Vanilla

“Pessoal, tem bastante lugar no corredor”

Eu duvidada da possibilidade de poder ficar sem uma cadeira. Era início de noite de um domingo, frio e garoa, uma combinação excelente para ficar em casa. Mas o burburinho é de que era bom chegar cedo, apesar de aquela ser a terceira apresentação da peça Teixeirinha, o Rei do Sul, encenada pelo Grupo Municipal de Teatro de Dois Vizinhos, o GMT, com aquela força do Departamento de Cultura.

Fomos então, eu, esposa e sogra, ambas duovizinheses nativas, para o Centro Cultural Arte e Vida, com meia hora de antecedência, e quase ficamos em pé. Não havia sequer três cadeiras para que pudéssemos sentar juntos, e fomos dois para um lado e um para o outro, naquele clima de nos vemos na saída.

Como ator amador de teatro local que já fui aquilo me impressionou de um jeito ótimo. Sim, sempre houve e ainda há quem prestigie, financie e trabalhe duro pela arte regional. Insinuar que ninguém liga, ou que lotação máxima nunca aconteceu antes é uma tremenda injustiça, sobretudo com os artistas, alguns com décadas de estrada na região.

Mas quem já esteve no tablado, seja interpretando, seja musicando, seja dançando, sabe que aquilo ali não acontece todo ano. Eu mesmo já apresentei peças para 15, 20 pessoas, em pleno Naura Rigon. Teatro cheio, várias vezes seguidas e em um espaço tão curto de tempo é um feito.

Alguma coisa estava acontecendo ali, e as antenas de artista/repórter passaram a prestar atenção em tudo, afinal, se as teorias de comunicação estão certas, não é só texto, foto e vídeo que comunicam. Um aperto de mão, um olhar e um aglomerado de pessoas empolgadas também dizem alguma coisa.

E o moço que deu recados no microfone apontou algumas dicas. Disse ele que, de tão cheias, muita gente teve que voltar pra casa em sessões passadas, e uma apresentação extra já estava marcada para o dia 7 de setembro, que seria dali a uns cinco dias.

Pessoal, tem bastante lugar no corredor, continuou na tentativa de organizar o povo que ainda chegava, e emendou ainda: Gente, quem trouxe cadeira de praia…. Eu não sei o que a turma que trouxe cadeira de praia precisava fazer, porque ri tanto que não prestei atenção. Segui rindo quando o moço avisou que no estacionamento havia um carro com placa tal com o alarme disparado, e que alguém mandou avisar a irmã que a estava esperando na entrada do teatro.

O riso não era deboche, era entusiasmo. Aquilo tinha cara de celebração popular, de festa, tanto que o moço do som reiterou que era para os pais segurarem a onda e não deixarem as crianças subirem no palco durante o espetáculo. Literalmente, o conceito de quebra da quarta parede explicado em um recado paroquial. 

Desnecessário dizer que a roda de chimarrão rolou solta, em um avesso do tradicional alerta de não comer e não beber durante a apresentação. Além disso, filmar não só estava liberado como foi incentivado, e foi exatamente o que aconteceu. No intervalo do espetáculo, que tem quase duas horas de duração, dava para ver os compartilhamentos nos celulares alheios. E mais, os jovens pesquisando informações e fotos reais de personagens da história. Do ponto de vista midiático, estava ali outra explicação para o sucesso.

Teixeirinha, O Rei do Sul, presta alguns grandes serviços. O primeiro: ao quebrar a formalidade e o apelo a montagens mais eruditas ou ambientadas em realidades muito distantes da local, o espetáculo ajuda na formação de público, um dos maiores senão o maior desafio de artistas dos mais variados segmentos. 

Ouvi dizer que a peça foi a primeira assistida por algumas pessoas, e para quem nunca esteve em um teatro é muito mais palatável começar assimilando a experiência de assistir à encenação da história de um ídolo tradicionalista, cheia de música, trajes, ditos populares e afins.

Faz muito sentido em uma região povoada por descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul, e um primeiro passo para convencer o povo a voltar, disposto a experimentar novas experiências, linguagens, e quem sabe clássicos como Nelson Rodrigues, que inclusive é citado no espetáculo em um divertido causo envolvendo ele, Teixeirinha e Guimarães Rosa no céu.

Aqui está outro serviço, dessa vez prestado pelo texto. O causo no céu coloca Teixeirinha, ainda que de forma subjetiva, no cânone dos grandes artistas nacionais, e estimula o público a saber mais sobre esses outros caras, se é que alguém não conhece, ou ainda conhece pouco.

A relevância artística para além das fronteiras do sul é outro debate suscitado pelo espetáculo. Seria Teixeirinha o equivalente a um Gonzagão nascido no Rio Grande do Sul? Eu acho que sim.

Escrito e dirigido por Ivan Lovison, o espetáculo revisita a biografia de Vitor Mateus Teixeira de modo saudosista, mas sem poupar o espectador de momentos controversos de sua trajetória, como o rompimento com Mary Terezinha, sua companheira de palco e de outras coisas mais.

O texto também aproveita para alfinetar o preconceito, do qual Teixeirinha foi vítima por ser filho bastardo. Naqueles tempos, 1927, algumas pessoas eram discriminadas por sua condição. As aspas não são fiéis, mas a fala é mais ou menos essa. Mais atual, impossível. Preconceito muito bem representado pelas Línguas de Trapo, grupo de personagens que entram em cena para fofocar e gerar intriga.

As línguas de trapo

Há muita gente participando do espetáculo, que conta com música ao vivo, danças e que consegue abarcar não apenas os momentos mais significativos da vida do biografado, mas também o impacto de sua popularidade. Filas para assistir aos seus filmes, formada por pais, mães e uma penca de filhos, algo comum no sul do Brasil da metade do século XX, os programas de rádio, os shows lotados. 

Os desafios, improvisações musicais entre Teixeirinha e Mary Terezinha também dão as caras, assim como danças e um tipo de jogral sobre o Internacional e o Grêmio. Além, claro, das músicas, como Velho Casarão, Coração de Luto e muitas outras.

O competente elenco contribui  para o dinamismo do espetáculo, o que não é uma novidade. Dois Vizinhos é há muitos anos um celeiro de talentos e casa de boas montagens. O GMT completou 20 anos de fundação em 2018. Lovison, seu fundador, explica que o grupo é uma ONG que oferece oficinas de formação teatral com o objetivo de levar espetáculos populares, de qualidade e gratuitos, ao maior número possível de expectadores. Em 2014, o grupo foi reconhecido como entidade de utilidade pública e desde então mantém convênio com o Município de Dois Vizinhos. 

No currículo, o diretor artístico e ator conta com estágio na Cia de Marcelo Marchioro, no Teatro Guaíra, além de produções de espetáculos de Zíbia Gasparetto em São Paulo, onde também atuou na produção executiva de trabalhos da atriz Marília Pera.

De certa forma, sempre soube que um dia falaria dele, de sua obra, mas não sabia quando, comenta o diretor, sobre Teixeirinha. Ele conta que seu pai era fã do músico, e ele próprio chegou a aprender algumas músicas e desafios quando criança. Sempre tive grande respeito por esse artista tão genuíno, verdadeiro fenômeno da cultura popular do Sul, completa.

Teixeirinha e Mary Terezinha

Foram cerca de dois anos de produção, desde o início da elaboração do texto até a estreia. De forma paralela, o grupo também produziu outros espetáculos de apelo regional, como Causos do Nono e Polenta com Radiche, este sobre a imigração italiana no sul do Brasil. O próximo, adianta o diretor, deve se chamar o Baile dos Alemon.

Entre setembro e o início de dezembro de 2018, o espetáculo Teixeirinha, o Rei do Sul, foi encenado em cidades como Francisco Beltrão, São Jorge d’Oeste, Chopinzinho, Saudades do Iguaçu, Enéas Marques, Boa Esperança do Iguaçu, Xanxerê, além de ter ganhado prêmios nos festivais de teatro de Ibiporã e Ponta Grossa. Em 2019 o grupo se apresentará no festival nacional de Curitiba.

Para o ator Dioni Rodrigues, intérprete de Teixeirinha, muito do sucesso do espetáculo vem do fato de retratar a vida de um nome representativo da cultura popular da região sul, que faz parte da memória afetiva de muitas pessoas. Acho também que o texto é muito bem escrito, a pesquisa foi muito bem-feita, a história é contada de forma verdadeira; São falados os pontos mais importantes da vida dele de uma maneira muito clara e acessível, completa o ator.

Rodrigues conta ter mergulhado na obra de Teixeirinha para compor o personagem. Viu todos os filmes, considera ter ouvido a maioria do repertório e assistiu a muitas entrevistas, uma delas, para o Vox Populi, exibida pela TV Cultura, foi especialmente representativa. O que mais me chamou a atenção na história do Teixeirinha foi a sua determinação. As dificuldades e todos os processos que ele passou, desde a infância, e onde ele chegou, analisa. 

Também foram significativos os dois primeiros volumes da série O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Diz Rodrigues que os livros e o personagem Capitão Rodrigo foram fundamentais para compreender a história, a cultura e a figura tradicional do gaúcho.

Rodrigues também tem dado entrevistas a rádios e aparecido em público interpretando Teixeirinha, e recebendo as pessoas para fotos após as sessões. Nesse momento a gente consegue ter uma resposta das pessoas, e muitas delas chegam emocionadas, dizendo que reviveram sua história. Algumas conheceram o Teixeirinha, e que ficam impressionadas com a semelhança.

O ator diz que se sente satisfeito com o reconhecimento do espetáculo. Muitas as vezes o artista é marginalizado, e ter um trabalho reconhecido é muito honroso. O trabalho do artista é como qualquer outro, a gente tem uma rotina a ser cumprida, tudo com muita garra, determinação e foco. Então quando o trabalho é reconhecido a gente fica muito feliz, afirma.

(Fotos: Diogo da Silva/Divulgação)

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