Da Etiópia ao Brasil: conheça a jornada do Café

A história do café começa longe daqui, nas florestas altas da Etiópia, onde uma das bebidas mais queridas do planeta deu seus primeiros passos. Nas antigas províncias de Cafa e Enária, o que era apenas um fruto vermelho passou, com o tempo, a movimentar economias, inspirar cultura e transformar a forma como as pessoas se encontram e conversam. Não é exagero dizer que o café saiu do pé para virar fenômeno social, econômico e simbólico.

A famosa lenda do pastor Kaldi ajuda a ilustrar esse começo. Conta-se que ele percebeu algo estranho no comportamento de suas cabras: depois de comerem os frutos avermelhados de um certo arbusto, ficavam inquietas, cheias de energia. Curioso, Kaldi teria experimentado também e descoberto o efeito estimulante da planta. Mito ou não, a história segue viva até hoje porque traduz bem o impacto dessa descoberta.

Historicamente, porém, há registros mais concretos. Por volta de 575 d.C., povos etíopes já consumiam o café de formas bem diferentes da xícara fumegante de hoje. A polpa do fruto era macerada e misturada com banha, formando uma espécie de “pasta energética”, ou transformada em sucos fermentados a partir de técnicas ancestrais. A ciência moderna levou essa narrativa para um patamar ainda mais fascinante: estudos de genoma mostram que o café arábica surgiu de um cruzamento natural entre duas espécies distintas de café, ocorrido há aproximadamente entre 610 mil e 1 milhão de anos nas florestas etíopes. Em outras palavras, o arábica é mais antigo que a própria espécie humana, já que o Homo sapiens apareceu na África há “apenas” 300 mil anos.

Da Etiópia à Arábia: o café atravessa o mar

A travessia do Mar Vermelho foi o primeiro grande salto da bebida rumo ao mundo. Em 525 d.C., invasores cristãos etíopes levaram sementes de café para a Península Arábica. No Iêmen, o café encontrou clima e solo ideais, e, pela primeira vez, passou a ser cultivado de forma organizada, em plantações estruturadas. Ali, deixa de ser apenas um alimento consumido ao natural e começa a se tornar uma cultura agrícola sistematizada.

O passo decisivo, porém, veio com os árabes. No século XI, eles desenvolveram a prática de torrar os grãos e preparar a bebida de fato, aproximando-se do café que se conhece hoje. Até o próprio nome guarda essa história: “café” deriva do árabe qahwa, que significa “vinho”, um sinal claro da importância quase ritual que a bebida ganhou no mundo islâmico. No século XV, místicos sufis consumiam café durante longas noites de oração para se manterem despertos e concentrados, reforçando o papel espiritual e medicinal da planta.

Quando o sultão Suleiman, o Magnífico, conquistou o Iêmen em 1538, o café entrou oficialmente no Império Otomano. Em menos de um ano, os grãos já circulavam em Constantinopla, mostrando a rapidez com que a novidade se espalhava e a demanda crescente por esse produto “exótico” que, em pouco tempo, deixaria de ser novidade para se tornar hábito cotidiano.

Império Otomano: onde o café vira centro de conversa e poder

Constantinopla, atual Istambul, virou o coração da cultura do café entre os séculos XVI e XVII. Em 1555, surge a primeira cafeteria documentada, a kahveh khaneh, aberta durante o reinado de Suleiman, o Magnífico. Na década de 1550, essas casas se multiplicam, registradas pelo cronista otomano İbrahim Peçevi como espaços totalmente inovadores de sociabilidade.

Esses locais não eram apenas pontos de consumo; eram verdadeiros centros de efervescência intelectual. Poetas, estudiosos, religiosos, comerciantes, curiosos – todos se encontravam ali para conversar, ouvir histórias, recitar poesia, discutir política, debater literatura e até jogar xadrez. De certa forma, o café redefiniu a vida cultural da cidade, criando novos espaços públicos de encontro que, em termos de importância social, rivalizavam com as próprias mesquitas.

Claro que tudo isso não passou despercebido pelos poderes político e religioso. Muitos líderes temiam que as cafeterias funcionassem como incubadoras de ideias subversivas e debates considerados perigosos. Em 1511, o governador de Meca chegou a proibir o consumo de café, alegando que o efeito estimulante poderia levar à desordem. A proibição durou 13 anos, até ser derrubada. No Império Otomano, sultões fecharam cafeterias repetidas vezes. Mesmo assim, elas reapareciam clandestinamente, em um jogo de “abre e fecha” que, no fim, só comprovou uma coisa: o café havia se tornado indispensável.

Com o tempo, a importância econômica da bebida falou mais alto. Grandes vizires, ministros do sultão, passaram a investir diretamente na construção de casas de café, alugando os espaços e incorporando o negócio à estrutura oficial do Estado. Pela rota comercial com Veneza, o café começou a avançar lentamente em direção à Europa Ocidental.

Em 1652, em Londres, Pasqua Rosée, criado de um comerciante da Levant Company, inaugurou a primeira cafeteria da cidade, em St. Michael’s Alley. O modelo era simples e revolucionário: por um centavo, o cliente podia beber café à vontade e participar de conversas animadas. Não demorou para que esses lugares ganhassem o apelido de “universidades do centavo”, tamanha a quantidade de debates, troca de informações e negociações que ocorriam ali.

Café no Brasil: contrabando, charme e mudança de rota

A chegada do café ao Brasil daria um ótimo roteiro de filme: diplomacia, sedução, contrabando e, no fim, a transformação de toda uma economia. Em 1727, o bandeirante Francisco de Melo Palheta, a serviço da Coroa Portuguesa, recebeu a missão oficial de conseguir uma muda de café na Guiana Francesa, onde a planta já era considerada altamente valiosa.

Palheta cumpriu a tarefa combinando habilidade política com carisma pessoal. Em Caiena, capital da colônia, aproximou-se de Madame d’Orvilliers, esposa do governador. A relação de confiança – e, segundo a tradição, de encantamento pessoal – acabou rendendo o que Portugal queria: uma muda de café arábica entregue discretamente à Palheta. A planta foi escondida na bagagem e atravessou o Atlântico de forma clandestina. Como a exportação de mudas e sementes de café era proibida na Guiana Francesa, o gesto envolvia risco político real para a família do governador. No entanto, esse ato ilegal seria lembrado como um divisor de águas para o futuro do Brasil.

As primeiras mudas foram plantadas em Belém do Pará e se adaptaram bem no início. Porém, as condições climáticas da Amazônia não se mostraram ideais para uma expansão comercial em grande escala. Entre 1800 e 1850, várias tentativas de cultivo em outras regiões enfrentaram limitações, até que o desembargador João Alberto Castelo Branco levou mudas do Pará para o Sudeste. A partir do Rio de Janeiro, o café avançou para São Paulo e Minas Gerais, encontrando, aí sim, as condições perfeitas para explodir em produtividade e riqueza.

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O boom do café e a construção da “identidade cafeeira” do Brasil

Em pouco tempo, o café deixou de ser uma cultura promissora para se tornar o carro-chefe da economia brasileira. Em 1830, apenas três anos após a transferência para regiões com clima e solo mais favoráveis, o café já liderava a pauta de exportações, ultrapassando açúcar e algodão. Na segunda metade do século XIX, o “ciclo do café” remodelou profundamente a economia, a sociedade e até a geografia do país.

Duas áreas se destacaram como protagonistas: o Vale do Paraíba (entre Rio de Janeiro e São Paulo) e o Oeste Paulista. Nessas regiões, consolidou-se o modelo de plantation: grandes propriedades monocultoras, voltadas à exportação e baseadas na mão de obra escravizada – uma ligação incômoda, mas incontornável, na história econômica do Brasil. A crise do Haiti, que até o século XVIII era o maior produtor mundial de café, abriu espaço para que o Brasil assumisse a dianteira do mercado internacional.

O café também puxou investimentos em infraestrutura em escala inédita. A necessidade de escoar a produção do interior até o litoral levou à construção da Ferrovia Santos–Jundiaí, a primeira ferrovia brasileira com objetivo claro de transportar café até o porto. À medida que a cultura cafeeira avançava para o Oeste Paulista, o país se via obrigado a encontrar soluções de transporte rápidas e eficientes, impulsionando a expansão ferroviária a partir de 1850.

Entre 1880 e 1890, São Paulo viveu o auge desse desenvolvimento ferroviário. Trilhos se espalharam acompanhando o avanço das fazendas, e surgiram grandes centros cafeeiros no interior: Limeira, São Carlos, Araraquara, Descalvado, Jaboticabal e, em especial, Ribeirão Preto, que ganharia a fama de “capital do café”. O comércio triplicou de volume, a produção paulista passou a representar metade de todo o café produzido no país, e a imigração europeia, incentivada pelo governo, alterou radicalmente a composição demográfica da região.

Grandes cafeicultores e comerciantes paulistas financiaram ferrovias privadas como Paulista, Mogiana e Sorocabana, todas com a função estratégica de ligar áreas produtoras ao Porto de Santos, que se consolidou como principal saída do café brasileiro para o mundo. As linhas férreas seguiam exatamente o rastro da expansão cafeeira: onde o café chegava, os trilhos logo apareciam.

Ao longo de toda a segunda metade do século XIX, a receita do café deu fôlego às finanças nacionais. O país registrou superávits crescentes no comércio exterior a partir de 1860, mesmo com o aumento das importações necessárias ao desenvolvimento. A renda maior estimulou outras atividades, inclusive a indústria: entre 1850 e 1870, o número de estabelecimentos industriais cresceu dez vezes, indicando que o café era, de fato, o motor de uma transformação econômica mais ampla.

Trabalho, escravidão, abolição e imigração

Falar em café no Brasil é, inevitavelmente, falar de trabalho escravo e das mudanças que levaram à imigração europeia. Entre 1835 e 1850, o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas atingiu níveis máximos, em grande medida para suprir a demanda das lavouras do Sudeste. Muitos fazendeiros do Vale do Paraíba, formados ainda sob a lógica do período colonial, resistiam a qualquer projeto de abolição. Para eles, era quase impensável sustentar grandes plantações sem a mão de obra escravizada.

A Lei Eusébio de Queirós, de 1850, mudou esse cenário ao proibir o tráfico de africanos. O efeito foi imediato: a mão de obra escravizada ficou muito mais cara, elevando o custo de produção e dificultando a entrada de novos produtores. Outras leis, como a do Ventre Livre (1871), reduziram ainda mais a disponibilidade de pessoas escravizadas e abriram crise de mão de obra. A partir de 1868, o movimento abolicionista ganhou corpo, apoiado por políticos liberais, intelectuais e fazendeiros modernizadores, que passaram a defender uma transição para formas de trabalho livres.

Ainda antes da proibição do tráfico, alguns cafeicultores paulistas experimentaram sistemas de parceria com trabalhadores estrangeiros para substituir o trabalho escravo. Esses modelos, porém, muitas vezes fracassaram por conflitos e divergências culturais. A solução mais duradoura veio com a imigração europeia em larga escala, especialmente de italianos, incentivada pelo governo brasileiro a partir da segunda metade do século XIX. Esse processo mudaria a cara do interior paulista e criaria a base social para a industrialização do século XX.

O Paraná: de potência cafeeira a referência em cafés especiais

No século XX, o estado do Paraná assumiu um papel central na história recente do café no Brasil. O norte paranaense viveu um processo acelerado de ocupação territorial, impulsionado pela promessa de riqueza da cafeicultura. Em 1920, o estado já ocupava a sétima posição entre os produtores de café do país, com 1.215 fazendas registradas — um salto impressionante em tão pouco tempo de colonização agrícola.

A partir dessa década, a Companhia de Terras do Norte do Paraná (CTNP) passou a atrair colonos, muitos deles europeus, oferecendo financiamento e suporte para a instalação de lavouras. O resultado foi um crescimento explosivo da produção, colocando o Paraná no centro da cena cafeeira nacional.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o estado chegou ao auge: respondia por cerca de 50% de todo o café produzido no Brasil. A história cafeeira paranaense costuma ser dividida em três fases bem marcadas. A primeira (1900–1945) é a do desbravamento e da implantação da cultura. A segunda (1946–1974) corresponde à expansão acelerada, com ganhos tecnológicos e aumento de produtividade. A terceira (1975–2000) traz a retração, influenciada por geadas severas, mudanças de mercado e diversificação econômica, seguida por um período de reconversão.

Hoje, Londrina e o norte do Paraná se destacam em um novo capítulo dessa história: a produção de cafés especiais. Esse segmento exige cuidado minucioso em cada etapa, do cultivo ao processamento e à torra. Produtores paranaenses têm conquistado premiações nacionais e internacionais, reposicionando o estado como referência em qualidade, sustentabilidade e inovação – não mais pelo volume, mas pela sofisticação do produto final.

As espécies que movimentam o mercado mundial

Apesar de existirem mais de 124 espécies de café catalogadas, apenas duas dominam a indústria global: arábica e robusta. Essa divisão define praticamente tudo na cadeia: do tipo de plantio à bebida na xícara.

Coffea arabica, ou café arábica, lidera com folga e responde por cerca de 60% a 70% da produção mundial. Nativo das terras altas da Etiópia, oferece bebida mais suave, doce e aromática, com teor de cafeína entre 1% e 1,5% por grão — cerca de metade do robusta. Os cafés especiais que conquistam certificações de qualidade superior e selos de sustentabilidade são, em geral, 100% arábica. É essa espécie que dita os padrões do mercado premium.

Já o Coffea canephora, conhecido comercialmente como robusta ou, no Brasil, conilon, ocupa a segunda posição em importância econômica. O Vietnã é hoje seu maior produtor, com algo em torno de 38,5 milhões de sacas exportadas anualmente. O robusta entrega bebida mais intensa, amarga e com aroma menos delicado, mas com o dobro de cafeína do arábica: entre 2% e 2,5% por grão. Em contrapartida, é uma planta mais resistente a pragas, doenças e variações de clima, e não exige altitude elevada, o que reduz custos de produção. Por isso, é amplamente usada em cafés solúveis, blends de espresso comercial e produtos que buscam corpo mais marcante.

Outras espécies aparecem em menor escala, mas têm relevância histórica ou de nicho. O Coffea liberica ganhou destaque no século XIX ao substituir plantações de arábica devastadas pela ferrugem na Ásia, mas hoje é pouco comum. O Coffea dewevrei, conhecido como excelsa, responde por cerca de 7% da produção global e entra em blends para dar complexidade aromática, corpo e persistência de sabor.

Variedades arábica brasileiras: Bourbon, Mundo Novo e Catuaí

Dentro da espécie arábica, o Brasil desenvolveu e adotou diversas variedades ao longo dos séculos, cada uma com características agronômicas e sensoriais próprias.

Bourbon é uma das variedades mais antigas e tradicionais da história do café, originária da Ilha de Bourbon (atual Reunião), a partir de sementes etíopes levadas pelos franceses no século XVIII. Chegou ao Brasil em 1859, trazido pelo governo imperial, que já ouvira relatos de sua qualidade superior. Na década de 1870, o Red Bourbon se firmou como variedade dominante em muitas fazendas. Mais tarde, em 1930, o agricultor Carlos Arnaldo Krug descobriu, quase por acaso, o Yellow Bourbon, que pode produzir de 32% a 45% mais que o vermelho.

Na xícara, o Bourbon costuma oferecer bebida doce, equilibrada e frutada, com notas marcantes de caramelo, chocolate amargo e frutas cítricas – tudo isso variando conforme altitude e processamento. Os grãos têm formato mais alongado e coloração amarela ou vermelha, conforme a variedade. Por seu perfil aromático refinado e acidez moderada, o Bourbon brilha em métodos filtrados, como pour-over e prensa francesa.

Mundo Novo surgiu de um cruzamento natural entre Bourbon e Typica, identificado no interior paulista na década de 1940. Com o passar dos anos, consolidou-se como uma das principais variedades do país, graças à alta produtividade e à resistência a doenças, especialmente à ferrugem-do-cafeeiro. O nome vem do antigo município de Mundo Novo, hoje Urupês, onde as primeiras plantas foram observadas e multiplicadas a partir de 1952.

Essa variedade entrega cafés encorpados, com acidez baixa a média e notas que vão do chocolate amargo às nozes torradas e especiarias. Em torras médias a escuras, costuma desenvolver toda sua intensidade e profundidade de sabor, sendo muito usada em blends para espresso. Em torras mais claras, pode revelar camadas sensoriais menos óbvias, interessantes para quem busca perfis diferenciados.

Catuaí é um orgulho brasileiro: resultado do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra, realizado por pesquisadores nacionais. Lançado comercialmente em 1972, espalhou-se rapidamente pelo país. O nome vem do tupi-guarani e significa “muito bom” – e, nesse caso, o batismo foi certeiro, já que se tornou uma das variedades mais plantadas no Brasil.

Sua grande vantagem é a alta produtividade e o porte baixo, que facilita a colheita mecânica e reduz custos. O Catuaí se adapta bem a diferentes altitudes e climas, o que explica sua presença em praticamente todas as regiões produtoras. As duas subvariedades mais comuns são o Catuaí Vermelho e o Catuaí Amarelo, sendo este último especialmente conhecido por produções mais abundantes e concentradas.

Na xícara, o Catuaí costuma oferecer perfil equilibrado: corpo médio agradável, doçura clara e acidez moderada. Além disso, é extremamente versátil em processos de pós-colheita – natural, cereja descascado, fermentado, anaeróbico –, permitindo que produtores explorem perfis sensoriais distintos. Por isso, aparece tanto em cafés de origem única quanto em blends bem construídos.

Outras variedades em destaque: Geisha, Acaiá, Arará e Catucaí

Além das líderes de plantio, outras variedades vêm ganhando espaço, principalmente no mercado de cafés especiais.

Geisha tem origem em regiões montanhosas do sul da Etiópia, mas explodiu em fama depois de se adaptar de forma extraordinária ao terroir do Panamá. Tornou-se o queridinho de campeonatos de barismo e leilões internacionais por alcançar pontuações acima de 94 pontos na escala da Specialty Coffee Association (SCA), o que o coloca entre os cafés mais valorizados do mundo. Seu perfil sensorial pode trazer notas florais intensas, como jasmim, e nuances cítricas e delicadas.

Acaiá é considerado um tipo raro, ainda pouco conhecido pelo grande público. Produz bebida suave e elegante, com notas frutadas, corpo equilibrado e acidez intermediária, agradando particularmente consumidores que não gostam de acidez muito intensa. Por sua raridade e perfil distinto, posiciona-se como variedade de nicho e alto valor agregado.

Arará é um cruzamento natural entre Obatã e Catuaí Amarelo, identificado em 1988 no Paraná, durante pesquisas de biodiversidade cafeeira. As plantas se destacam pela alta produtividade e pela forte resistência à seca e à ferrugem-do-café, características desejadas diante das mudanças climáticas. Em competições de qualidade, o Arará vem chamando atenção com pontuações frequentemente na faixa dos 90 pontos, o que reforça seu potencial para cafés especiais.

Catucaí, por fim, nasceu do cruzamento entre Icatu e Catuaí, com seleção inicial feita em 1988 por pesquisadores do Instituto Brasileiro do Café (IBC). Testes em diferentes regiões permitiram escolher plantas com produtividade elevada, robustez genética e boa resistência à ferrugem. Hoje, existem cultivares de frutos amarelos e vermelhos. Em termos de bebida, o Catucaí tende a entregar cafés equilibrados, saborosos e adequados a mercados que buscam qualidade, mas ainda estão em fase de desenvolvimento no segmento de especiais.

Brasil em 2025: potência absoluta do café

No cenário atual, o Brasil ocupa, de forma consolidada, a posição de maior produtor de café do mundo, resultado de uma trajetória que já passa dos três séculos. Na safra 2024–2025, a produção estimada atingiu cerca de 58,81 milhões de sacas de 60 kg, sendo 42,10 milhões de arábica e 16,70 milhões de canephora (robusta/conilon). Isso representa algo em torno de 33,3% de toda a produção mundial prevista para o período – uma participação que não deixa dúvida sobre a liderança brasileira.

O Vietnã aparece como segundo maior produtor, com aproximadamente 16,5% do mercado global, enquanto a Colômbia, focada em arábica de alta qualidade, ocupa a terceira posição, com 7%. Juntos, esses três países respondem por cerca de 57% da oferta mundial.

No campo das exportações, os números brasileiros impressionam. Em 2024, o país exportou 50,4 milhões de sacas para 116 países, um aumento de 28,5% em relação a 2023 e um novo recorde, superando a marca de 44,7 milhões de sacas registrada em 2020. Na safra 2024–2025, as exportações somaram 45,589 milhões de sacas para 115 países, gerando receita recorde de US$ 14,728 bilhões, crescimento de 49,5% em comparação com o recorde da safra anterior.

Entre janeiro e dezembro de 2024, a receita com exportações chegou a US$ 12,515 bilhões, superando com folga os US$ 8,05 bilhões de 2022. Esses dados mostram não apenas volume, mas também valorização do produto brasileiro no mercado internacional.

Para onde vai o café brasileiro?

Os principais destinos ajudam a enxergar o mapa contemporâneo da demanda. Os Estados Unidos se mantêm como maior importador, com crescimento de 34% em 2024 e um total de 8,13 milhões de sacas importadas. A Alemanha registrou aumento ainda mais expressivo, acima de 50%, e importou 7,6 milhões de sacas, consolidando-se como segunda maior compradora de café brasileiro.

Itália, Bélgica e Japão completam a lista dos grandes compradores tradicionais, com volumes consistentes de café – em muitos casos, com foco em qualidade premium e blends de alto padrão. Paralelamente, o Brasil tem ampliado presença em mercados menos óbvios, como México (que aumentou suas importações em 140,6% em 2024) e Vietnã (com crescimento de 364,8%), países que enfrentaram problemas climáticos e precisaram complementar a própria produção.

Peso econômico e presença no dia a dia

A relevância do café na economia brasileira segue enorme. Em 2022, o país exportou 39,4 milhões de sacas, equivalentes a cerca de 2,2 milhões de toneladas de grãos verdes, enviadas para 145 países. Em 2023, a área cultivada chegou a 2,26 milhões de hectares, concentrados nas principais regiões produtoras.

É importante lembrar que boa parte dessa cadeia é sustentada por pequenas propriedades. Em muitos municípios, especialmente no interior, o café é o principal ou único produto agrícola capaz de assegurar renda, emprego e permanência das famílias no campo. Isso faz da cafeicultura um pilar não apenas econômico, mas também social.

No consumo interno, o Brasil ocupa o posto de segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos em volume absoluto. Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, o consumo doméstico cresceu 1,11%, mostrando demanda estável e crescente. Em média, cada brasileiro consome cerca de 1.430 xícaras de café por ano, o que diz muito sobre como a bebida se integra à rotina: do café da manhã às reuniões de trabalho, dos encontros de família às conversas de fim de tarde.

Cafés especiais: quando o Brasil mira o topo do mundo em qualidade

Um capítulo à parte é o dos cafés especiais, aqueles que ultrapassam a categoria de commodity para se tornarem expressão de terroir, tradição e cuidado extremo em cada etapa da produção. Para serem considerados especiais, os grãos precisam atingir pelo menos 80 pontos na escala sensorial da SCA e seguir critérios de responsabilidade social e ambiental.

O Brasil consolidou-se como o maior fornecedor mundial de cafés especiais em volume. Na safra 2024–2025, essa categoria respondeu por cerca de 19,5% das exportações totais, com 8,907 milhões de sacas. Mais do que números, isso indica um movimento claro: o país não quer ser apenas o maior em quantidade, mas também referência em qualidade, inovação e diversidade sensorial.

Da Etiópia milenar às fazendas do Paraná, passando pelas casas de café de Constantinopla, pelas “universidades do centavo” de Londres e pelas ferrovias do interior paulista, a trajetória do café é, em essência, uma história de conexões. Ligou continentes, moveu pessoas, derrubou barreiras, financiou infraestruturas e ajudou a definir identidades nacionais. No caso do Brasil, transformou profundamente a economia, a sociedade e o imaginário coletivo.

Hoje, cada xícara carrega um pouco dessa jornada: do pastor Kaldi às fazendas familiares brasileiras, dos terreiros de secagem às cafeterias contemporâneas, dos grãos verdes ao espresso perfeito. No fim das contas, o café é isso: uma bebida que, ao mesmo tempo, desperta, aproxima e conta histórias.