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E-Atiradores de elite

O grupo de estudantes da UTFPR que está colecionando títulos de torneios universitários de Counter Strike: Global Offensive

Por Nelson da Luz Junior

Fotos: Saymon Sampaio

O desenvolvimento da tecnologia também influenciou o mundo dos esportes. Mais que isso, criou novos esportes. Se até algum tempo, jogos eletrônicos eram vistos como meros passatempos, hoje tem gente que leva essa “brincadeira” bem a sério.

Torneios de esportes virtuais, os E-sports, movimentam hoje milhões de dólares, arrebatam enormes audiências ao redor do mundo e reúnem fãs em torno dos jogadores mais habilidosos, alguns com status de ídolos.

E as estâncias do Sudoeste do Paraná já têm os seus atletas do mundo virtual, que já trouxeram alguns títulos para a região. Lá no Câmpus Pato Branco, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), existe a Associação Atlética Acadêmica das Engenharias UTFPR-PB, ou simplesmente Atlética Engenharias.

É um coletivo estudantil dedicado a promover modalidades esportivas no meio universitário, e consequentemente a prática de exercícios físicos, a integração entre os acadêmicos, a qualidade de vida e todos os outros benefícios que sabemos que o esporte traz – entre outras coisas como:  promover eventos para custear suas atividades e arrecadar alimentos, doados para entidades assistências, além de outras ações de cunho social.

A Atlética mantém equipes e atletas individuais competindo em pelo menos 22 modalidades, masculinas e femininas, como handebol, futebol, vôlei, basquete, futsal, futebol, e esportes eletrônicos. League of Legends, Clash Royale e Fifa, são alguns dos games que já foram ou ainda são jogados por estudantes da atlética.

Acadêmicos como João Vitor Faggion e Osni Venâncio Dorini Romero, ambos de 22 anos de idade, ambos alunos do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

O negócio deles é Counter-Strike: Global Offensive, mais conhecido como CS: GO. Dentro do jogo os atletas assumem outras identidades, os nick names. João Vitor é o “Frodo”, e Osni é o “Marmota”, e é assim que vamos chamá-los.

A franquia Counter-Strike é uma das mais populares da indústria dos jogos eletrônicos. Se você frequentou lan-houses ali pelo início dos anos 2000, muito provavelmente já ouviu falar dela.

Tudo funciona mais ou menos assim. O jogo é uma disputa entre duas equipes de cinco competidores cada: os terroristas e os contra – terroristas.

A função dos terroristas é plantar uma bomba em um determinado local no mapa e garantir que ela exploda. Os contra- terroristas trabalham para que isso que não aconteça. Os times entram no jogo, engatilham suas armas, aplicam sua estratégia e a magia acontece: tiro, porrada e bomba. Em linhas gerais vence a rodada a equipe que cumprir seu objetivo.

Frodo é natural de Pato Branco e começou a jogar videogame ainda criança, algo do Super Nintendo. “Eu tenho um CD com o Mu Online gravado, de 2004”, diz ele. Gamers entenderão. Marmota começou a jogar cedo também, com o bom e velho e clássico Super Mario.

Nenhum deles parou desde então, mas o interesse pelas competições online, apareceu mais recentemente. A história do time de CS: GO da UTFPR foi mais ou menos assim.

Até 2017, alguns acadêmicos já haviam disputado uma competição local, uns contra os outros. Eles se reuniram para formar um novo time, para disputar um campeonato maior, realizado em Francisco Beltrão. Frodo estava nomeio disso tudo.

Foi por ali que começou a se cogitar levar o assunto mais a sério e disputar competições universitárias mais importantes, como o Torneio Universitário de E-Sports (TUES). Em busca de novos jogadores, o time realizou uma seletiva, e é aqui que Marmota aparece.

O jovem conta que jogar profissionalmente estava nos seus planos, mas em outra praia, a do League of Legends, ou simplesmente LOL. Diz ele que tinha futuro, mas… foi banido. A frustração foi grande, e o retorno as telas foi por meio do Counter-Strike. Ele viu o anúncio da seletiva, se inscreveu e entrou no time como reserva.

Apesar de representarem as Atléticas Engenharias, o time ficou mais conhecido como “Patos”, vocês devem imaginar o porquê.  “As competições nos deram bastante visibilidade. Muita gente, mesmo fora da universidade, torce pelo time por saberem que somos de Pato Branco”, conta Marmota.

Com cerca de dois anos de existência, os Patos já têm na prateleira cinco títulos importantes. Em 2017, a equipe venceu o Torneio Universitário de E-Sports (TUES) no primeiro e no segundo semestre.

A edição do segundo semestre rendeu como prêmio uma viagem para Portugal, onde participaram de um torneio amistoso contra os campeões universitários de lá. Perderam, mas no quadro geral o Brasil saiu vitorioso, pois a competição envolvia também outros esportes.

No segundo semestre de 2018 os Patos faturaram mais uma taça do Tues, cuja final foi disputada na Comic Com Experience, um dos mais prestigiados eventos de cultura geek do Brasil, realizado em São Paulo.

Em 2019, o time foi o campeão da primeira edição da Brasil College League (BCL), vencendo a equipe Unicamp Tritons por dois a zero. A disputa aconteceu em junho, em São Paulo, na mesma arena onde são disputados alguns torneios profissionais de e-sports.

O ano ainda reservou o título do Circuito Brasileiro Estudantil (CBE), torneio promovido pela Kalunga, rede de materiais para papelaria e artigos de informática. Além da taça o time recebeu um prêmio de R$ 10 mil.

Este foi o primeiro prêmio em dinheiro que o grupo conquistou. Geralmente os torneios presenciais custeiam transporte, alimentação e estadia dos atletas participantes, ainda que a grande maioria dos torneios sejam disputados de forma remota. Ou seja, os jogadores entram nas partidas de suas casas, ou de ondem estiverem.

Mas o jogo cara a cara é bem mais prestigiado. Além do público, do ritual de um evento, Frodo avalia que o psicológico também é posto à prova, há provocação entre os concorrentes, entre outras peculiaridades que deixam tudo mais emocionante. 

Para ser declarado vencedor da partida, o time precisa vencer 16 rodadas sem que o adversário vença 15, caso contrário o jogo vai para a prorrogação ou é declarado empate, de acordo com o regulamento de cada competição. Uma rodada dura no máximo 2 minutos e 50 segundos, mas geralmente termina em menos tempo.

O time de Pato Branco é formado por Frodo, marmota, phx, vivizera e setzera, os titulares, e guZ, pkx e KBR, os reservas.

Apesar de não ser uma disparidade exorbitante, Frodo e marmorta concordam que, de modo geral, os torneios profissionais de E-sports costumam ter um nível de dificuldade e competitividade maior do que os universitários.

E os guris da UTFPR já se aventuraram nesse meio. Ter ganhado a BCL garantiu uma vaga no Brasil Premier League, torneio profissional de CS: GO. Não ganharam nenhuma partida, mas ajudaram a definir os finalistas.

Em sua última disputa na competição, já apenas cumprindo tabela, se os Patos vencessem 14 rodadas, seu adversário não iria para a final. Eles chegaram a fazer 12, mas perderam a partida para o time que viria a ser campeão.   

O tempo de treinamento e o investimento na atividade contribui para a discrepância. Marmota, por exemplo, trabalha em horário comercial e estuda à noite. Ele mora em Mangueirinha e se desloca diariamente de lá até Pato Branco para frequentar a universidade. Entre ida e volta são três horas dentro do ônibus.

Sobram poucas horas vagas para os treinos individuais. Em média, são 15 horas de treino a cada duas semanas, de acordo com a contagem disponibilizada pelo próprio jogo. “O mínimo para alguém dizer que está se dedicando mesmo é 80 horas”, analisa Frodo. Para um jogador profissional, 120 horas de prática é um tempo razoável.

Profissionais ou não, o que motivo os atletas são razões parecidas. Frodo conta que até desdenhava de Counter Strike, até comprar um pacote de jogos que continha o CS: GO. Em três meses de prática ele já havia conquistava vaga no ranking global online. Subir os degraus o mantém na ativa. “A competição é o que motiva. Você treina e vê que isso deu resultado na hora do jogo”, comenta.

Marmota listou duas razões para o entusiasmo com o mundo dos e-sports. O primeiro foi ter conhecido novos amigos, formado vínculo com pessoas que compartilham o mesmo interesse, o que contribui inclusive para sua dedicação a universidade. E o segundo foram as oportunidades conquistadas por meio do jogo. “Imagino que dificilmente eu teria viajado a Portugal se não fosse um jogador”.

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