Vanilla

Tudo está nos laços

Não é gravata definitiva, mas queria liberar a matéria o quanto antes. na edição eu ajusto

Há cerca de dois anos, a paulistana Kelly já havia ouvido falar o suficiente sobre constelação familiar para querer matar a curiosidade. Ela participou de uma sessão mesmo sem entender muito bem do que se tratava. Nesse primeiro contato ela participou como coadjuvante no processo de constelação de um rapaz, que estava esmiuçando sua relação com o pai. Kelly representou esse pai.

A jovem voltaria a ter contato com a constelação familiar em mais algumas ocasiões, desta vez se submetendo ao processo. Em uma sessão específica, ela participou de um exercício de desapego. Na semana seguinte, Kelly foi demitida.

Por conta da demissão, a consteladora propôs um exercício relacionado com ancestrais, e na ocasião Kelly pensou no pai, que ainda não sabia do acontecido. No mesmo dia, ele telefonou. Familiarizado com as culturas populares, ele sugeriu algumas práticas que aprendeu com benzedeiras para que o ambiente de trabalho melhorasse.

O pai não sabia da demissão, mas sabia que as coisas não andavam bem para a filha no âmbito profissional.

Kelly não acredita que tenha sido demitida por ter feito constelação familiar, e para ela o telefonema do pai exatamente no dia da sessão foi coincidência.

Mas foi desse modo que ela contou a história sobre sua relação com a constelação, para ilustrar que a terapia contribuiu para que ela refletisse sobre um assunto que estava latente naquele momento da sua vida. Ela acrescenta que o processo foi positivo pois também a fez pensar a respeito de uma questão familiar importante.

“Foi num momento que me fez bem, e eu achei que talvez foi uma forma de exercer algum tipo de cuidado com a espiritualidade”, disse a jovem, apesar de saber que a terapia não é uma prática religiosa, mística ou sobrenatural.

Fernando Vendrusculo procurou a constelação familiar para buscar resolver uma questão pessoal: o equilíbrio financeiro. Mesmo estudando suas finanças, trabalhando o tema na psicoterapia, enfim, buscando alternativas para a questão, a sua vida financeira “não fluía”, como ele mesmo descreve.

Uma conhecida o colocou em contato com a constelação familiar, e ele foi até Florianópolis conhecer a terapia, que na época ainda não era tão difundida em Pato Branco.

As terapias familiares já estavam em seu radar por interesse profissional. Fernando é psicólogo, e ao longo de sua carreira foi buscando especializações de acordo com as demandas que percebia em seu consultório.

Segundo ele, a experiência foi transformadora. “Eu fui vendo o quanto o meu movimento interior não estava olhando para a prosperidade pessoal. A minha prosperidade olhava para a dor do meu sistema familiar, a falência de um avô”, conta ele, sobre seu processo de constelação.

Em resumo, prosperar financeiramente seria trair um sistema de crenças, construído pelas relações e discursos familiares que vinham desde a infância. Fernando lembra de ouvir que dinheiro era efêmero, que um dia você tem e no outro ele vai embora.

Ele usa o próprio exemplo para ilustrar como as relações familiares explicam muito do comportamento humano, além de onde e de que forma a constelação familiar atua. Por conta da sua vivência, ele decidiu se especializar no assunto e se tornar um constelador. “Eu só sou constelador familiar pois eu fui beneficiado pelas constelações. Minha vida profissional e pessoal mudou por conta da constelação familiar”, conta.

Através da constelação, Fernando descobriu que poderia honrar o avô por meio da prosperidade. “Quando estamos no trauma, só olhamos para o sofrimento. Eu passei a olhar para a prosperidade dele, e não para o que ele perdeu”, explicou.

A partir de então, as coisas começaram a fluir.

Motivado pelo que chama de rigor teórico, Fernando diz se concentrar em aplicar a constelação nos princípios do criador da terapia, o alemão Bert Hellinger.

Segundo o psicólogo, o processo começa quando alguém decide que quer constelar, e o constelado pode trazer qualquer tipo de questão para a terapia. Ou seja, apesar do nome, a terapia não é feita exclusivamente para abordar problemas familiares.

A partir da definição do que é chamado de queixa, começa o diálogo e o trabalho de investigação do profissional. “Toda constelação começa olhando para o início da vida: pai e mãe. Como que eu acolho a vida que eu ganhei desse pai e dessa mãe? A forma como eu lido com a vida que eu ganho vai predeterminar a forma como eu vou me conduzir na vida”, explica Fernando.

Às vezes a conversa é suficiente para que o constelado comece a perceber algumas coisas. Às vezes é necessário uma representação, que pode ser feita por meio de bonecos ou de outras pessoas. “Com as âncoras, os bonecos, a pessoa configura um desenho, e ela mesmo pode visualizar o movimento da alma dela”, justifica o psicólogo.

Fernando não chama a constelação familiar de abordagem. Ele prefere usar a definição de Hellinger: filosofia prática. Tampouco considera um método, pois segundo ele cada pessoa é única. As coisas reveladas no processo são particulares, mesmo para irmãos nascidos de mesma mãe e do mesmo pai.“Eu gosto de chamar de percurso de vida. Porque a partir do momento que eu compreendo as leis que regem a nossa alma, não tem mais como eu me posicionar na vida, nas relações da mesma maneira”, completa.

E aqui, “alma” não significa uma representação espiritual como para o cristianismo, por exemplo. Trata-se de um termo para ilustrar a psiquê humana.

Para detalhar um pouco mais o olhar da constelação familiar, Fernando recorre novamente a Hellinger. Ele explica que o “eu”, não existe, é uma construção social. Os nomes e sobrenomes ajudam a ilustrar que os indivíduos são formados por sistemas familiares diferentes.

“Eu não vim do nada. Sou 50% meu pai e 50% minha mãe, isso dá 25% dos avós, e assim vamos fracionando. Então sou um pouco daquilo que todos eles foram e viveram, pensaram e sentiram”, detalha.

Apesar de sua formação acadêmica, Fernando explica que a constelação familiar não está vinculada ao Conselho Federal de Psicologia. Ou seja, não é necessário ser um psicólogo para se tornar um constelador familiar.

O profissional considera a Hellinger Schule a principal referência em educação para o tema no mundo. Para quem tem interesse no assunto, o psicólogo recomenda pesquisar o histórico do profissional a que pretende se submeter.

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