Vanilla

Mulher de vanguarda

Marlene Petrikovski sempre teve os pés no presente, os olhos no futuro e ousadia para ser ela mesma

Se contarmos, hoje, a história de uma mulher que sempre tomou a dianteira da casa, pode ser que ainda haja estranhamento por parte de alguns poucos. Contudo, a maioria das pessoas já se habituou a ouvir falar de mulheres ocupando lugares que até então eram tidos como masculinos; mulheres provedoras da casa, que oferecem a chance de o companheiro se descobrir profissionalmente enquanto elas garantem o sustento; garotas que dirigem por aí, sem medo da estrada, levando os filhos para acampar ou para a praia; mulheres vaidosas, que posam para lentes fotográficas com toda sua sensualidade natural; mulheres independentes, autônomas, donas do próprio nariz. Hoje, com o chamado para o empoderamento feminino, essas histórias de coragem, superação e amor próprio são até comuns. Mas há sete décadas a realidade era outra.

É por isso que lhes convido a conhecer a história de Marlene Petrikovski, nome conhecido na cidade por aparecer milhares de vezes nas colunas sociais. Muito mais do que uma mulher bonita, bem vestida e bem relacionada, Marlene carrega consigo a vanguarda de conquistas que ela nem enxerga como tal. “Para mim era o que tinha que ser feito. Então simplesmente fui lá e fiz”, diz.

Gaúcha de Sarandi – RS, mas criada em Passo Fundo, Marlene é a terceira filha mais nova de 11 irmãos. Descentes de italianos, nasceu em uma colônia no Mendes Alto, de onde seu pai tirava o sustento de todos os filhos. “O pai sempre foi muito caprichoso. Construiu uma casa de madeira inteira pintada a óleo, e naquele tempo pintar a casa era um luxo. O quarto das meninas era cor-de-rosa e dos meninos de azul”, relembra.



Os homens mais velhos foram morar em Passo Fundo. No decorrer do tempo, eles influenciaram o pai a mudar também para a cidade maior. “Lembro que fui em cima da carroceria de um caminhão com a mudança. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo”.
Em Passo Fundo, seu pai comprou um terreno de esquina com duas casas de madeira. Era um lote bastante grande, que depois foi desmembrado e vendido aos poucos. Foi onde ele montou um armazém, que vendia produtos alimentícios.

A prosperidade do seu negócio permitiu que ele colocasse as três filhas mais jovens em um colégio de freiras da Congregação Irmãs de Nossa Senhora, com sede em Roma. Esse colégio ficava há uma quadra da casa, ao lado da Igreja Santa Terezinha, hoje Centro de Passo Fundo. “Meu sonho de infância era aprender a dançar ballet e tocar piano, mas as condições financeiras não permitiram”.

Quando Marlene acabou o que hoje é o Ensino Fundamental, ela foi estudar no Colégio Notre Dame, que era considerado um dos melhores do Sul. “Estudavam lá somente 1.200 alunas, todas mulheres. Era uma escola muito rígida. O uniforme tinha que ser impecável: não podia faltar a gravata, meia branca, sapato preto, saia plissada. Se a gente não chegasse de acordo com o padrão, tinha que voltar para casa. Graças a Deus e ao capricho da minha mãe, nem eu, nem as minhas irmãs, nunca fomos para casa”, rememora.

Foi lá que Marlene aprendeu valiosas lições, como a importância da disciplina e pontualidade, lições que conserva até hoje.
Recatada e muito vaidosa, ela costurava suas próprias roupas. “Eu, que cursava inglês, e lecionava para minhas vizinhas para ganhar um dinheiro. Então ia na loja de tecido, comprava os melhores cortes e fazia os modelos que eu queria”.



Também tomou gosto pela matemática, e aprendeu a fazer todo tipo de contas de cabeça estudando contabilidade. “Com o tempo, a matemática se desenvolveu dentro de mim. Naquela hora não gostava muito”. E foi justamente a matemática que, depois, abriu as portas para sua vida profissional.

Pato Branco
Em 1963, uma de suas irmãs iria se casar e se mudaria para Pato Branco. Como a cidade era, naquela época, muito erma, sua mãe escolheu Marlene para lhe fazer companhia. “Naquela hora, coloquei uma loteria no bolso. Iria iniciar uma nova vida, me desvincular do meu pai e da minha mãe, algo que queria muito. Tive uma infância e uma adolescência bonita, mas queria mais”, relembra.

Por outro lado, Marlene cursava inglês e contabilidade em Passo Fundo, e na Pato Branco da década de 60, essas coisas ainda não existiam. “Demorou a chegar. Aqui não tinha nada além de poeira, e quando não era poeira era barro. Mas consegui terminar meu curso de contabilidade no Colégio Augustinho Pereira, no turno da noite. A volta para casa era uma escuridão só. Minha irmã ficava me esperando na varanda e meus colegas me acompanhavam até em casa. Aconteceu de, por estar tão escuro, eu perder a entrada”, conta.

Depois de sua formação como contadora, não demorou muito para ela conseguir ingressar no Banco do Estado do Paraná, onde trabalhou por 30 anos. Naquele ambiente predominantemente masculino, tanto no cumprimento de funções profissionais quanto de clientes, Marlene foi a primeira mulher caixa de banco da cidade, uma função muito respeitada.
“Éramos poucas mulheres perdidas no meio dos homens. Mas, com o tempo, as professoras passaram a frequentar o local”, diz.

Casamento
Nesse meio tempo, Marlene se casou com Bruno Nilo Petrikovski, com quem teve dois filhos, Bruno Nilo Junior e Jucimara. “Conheci o meu marido na frente do cinema. De vez em quando a gente também gazeava aula. Aquele moço, que tinha chegado do exército, estava me paquerando. Eu não vi, mas uma amiga me avisou. Disse a ela, brincando: ‘Fique pra você’”, diverte-se. O ‘moço’ sentou atrás das amigas e ficou o tempo todo olhando Marlene. Através de sua prima, marcaram um encontro na matinê do cinema e nunca mais ficaram longe.

O casal passou a Lua de Mel em Caiobá. “Lá era tudo mato. Para a gente ir para a praia, precisava pular os arbustos”, ri.

Bruno ainda não era formado, e com o decorrer do tempo, Marlene incentivou que ele estudasse. “Ele só tinha o 3º ano primário, e fez supletivo em Xanxerê, onde concluiu o ginásio [o equivalente ao Ensino Fundamental]”, relembra. “Ele também queria fazer supletivo para o científico [Ensino Médio], mas eu queria que ele passasse no vestibular. Então ele decidiu fazer os três anos regulares no Colégio La Salle”.

Em uma folga, quando eles estavam viajando para a praia, o carro estragou no caminho, perto de Ponta Grossa. Na oficina mecânica em que o carro estava sendo consertado, Bruno descobriu que, na cidade, havia o curso de Engenharia Civil. “Ele fez o vestibular e passou de primeira”, conta, satisfeita, Marlene. Em 1976, Bruno ingressou na universidade, e foram seis anos de graduação, com ele morando em Ponta Grossa e Marlene e as crianças em Pato Branco, trabalhando para manter o marido na faculdade. Essa era uma época em que era impensável marido e esposa morarem separados — ainda mais com o homem sendo bancado pela mulher. “Ouvi muitas coisas, mas nunca liguei. Eu sabia que estava fazendo o certo para a minha família”.


Depois que se formou, em pouco tempo Bruno assumiu a regional da Sanepar, ficando responsável pelos 42 municípios do Sudoeste, cargo pelo qual ele é lembrado até hoje. Mas isso só foi possível porque Marlene possibilitou que o marido estudasse, é importante dizer. “Fui arrimo da família até ele ter o primeiro salário da Sanepar”.

Pé na estrada
Marlene, junto com sua família, sempre gostou muito de viajar. Por anos a fio iam todos acampar na prainha de Abelardo Luz, no tempo em que só tinham uma lona para se abrigar. “Vinham aqueles temporais e levava todo nosso acampamento embora”, ri. “Depois compramos uma barraca fechada e, com o tempo, foram construídos chalés, e aí ficávamos neles. Era muito divertido. Mas também íamos para a praia, campo, diversos lugares”.

Em todas as férias fazia questão de visitar seus pais em Passo Fundo. “Era estrada de chão. A viagem era muito longa, precisávamos atravessar o Rio Uruguai à balsa, a ponte ainda não existia. Aprendi a dirigir em um jipe, que era o que conseguia andar no barro naquela época. O teste para tirar carteira era desenhar uma árvore, responder algumas perguntas, não tinha teste de volante. E, olha, dirijo muito bem! São anos de volante, e nunca sequer esfolei o carro”.

Na companhia do marido, conheceu toda a América Latina, onde voltou também depois de viúva.

Durante 20 anos, após a morte do marido, Marlene repartia seu tempo entre Pato Branco e Balneário Camboriú, onde tinha um apartamento. “Matei minha vontade de morar na praia”, diz. “Foram viagens e mais viagens, indo e voltando. Curti muito Balneário, tudo que se possa imaginar”, revela. No entanto, nos últimos anos que manteve moradia no litoral catarinense, ela deixou de ir para a praia, foi parando de sair, e perdeu o sentido continuar com o apartamento por lá.

Nesse tempo, Pato Branco já tinha se transformado, e tudo que Marlene desejava encontrar já havia por aqui. “Amo a minha cidade, e a transformação foi tão grande que pretendo viver mais alguns anos para curtir esse lugar maravilhoso. Sou pato-branquense de coração e gaúcha de tradição. Acredito que me sinto bem aqui porque é uma região de gaúchos, então me sinto em casa”.

Homenagens, jornais e revistas
Quando casal, Marlene tinha uma vida social agitada: eles eram muito bem relacionados. Iam a festas, casamentos, jantares. As roupas de Marlene sempre chamavam a atenção, e lá iam os colunistas sociais fotografá-los. São mais de 1.200 aparições, fotografias e citações sobre ela nos jornais e revistas, todas devidamente catalogadas e guardadas.
Depois do falecimento de Bruno, Marlene continuou aparecendo na mídia, inclusive com matérias e reportagens traçando seu perfil inovador e autoconfiante.

Não por menos. Afinal, a bancária viveu uma vida de salto alto, sem repetir roupa, nem no trabalho, nem nos compromissos sociais. “Sempre gostei de estar em forma, bem vestida. Sou a mais vaidosa das irmãs”. Inclusive, ela própria gosta de cuidar das unhas, do cabelo e da maquiagem.

Mas não é apenas a vaidade que motivou Marlene. “Ajudei várias famílias, umas se destacaram, outras não progrediram. Quem me vê pensa que tenho um guarda-roupas lotado, mas não. Eu sempre compartilhei as minhas coisas”, fala.

E hoje ela compartilha sua história de ousadia conosco, para nos inspirar a exercermos quem somos de corpo, alma e coração, como ela sempre fez.

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