inclusive, se alguém tiver algo que possa colaborar com o acervo, pode entrar em contato. Isso representa para mim a história, pois contando a história em si é uma coisa. Mas vendo é tudo diferente. Se você lê, guarda 30%; enquanto se você vê e pega algo, tem condições de memorizar até 70%. Então é uma forma de passarmos para frente o que sabemos”.

Visitas
Enquanto o colecionador não consegue realizar o seu objetivo de ter uma casa da cultura, ele avisa que recebe visitas de interessados em conhecer o seu minimuseu.

“Será um prazer recebê-los, porque é uma forma de reviver a história e de fazer com que os outros fiquem a par das situações daquilo que passei e do que outros passaram. Única coisa é que o ideal é que venham grupos pequenos, para que eu consiga receber e atender a todos”, convida, lembrando que as visitas são gratuitas e podem ser agendadas pelo telefone (46) 9 9141-6735.

 

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