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Quando o Nazareth desembarcou em Pato Branco

Há 10 anos, a cidade recebia o show de uma banda de rock conhecida internacionalmente

Eram quase duas da tarde de um dia normal de atendimento no restaurante Proteína, quando uma mulher entrou e perguntou a Alecsandra Rezende, funcionária, se as refeições ainda estavam sendo servidas. As rodadas de espeto corrido já haviam terminado, pois naquele horário a grande maioria do público costumeiro da casa já havia almoçado. Ela disse que era um número X de pessoas e que eu poderia cobrar qualquer valor, que eles queriam almoçar aqui, conta a funcionária do restaurante, dez anos depois do fato.

Conversa com o proprietário, valores acertados, negócio fechado. Foi só então que Alecsandra perguntou à cliente qual era a circunstância da ocasião inusitada.  Olha você sabe que a banda Nazareth vai vir se apresentar aqui né? Pois é, são eles que vão vir almoçar, só que como a gente chegou tarde e eles estão cansados, foi só agora que a gente saiu para almoçar, e aí indicaram o restaurante de vocês. A mulher era tradutora da comitiva.

Em Pato Branco não se falava em outra coisa. No dia 4 de junho de 2009, a banda escocesa famosa pelo hit Love Hurts, Dream on e tantos outros se apresentaria no Clube Pinheiros. 

Ainda que se possa discutir se o Nazareth figura ou não na primeira divisão da história do rock, aquilo era um acontecimento. Especialmente entre as décadas de 70 e 90, grandes nomes da música desembarcaram na cidade, de Raul Seixas a Gonzaguinha. Mas uma banda internacional, como a Nazareth, era uma baita novidade.

O grupo chegou ao restaurante por volta das 14h20 e por lá ficou até o fim da tarde, comendo, bebendo, conversando, tirando fotografias. Eles são umas pessoas inacreditáveis, conta Alecsandra. A notícia de que a banda estava lá logo se espalhou, e curiosos começaram a aparecer na porta do estabelecimento, fechada para garantir a privacidade dos clientes famosos. Alecsandra diz lembrar detalhes do encontro, como por exemplo em quais mesas a banda se acomodou. Foi um dia maravilhoso e inesquecível. Eu sou da década de 80, toca a gente ver essas pessoas pessoalmente. 

Foto: Cicero Santos

No dia seguinte a esse primeiro contato, e também ao show, a banda apareceu novamente. Diz a funcionária que partiu deles o gesto de deixar um cartaz autografado como recordação. Ele está exposto até hoje no balcão do restaurante.

Quando soube da possibilidade de um show do Nazareth acontecer em Pato Branco, o músico e professor Jean Venâncio teve algumas desconfianças. Desconfiou se haveria estrutura, palco, logística para uma apresentação desse porte na cidade. 

Além disso pensou: qual que era a ideia da banda de vir fazer show aqui no interior do Paraná. Eu fiquei surpreso, na verdade.

Jean viu o show com a hoje esposa Kelly, mais do que convencido que aquilo era possível. Diz ele que foi surpreendente ver os caras tocando, com muitos equipamentos próprios, de ponta, e equipe de apoio muito profissional. Trabalhando os músicos também convenceram, ainda que a voz de Dan McCafferty já mostrasse alguma debilidade. 

Debilitado mesmo estava o também músico e professor Julio Koth. Ele não viu a apresentação dos escoceses pois estava doente, mas esteve no Clube Pinheiros, tocando teclado e guitarra para a Jardim Elétrico que abriu os trabalhos da noite. Eu estava muito mal. Terminei de tocar e falei que precisava ir embora, lembra.

Era um tempo de uma espécie de revival da Jardim Elétrico, uma das mais emblemáticas bandas locais. A gente estava tocando todo final de semana. Nem ensaiamos naquelas duas semanas ali, porque eu estava realmente muito ocupado. O que eu lembro foi que a gente pensou que era um negócio diferente de tocar em um barzinho, e tenho a impressão que o normal seria a gente ter tocado coisas (músicas) próprias.

Julio lembra que o salão do Clube Pinheiros estava cheio, e também da repercussão do evento. Era um evento grande, mas assim, guardadas as proporções. Porque Pato Branco teve, por exemplo, o Estação da Luz, que foi um negócio gigantesco. Lógico, (o show do Nazareth) foi um negócio internacional, foi muito legal, lembra, fazendo referência ao já folclórico festival de rock, que em 1994 reuniu no mesmo fim de semana em Pato Branco nomes como Barão Vermelho, Titãs, Pepeu Gomes e Alceu Valença.

Flyer de divulgação do show

 

 

Se para Julio a experiência do show foi breve, para Jean, o negócio começou antes dos primeiros acordes. Quando um ônibus fretado partiu de Pato Branco para buscar o grupo no aeroporto de Chapecó, ele estava dentro.

O voo estava previsto para o início da madrugada, e no hall do aeroporto não teve muita conversa. Diz Jean que conseguiu cumprimentar brevemente o baixista e o guitarrista antes de entrarem no ônibus.  Apesar do horário, que permitia supor um cansaço dos recém-chegados, pelo sistema interno de câmeras do coletivo deu para ver que o caminho foi regado a papo, risadas, alguma bebida não identificada e baralho.

Estamos em abril de 2009. Michael Caldato estava na plateia de um show do Kiss, em São Paulo, quando seu celular tocou. Era o pessoal da produtora Awake, confirmando a viabilidade de uma data do show do Nazareth em Pato Branco. Então beleza, fechou, respondeu.   

Michael tinha 22 anos de idade na época, trabalhava produzindo shows em casas noturnas da cidade, e estava com um desafio nas mãos, pois nunca havia promovido um evento dessa proporção. Tinha também um número para resolver: os cerca de 40 mil dólares de cachê que a banda cobrava na época. 

O resumo de como tudo isso começou foi mais ou menos assim. Dos trabalhos de produção, Michael conhecia um dos sócios da Awake, que já havia promovido shows de bandas internacionais no Brasil, como a apresentação do Scorpions em Ponta Grossa, em 2008.

Em 2009, a produtora iria promover um show do Nazareth em Cascavel, e ventilaram a ideia de esticar a turnê até o Sudoeste. A possibilidade era boa, e o produtor local procurou apoiadores e investidores para o projeto.

Chegou até a Associação Bar do Beti, cuja sede, o bar de Carlos Roberto Bet, mais conhecido como Cali Bet (em memória), ele frequentava. A parceria já estava praticamente acertada quando a produtora ligou confirmando a data.

Parte da associação, formada por amigos frequentadores do bar, ajudou a levantar dinheiro e os preparativos começaram. Michael cuidou principalmente do operacional.

Foto: Kelly Livi

 

Ele fez questão que a banda de abertura fosse uma atração local. Foram enviadas algumas opções para avaliação da produtora. A tradição pesou a favor da Jardim Elétrico. Também ajudou o fato de que, além de muitas canções próprias, a banda tinha um repertório de covers mais próximo do dito rock clássico.

Michael confessa que a experiência de produzir o show teve percalços, que não renderam boas memórias. Havia alguns receios, por exemplo. Eram tempos de crise econômica internacional, e a instabilidade do preço de moedas estrangeiras poderia ser um problema para o pagamento de uma banda que recebe em dólares.

As redes sociais também não tinham a mesma capilaridade que têm hoje, e muito da divulgação foi feita no modo tradicional para a época, como flyers entregues de mão em mão. Além de outros perrengues, que o produtor preferiu guardar para si.  

Mas ele reconhece a importância do feito, e lembra do exato momento em que se deu conta disso. O produtor entrou no camarim, montado na chamada boatinha do Clube Pinheiros, e avisou que o show iria começar. Quando eles subiram no palco eu estava muito cansado, há duas noites sem dormir. Eu sentei, olhei pra cima, o som tava rolando e comecei a chorar. Foi quando bateu a emoção e eu cai na real, de que uma banda internacional famosa estava tocando em Pato Branco, conta.

Das curiosidades da ocasião, Michael lembra da exigência de um ônibus leito para o trajeto de Chapecó a Pato Branco, compreensível após um voo de várias horas. Outro pedido foi uma mesa de som analógica, incomum para a época já dominada pelos equipamentos digitais.

Acharam uma mesa de acordo em Cambé, Paraná. Foi preciso oito pessoas para descarregar o equipamento do caminhão. A passagem de som durou a tarde toda.

Cerca de 2.400 pessoas assistiram ao primeiro show do Nazareth em Pato Branco. Primeiro, pois no ano seguinte o grupo voltou para um bis, também no Clube Pinheiros. Neste ele não se envolveu.

Depois do Nazareth, e de promover outros shows, como o de Paul Di´Anno, ex-vocalista do Iron Maiden, e também por conta de um problema de saúde, Michael seguiu outros rumos profissionais.

 

Show histórico  
A matéria publicada no Diário do Sudoeste em 4 de junho de 2009 classificou o show como histórico. O texto assinado pelo jornalista Rafael Barzotto trazia ainda uma entrevista com o vocalista Dan McCafferty, que falou sobre as diferenças de tocar rock n roll nos anos 60 e naquela época. Disse ele: Eu acho que o sentimento é o mesmo. As tecnologias virtuais facilitam as gravações das músicas. Mas não mudou muito. As distorções continuam as mesmas e as vibrações também continuam as mesmas.

Pete Agnew e Dan McCafferty (Arquivo/Diário do Sudoeste)

 

Perguntado sobre as diferentes gerações que acompanham a banda, Dan respondeu: Eu acredito que a razão de ouvir rock n roll não tem nada a ver com a idade. O nosso público é formado tanto por caras velhos quanto por gente nova. Eles estão apenas ouvindo música. Então quando a música é boa, a música é boa. O vocalista também contou que estava ouvindo Kings of Leon, Bob Dylan e heavy metal.

O Nazareth veio a Pato Branco com a turnê de divulgação do disco Newz. A formação da época contava com Dan McCafferty (vocal), Pete Agnew (baixo), Jimmy Murrison (guitarra) e Lee Agnew (bateria).

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