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Quem é Nice, a primeira a receber a vacina contra a covid-19 em Pato Branco?

Foto: Rodinei Santos/Assessoria PMPB

Vinte de janeiro de 2021, uma quarta-feira, entrou para a história de Pato Branco por ter sido o dia em que a vacina contra a covid-19 começou a ser aplicada no município. Nessa primeira remessa chegaram 1.500 doses da vacina.

No Largo da Liberdade, diante dos holofotes da imprensa e de lideranças e autoridades locais, assim como a data, a enfermeira Nice também fez história, pois foi a primeira a ser imunizada contra o novo coronavírus.

Além dela, mais três profissionais da saúde também foram símbolo dessa grande conquista da ciência em defesa da vida: Clarice Maria Bernardo de Almeida, técnica de enfermagem, de 58 anos; o médico Roberto Rivas, de 68 anos; e William Holderied, 41 anos, médico regulador e intervencionista do Samu 192.

Mas quem é Nice?

Eunícia de Souza Lourenço, 61 anos, conhecida por todos como Nice, é enfermeira e atua na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) desde a sua implantação no município, em 2015.

Unidade sentinela da covid-19, a UPA recebe diariamente dezenas de pacientes com sintomas respiratórios, muitos contaminados pelo novo coronavírus, alguns em situação grave, além de pacientes com traumas e outras doenças que exigem intervenção de urgência e emergência.

Pós-graduada em Educação Permanente em Saúde (UFRGS) e em Ginecologia e Obstetrícia (CENSUPEG), Nice graduou-se em Enfermagem em 2010, pela Faculdade de Pato Branco (Fadep).

Ela conta que chegou no município em 1986, trabalhou como babá e cuidadora ao mesmo tempo que iniciou atividade no Hospital Policlínica, onde trabalhou por 20 anos. Antes disso, em 1984, trabalhou no Hospital Santo Antônio, em Chapecó.

“Já na Secretaria Municipal de Saúde ingressei em 1990, no antigo Pronto Atendimento Municipal (PAM), onde permaneço até hoje, atuando por sete anos como gerente de enfermagem e atualmente como chefe do setor UPA”, revelou.

Para saber mais, a revista Vanilla conversou com a enfermeira Nice, que revelou detalhes sobre como foi receber a vacina, o que mudou na rotina da UPA com o início da pandemia, o motivo da sua escolha profissional, entre outros fatos e situações cotidianas.

Revista Vanilla – Onde nasceu Eunícia de Souza Lourenço e o que sonhava ser quando crescesse?

Eunícia de Souza Lourenço – Sou natural de Colatina, no Espírito Santo, e resido em Pato Branco há 35 anos. Quando criança pensei em ser professora, dentista. Mas, foi em 1983, aos 23 anos, que despretensiosamente decidi fazer um curso gratuito de Atendente de Enfermagem, pelo Senac, em Quilombo (SC).

Acredito que a Enfermagem me escolheu! Essa formação inicial abriu oportunidades de trabalho e de crescimento pessoal e profissional. Já em Pato Branco, continuei me aperfeiçoando e fiz o Auxiliar e o Técnico em Enfermagem, também pelo Senac.

Atua na UPA há quanto tempo?

A UPA foi inaugurada em Pato Branco em 2015, dando sequência e ampliando o trabalho da urgência e emergência que já era realizado em Pato Branco através do PAM – Pronto Atendimento Municipal, desde 1990, data de nascimento do PAM e de meu ingresso na Secretaria Municipal de Saúde.

Quais outros locais já trabalhou?

Quando trabalhava na Policlínica e no PAM já cheguei a fazer 60 horas ininterruptas de plantão, quando conciliava o trabalho nas duas instituições que trabalhava na época.

Como costumava ser a rotina na UPA antes da pandemia?

Antes da pandemia nossa rotina de trabalho se baseava em atendimentos de urgência e emergência relacionados a diferentes condições de saúde, cardiovascular, psiquiatria, pediatria, clínica médica, acidentes/traumas.

E agora?

Em março de 2020, com a chegada da pandemia no Brasil, tivemos que nos adaptar a uma situação desconhecida, ainda não vivenciada por nenhum de nós. Alguns funcionários foram afastados por comorbidades, trabalhando em home-office. A UPA passou por adaptação aos novos protocolos, reestruturação de layout, ampliação de setores, treinamento da equipe, para podermos lidar com as novas demandas e oferecer um atendimento seguro para colaboradores e pacientes. A minha rotina se tornou trabalho-casa, casa-trabalho. Raríssimas vezes saí para outros motivos, como mercado.

Como foram os primeiros dias de pandemia?

No primeiro lockdown eu e mais alguns colegas do grupo de risco fomos afastados, para trabalho em home-office ou para outros setores. Sentia necessidade de estar junto, dando o suporte para minha equipe. Após esse breve período trabalhando remotamente retornei ao trabalho presencial e demos continuidade aos trabalhos na UPA.

Os primeiros meses foram de adaptação, medo, insegurança, de pensar em meus colegas, expostos diariamente, na dedicação ao trabalho e aos pacientes, e em meus familiares.

Em algum momento imaginou viver uma situação de saúde tão grave e intensa?

Foram também meses de aprendizado, esperança, crescimento pessoal e profissional e confiança em nosso trabalho, uns nos outros da equipe, sempre nos apoiando, nos fortalecendo para o enfrentamento dessa situação tão singular, a qual jamais imaginávamos vivenciar em nossa geração.

Quais os principais medos?

O medo de levar contaminação para a família, colegas, ficar longe da família, foi algo que espantou muito, assim como o distanciamento das pessoas que mais amamos.

Qual foi a pior situação pela qual passou?

Quando comecei a ver os primeiros casos entre os colegas, porque sabíamos que para alguns a evolução poderia ser crítica. Víamos as notícias do que estava acontecendo fora do país, como por exemplo na Itália, e aqui no nosso país os números aumentando a cada dia, então por alguns momentos fiquei muito preocupada. Ligava ou mandava mensagem para todos para saber como estavam, aliviando um pouco a tensão psicológica. O número de funcionários adoecendo com a Covid chegou próximo a 20 funcionários num mesmo período. Graças a Deus todos evoluíram bem, e não tivemos nenhum caso de funcionários da UPA com complicações da doença. Em 2009/2010 passamos pela pandemia da gripe H1N1, mas nem se compara com essa pandemia da Covid-19 que estamos enfrentando.

Em algum momento chegou a perder as esperanças?

Em nenhum momento perdi as esperanças pois confiava e confio muito em Deus e na equipe que está prestando os serviços a nossa população.

Vivenciou algum caso que marcou muito?

Durante todo esse período que ainda estamos vivenciando da pandemia de Covid-19 buscamos sempre olhar de forma positiva, cada vida que passa por nós e que se recupera é comemorado por toda a equipe. No entanto, quando sabemos que perdemos uma vida, a tristeza toma conta de todos. Nesses dois últimos meses isso tem se tornado mais frequente, infelizmente, devido ao aumento e à gravidade dos casos.

Acreditava que a vacina pudesse ser descoberta em tão pouco tempo?

Quanto à vacina, sempre acreditei que seria descoberta em tempo recorde, pois a comunidade científica já conhecia e estudava outros coronavírus e contou com grande investimento de governos e entidades privadas para custear o trabalho dos cientistas. E isso cumprindo todas as etapas de verificação de segurança e eficácia, para chegar a uma solução efetiva que possa tirar o mundo dessa crise sanitária.

Como profissional da saúde, como você vê a falta de apoio à comunidade científica?

Apesar de a ciência brasileira ter se elevado muito nas últimas décadas, o Brasil ainda investe e fomenta pouco na Pesquisa e no Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Isso impacta diretamente em toda a sociedade. Um dos impactos é ampliando a desigualdade social, que estamos assistindo tomar proporções cada vez maiores em nossa nação. Outro impacto muito sentido por todos nós é o atraso no desenvolvimento e na produção de imunizantes para a Covid-19. Neste momento, estamos muito dependentes de outros países, mas teríamos total condições de estarmos a frente nessa etapa de imunização, tendo em vista a capilaridade do nosso Sistema Único de Saúde e a competência do nosso Programa Nacional de Imunização, que sempre foram exemplos para o mundo.

Pato Branco vive atualmente o pior momento da pandemia, o que a UPA está fazendo para dar conta da demanda diária?

Para atender o aumento da demanda por atendimento Covid estamos sempre revisando protocolos, em diálogo com a equipe e com os órgãos e gestores competentes, aumentando recursos humanos e estruturais para nos adequarmos à demanda.

Você teme que esse cenário se agrave?

Certamente existe o temor de que o atual cenário, que já é assustador, venha a piorar. Contudo, se houver uma conscientização da população, uma união de esforços de todas as esferas da sociedade, poderemos e vamos vencer essa terrível e temível doença.

Como reverter essa situação tão crítica?

Com a ação de todos. Você, eu, cada um de nós, precisamos fazer a nossa parte: usar máscara, higienizar as mãos, distanciamento social e informação correta.

Tem orgulho da sua profissão?

Tenho e muito! Tenho muito orgulho de ser Enfermeira, do cuidado que pude proporcionar às pessoas, bem como das conquistas pessoais que minha profissão e meu trabalho me proporcionaram.

Foi difícil chegar onde chegou?

Dizer que foi difícil? Fácil não foi, mas quando paro e olho para trás, penso: será que passei por tudo isso? Dedicar-me à criação e educação de duas filhas gêmeas, trabalhar e estudar, cuidar da casa. Lembrando que sempre tive o apoio das minhas irmãs, Tia Alva e Tia Lange, ambas profissionais da saúde também.

Na época a gente conseguia revezar os horários e assim se passaram 35 anos. Tenho duas filhas maravilhosas, construímos juntas nossas histórias, uma segurando a mão da outra em todos os momentos.

Então, trilhei um longo caminho, com vários obstáculos, mas que foram vencidos, com dedicação, perseverança, fé em Deus. Acreditando em mim e com o apoio constante das minhas coordenações e da minha família consegui vencer!

Que conselhos daria para os jovens que sonham em trabalhar na área da saúde?

O conselho que eu deixo aos que estão pensando em ingressar nesta área é que, primeiro, temos que ter empatia, assim como amor ao próximo, ética, saber ouvir e trabalhar em equipe, ser responsável. Saber se é realmente isso que almeja, pois não é nada fácil. Não temos horário, não temos final de semana, não temos natal, ano novo, Dia das Mães! É dedicação e comprometimento. Quando ingressamos nessa profissão, é necessário ter vocação, pois exige abdicar de estar com a nossa família para cuidar do familiar de alguém.

Qual sua avaliação sobre o trabalho que os profissionais de Saúde vem realizando no país, na pandemia?

Nota 10 para todos os profissionais de saúde. Em muitos lugares, profissionais da saúde estão morando nos hospitais, longe dos filhos, pais, familiares. Mesmo cansados, após quase um ano dessa luta, continuam firmes trabalhando diuturnamente, muitas vezes sem se alimentar ou se hidratar adequadamente.

E a estrutura em que eles trabalham, quais os principais problemas enfrentados?

É muito relativo. Em algumas regiões falta recursos humanos, materiais, estrutura, até mesmo hospital. Enquanto em outros centros, a realidade é outra, muito mais avançada, desenvolvida. E esse é o nosso Brasil de extensões continentais e de grande desigualdade, inclusive na área da saúde. Os profissionais que trabalham em áreas remotas e com escassez de recursos, são verdadeiros heróis, assim como todos os demais que estão na linha de frente da pandemia. Todos temos nossas lutas diárias.

Como foi ser a primeira pessoa vacina em Pato Branco e ficar na história por conta disso?

Foi um misto de emoções. Uma grande felicidade pelo reconhecimento por ser escolhida por ser uma das funcionárias ativas mais antigas da Secretaria Municipal de Saúde, assim como minha colega Clarice, Dr. Roberto Rivas e Dr. William, do Samu, que estavam comigo neste grande dia.

O que sentiu na hora que estava recebendo a vacina?

Me senti alegre por estar recebendo a vacina e poder ficar mais protegida contra esse vírus. Porém, preocupada por minha família ainda não ter recebido e não ter perspectiva de quando irá receber.

Pinga-fogo

Família

Sou solteira, tenho duas filhas gêmeas, Alice e Alessandra; uma neta, Alicia; dois genros muito queridos, Marcos e Márcio. Tenho seis irmãos e meus pais já são falecidos.

Lazer

Nas horas de lazer gosto de ficar em casa, assistir um bom filme ou uma boa série.

Hobby

Meu hobby é cuidar de plantas. Gosto muito de cuidar do meu jardim e da minha horta. Também amo estar com a minha neta, algo que infelizmente reduziu bastante nesse período de pandemia.

Sonhos

Viver a minha vida da melhor maneira possível, curtir minha família, viajar com a minha família quando essa pandemia passar.

Daqui há dez anos

Gostaria de estar no sossego da minha casa, se Deus quiser!

Uma frase

“É fácil derrubar e destruir. Os heróis são aqueles que fazem a paz e constroem”, de Nelson Mandela.

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