Como pintar desculpas e desesperos.

É curioso observar as pessoas na véspera de natal, na noite de natal propriamente dita e consequentemente na virada de ano, ficamos boquiabertos com as tantas mensagens de felicitações, as doações de brinquedos, presentes sendo trocados entre as pessoas, o tal (ini) amigo secreto, os desejos mais puros e sinceros de boas festas, que o próximo ano seja melhor ainda, fogos de artifícios espocando em todos os rincões do Planeta, beijos e abraços se perdendo de vista, que todos tenham paz e prosperidade, saúde e muito amor; os mesmos rituais, as mesmas risadas, as mesmas características repetidas à exaustão, quase sempre tudo isso servindo apenas como um alívio de consciência, meras formalidades vazias que não resistem a lente da verdade, a realidade nua e crua que estamos vivendo, no fundo voltamos ao que era antes, nossa humanidade sendo volátil.

Dia três de janeiro de dois mil e vinte e seis, após as badaladas festas esfuziantes e extravagantes, o mundo acordou com mais um de seus pesadelos recorrentes, por outras palavras, os Estados Unidos numa operação que já vinha sendo desenhada e preparada durante os últimos meses de dois mil e vinte e cinco, tomou forma e vez, uma rápida e eficiente invasão dos soldados americanos, capturaram o presidente venezuelano e sua esposa e deportados para os Estados Unidos. O que antes parecia impensável, isto é, estávamos sempre vendo a guerra e suas catastróficas consequências longe de nós, hoje ela parece estar muito perto de nós, soubemos com toda certeza como essa invasão começou, agora os seus desdobramentos, os seus tantos malefícios e principalmente o seu fim, não temos previsão; mais uma vez nós somos apenas e tão somente os grãos de areia. 

Nosso mundo e principalmente alguns líderes políticos parecem terem enlouquecido nesse primeiro quarto de século XXI, não se cansam de por a humanidade em perigo total, o Planeta a beira da destruição final, a sua hibrys parece não ter fim, uma ganância desmedida, uma busca tresloucada pelo poder, honra e riqueza as custas de mortes, devastações, sofrimentos de tantos inocentes e do meio ambiente. O mundo atual está carente de pensamento, de reflexão sobre essas e tantas outras ações desastrosas nos últimos anos, estamos cada vez mais embrutecidos pela força, achamos que ela é a única arma capaz de resolver nossos problemas, quando isso é a maior mentira já inventada pelos humanos; estamos depositando nossas esperanças em máquinas superficiais que teriam em tese a capacidade para tudo resolverem por nós, mas eis aí outra grande mentira.

A América Latina, desde o ano de mil e quatrocentos e noventa e dois sempre viveu e conviveu com os flagelos, primeiro foi o extermínio da população indígena, depois as tantas guerras e revoluções menores, com as suas peculiares monstruosidades, aqui inconfessáveis, os séculos de escravidão no Brasil, uma mancha terrível até hoje não superada por nós, o massacre constante das minorias, o sufocamento de tantas vozes que lutaram só porque desejavam a América Latina com vida digna para todos e agora o triste capítulo na Venezuela. América Latina de tantos heróis e heroínas, a sua grande maioria anônimos, que a história “vencedora” se encarregou de eliminar dos seus livros. Nosso querido Brasil, não pode mais uma vez ser o anão político que sempre foi, o problema está do nosso lado, todos nós de alguma maneira sofremos os impactos dessa invasão política.

Bioeticamente, aqueles que brindaram a virada de ano entre beijos, sorrisos e abraços, esqueceram um ponto crucial na existência humana, ou seja, nada dura para sempre, a vida é extremamente ambivalente, a vida não tem absolutamente nada de estável, por mais que queiramos mostrar um ar de superioridade, que estamos no controle de tudo, que tudo podemos contornar, a vida nos surpreende com as suas luzes e sombras, a vida em sua dinamicidade única, não se deixa aprisionar por nossas supostas seguranças em armas mortíferas, inteligência artificial, computadores de última geração, viagem à Marte. Fingimos bem que sabemos muito de quase tudo, mas no fundo quando a bomba explode ficamos perplexos de que pouco ou nada sabemos, que o buraco é sempre mais embaixo; a guerra é um produto humano e são os humanos que devem acabar com ela.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUC-PR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com