Ibovespa salta 34% em 2025, melhor desempenho em 9 anos

A bolsa de valores brasileira, a B3, viveu em 2025 um dos seus melhores anos da década. O Ibovespa encerrou o ano com valorização de 33,95%, o melhor desempenho anual desde 2016, quando o índice havia avançado 38,93%. O movimento refletiu uma combinação de fatores externos favoráveis, forte entrada de capital estrangeiro e recuperação seletiva de empresas historicamente subavaliadas, mesmo em um ambiente doméstico desafiador, marcado por juros em níveis historicamente elevados.

O Ibovespa terminou 2025 aos 161.125,37 pontos, depois de registrar 32 recordes de fechamento ao longo do ano, o maior número desde 2019, quando alcançou 40 recordes. A magnitude dessa alta chama atenção porque ocorreu em um cenário em que a taxa Selic permaneceu em 15% ao ano durante todo o período, o maior patamar em duas décadas, contexto que, em tese, deveria desencorajar investimentos em renda variável e favorecer a renda fixa.

Por que a bolsa subiu com juros altos: os três pilares do rali

1. Mudança de postura do Federal Reserve impulsionou emergentes

A decisão do Federal Reserve de iniciar um ciclo de corte de juros em 2025 foi um dos fatores externos mais relevantes para o desempenho da B3. O banco central dos Estados Unidos reduziu a taxa básica em três ocasiões ao longo do ano, de 4,25%–4,50% para 3,50%–3,75%, o menor nível desde setembro de 2022.

Com os títulos do Tesouro americano (Treasuries) oferecendo retornos menores, investidores globais passaram a buscar alternativas com maior potencial de retorno em mercados emergentes. Nesse contexto, o Brasil se destacou como destino prioritário, e a bolsa de valores brasileira se tornou uma das principais portas de entrada desse capital estrangeiro.

2. Fluxo estrangeiro robusto e consistente na B3

O mercado acionário brasileiro atraiu aproximadamente R$ 27 bilhões a R$ 28 bilhões em capital estrangeiro líquido em 2025, revertendo integralmente a saída de R$ 32,1 bilhões registrada em 2024. Esse fluxo representou 58,3% de todas as negociações da bolsa e foi decisivo para sustentar a forte alta do Ibovespa ao longo do ano.

Investidores internacionais usaram especialmente instrumentos como o ETF EWZ, índice acionário brasileiro listado na bolsa americana, para acessar o mercado local. Novas cotas foram criadas para atender à demanda crescente por exposição às ações brasileiras.

O fluxo estrangeiro não foi uniforme. Ele se mostrou mais forte nos dois primeiros trimestres, perdeu fôlego no terceiro trimestre, quando o então presidente Donald Trump anunciou tarifas sobre o Brasil, e voltou a ganhar tração no quarto trimestre, contribuindo para a sequência de recordes registrada na reta final de 2025.

3. Valuation atrativo em nível global sustentou apetite por ações

Mesmo depois da valorização expressiva do Ibovespa em 2025, a bolsa brasileira continuou negociando com múltiplos de preço sobre lucro (P/L) abaixo da média histórica. O principal índice da B3 foi cotado a 9,4 vezes o lucro projetado para os 12 meses seguintes, frente a uma média histórica de 10,6 vezes.

Quando excluídas as grandes companhias de commodities, como Vale e Petrobras, o múltiplo sobe para 11,1 vezes, ainda abaixo da média de 12,0 vezes. Esse desconto levou investidores a antecipar compras de ações brasileiras, na expectativa de valorização adicional à medida que os juros começassem a cair e o apetite por risco aumentasse.

Desempenho trimestral do Ibovespa: trajetória em aceleração

O primeiro trimestre de 2025 lançou as bases para o rali anual da bolsa. Nesse período, o Ibovespa subiu 8,29%, registrando o melhor desempenho trimestral em quase dois anos. O resultado refletiu o otimismo inicial com os cortes de juros americanos e a percepção crescente de que o Brasil estava barato em comparação com outros mercados.

No primeiro semestre, o índice acumulou alta de 15,44%, no melhor desempenho para qualquer primeiro semestre desde 2016. Já no segundo semestre, a bolsa consolidou esses ganhos. O terceiro trimestre registrou certa estagnação, em um cenário de fluxo estrangeiro mais tímido, mas o quarto trimestre marcou a recuperação da intensidade do rali, com recordes sucessivos de fechamento. Em dezembro, o Ibovespa avançou 1,29%, reforçando a tendência positiva dos meses finais do ano.

Geração e destruição de valor: como o rali redesenhou o ranking da B3

Embora o Ibovespa tenha subido cerca de 34% em 2025, o comportamento das ações não foi homogêneo. Enquanto algumas companhias ampliaram significativamente seu valor de mercado, outras acumularam perdas expressivas, o que acabou redesenhando o ranking das maiores empresas listadas na B3.

Empresas com maiores ganhos de valor de mercado

O setor bancário se destacou como um dos grandes vencedores do ano. Três das cinco maiores altas em valor de mercado foram de instituições financeiras, consolidando o peso do setor no Ibovespa e na B3.

O BTG Pactual liderou o ranking, com um aumento de R$ 150,4 bilhões em valor de mercado. O banco saiu da sétima para a terceira posição entre as empresas mais valiosas da bolsa. O desempenho refletiu tanto a estratégia de expansão e diversificação do BTG Pactual quanto o forte apetite de investidores por ativos financeiros robustos em um contexto de juros e inflação mais controlados.

O Itaú Unibanco veio logo em seguida, com ganho de R$ 131,1 bilhões em valor de mercado. A performance do Itaú foi decisiva: em dezembro, o banco ultrapassou a Petrobras e se consolidou como a empresa mais valiosa da B3, alcançando capitalização de R$ 413 bilhões.

A Vale completou o pódio das maiores valorizações, com aumento de R$ 78,3 bilhões em valor de mercado. O resultado foi impulsionado por um cenário favorável para as commodities e para as exportações brasileiras, mesmo com a volatilidade dos preços internacionais do minério de ferro.

Além desses gigantes, outras empresas também se destacaram. Bradesco adicionou R$ 38,39 bilhões em valor, enquanto Sabesp, Axia Energia e Santander Brasil registraram avanços relevantes. Os movimentos refletem tanto a força de segmentos como bancos e utilidades públicas quanto a capacidade de algumas companhias de capitalizar oportunidades individuais.

Empresas com maiores perdas de valor de mercado

Na outra ponta, a Petrobras protagonizou a maior destruição de valor na B3 em 2025. A estatal perdeu R$ 87 bilhões em valor de mercado e caiu da primeira para a segunda posição no ranking das companhias mais valiosas. A queda refletiu a volatilidade do preço internacional do petróleo e questões estruturais de governança, além de pressões de políticas domésticas relacionadas à precificação de combustíveis.

O Banco do Brasil registrou a segunda maior perda em valor de mercado, com redução de R$ 13,8 bilhões. A instituição saiu do grupo das 10 empresas mais valiosas da bolsa. A queda esteve ligada à alta da inadimplência no agronegócio e ao aumento das provisões para devedores duvidosos, em um cenário macroeconômico mais desafiador para o crédito rural.

Somadas, Petrobras e Banco do Brasil responderam por uma redução de R$ 100,8 bilhões em valor de mercado, montante superior à soma das perdas das outras oito empresas presentes no ranking de maiores desvalorizações. O dado evidencia o peso significativo das estatais na B3 e mostra como fatores externos e decisões de política econômica podem influenciar o valor das companhias abertas.

Ambipar, com perda de R$ 21,2 bilhões, e WEG, com recuo de R$ 18,8 bilhões, também figuraram entre as maiores quedas, evidenciando trajetórias mais desafiadoras em seus segmentos específicos.

As ações mais valorizadas da B3 em 2025

No universo das ações individuais da B3, 2025 também registrou histórias de valorização extraordinária. A Cogna Educação (COGN3) foi o principal destaque, com alta de 254,28% no ano, o maior ganho percentual entre os papéis do índice. O movimento refletiu uma reestruturação operacional bem-sucedida e a recuperação do setor de educação privada no Brasil.

Na sequência, vieram Cury (CURY3), com valorização de 114,13%, Direcional (DIRR3), com alta de 112,31%, e C&A (CEAB3), com avanço de 106,59%. Essas empresas foram beneficiadas por um ciclo de crédito mais favorável e pela retomada gradual do consumo das famílias brasileiras. O desempenho reforçou o caráter seletivo do mercado, que premiou companhias mais expostas à economia doméstica e ao consumo interno.

Volume de negociação na B3

Apesar da forte valorização do Ibovespa, 2025 foi marcado por um fenômeno aparentemente contraditório: a B3 registrou o menor volume médio diário de negociações em cinco anos. Até 22 de dezembro, a média diária girava em torno de R$ 18,5 bilhões, bem abaixo do que se viu entre 2020 e 2022, quando o volume superava R$ 26 bilhões a R$ 28 bilhões por dia.

Esse recuo sinaliza uma mudança estrutural no comportamento dos investidores na bolsa de valores. Ao longo de 2025, muitos participantes montaram posições de longo prazo, com menos operações de giro rápido. Fundos mantiveram posições e aguardaram resultados futuros, em especial diante do calendário político, que inclui eleições em 2026.

Além disso, o número de empresas listadas na B3 diminuiu em razão de ofertas públicas de aquisição (OPAs) e de reorganizações societárias envolvendo holdings, o que restringiu o universo de ações disponíveis para negociação.

O ticket médio por investidor pessoa física também sofreu queda significativa, passando de R$ 6 mil para R$ 1,8 mil por dia. Esse movimento sugere a entrada de mais pequenos investidores na bolsa, porém com aportes menores. Parte dessa redução foi compensada pelo maior peso de investidores institucionais e estrangeiros, que concentraram o volume financeiro.

Contexto macroeconômico

Um dos aspectos mais marcantes de 2025 foi o contraste entre os juros altos e o forte desempenho da bolsa de valores. A taxa Selic terminou o ano em 15% ao ano, o maior patamar em duas décadas. Economistas esperavam que juros reais próximos de 10% ao ano desestimulassem o investimento em ações e reforçassem a preferência por renda fixa.

A alta da bolsa nesse contexto tem explicação multifatorial. A expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve, confirmada pelos três movimentos de redução ao longo de 2025, criou um diferencial de arbitragem favorável ao Brasil. Investidores passaram a enxergar a combinação de juros elevados, risco Brasil relativamente controlado e mercado acionário descontado como oportunidade.

Ao mesmo tempo, a bolsa brasileira negociava com valuations considerados muito atrativos após anos de desconto em relação a pares globais. Esse fator abriu espaço para um rerating expressivo das ações, à medida que o apetite ao risco retornou.

A economia brasileira também mostrou resiliência macroeconômica. A taxa de desemprego recuou para mínimas históricas na série, e o número de ocupados chegou a 103,2 milhões de pessoas, o maior nível já registrado, o que deu suporte ao consumo e à atividade econômica.

Esse conjunto de elementos levou analistas a falarem em um “otimismo mal dimensionado” no início do ano, que foi se ajustando à medida que investidores passaram a avaliar que as grandes empresas brasileiras tinham fundamentos sólidos e estavam sendo negociadas com desconto relevante.

Perspectivas para 2026

Mesmo com o forte desempenho da bolsa em 2025, o mercado de capitais brasileiro enfrenta um desafio: não houve nenhum IPO desde 2021. Segundo a própria B3, 54 empresas já possuem documentação pronta e aguardam apenas uma “janela de oportunidade” para realizar suas ofertas iniciais de ações.

Analistas projetam que, quando a Selic começar a cair — movimento esperado para iniciar em março de 2026, com projeções de taxa entre 12,25% e 12,50% ao fim do ano — o volume médio diário negociado na bolsa poderá até triplicar, passando de R$ 25 bilhões para algo entre R$ 50 bilhões e R$ 70 bilhões. A combinação de juros mais baixos, expectativa de alternância política com as eleições de 2026 e melhora no ciclo de crédito pode destravar essas operações e reforçar a atratividade da B3.

Para 2026, economistas estimam que o Ibovespa pode alcançar patamares entre 170 mil e 200 mil pontos, a depender da evolução dos fatores externos, como a política monetária do Federal Reserve, e internos, como a condução da política fiscal e o desfecho das eleições.

Um ano de contrastes na B3

O desempenho da B3 em 2025 destacou o caráter heterogêneo do mercado de ações brasileiro. De um lado, bancos e empresas de consumo registraram fortes valorizações, reforçando a preferência dos investidores por negócios com modelo mais previsível e geração consistente de resultados. De outro, estatais e companhias ligadas a commodities sofreram com mais volatilidade e perdas em valor de mercado, influenciadas por questões de governança, decisões de política pública e ciclos globais de preços.

Em 2026, o desafio para a bolsa de valores será manter o ritmo após um ano de forte alta, em um ambiente que tende a combinar volatilidade política, início do ciclo de queda da Selic e possível mudança no comportamento do fluxo estrangeiro caso o Federal Reserve sinalize pausa ou revisão nos cortes de juros.