Aquilo que olhamos, nos olha também.

O ano de 2026 começa sob um olhar atento em questão de paz global, nos primeiros dias desse ano, a invasão americana na Venezuela e a captura do seu presidente, agora nos voltamos para a Groenlândia, essa imensa ilha na região norte do planeta, ,hoje administrada pela Dinamarca, ela está sendo requisitada pelos Estados Unidos, aliás algo que não vem de agora, a história nos conta que o governo americano já por diversas vezes tentou em vão a sua compra, mas que com a chegada do novo presidente americano isso virou uma questão de honra para ele em especial; ficamos intrigados e também perplexos pela sua insistência em obter essa ilha, porém no fundo já sabemos a resposta, ou seja, o governo americano quer essa terra sem os seus habitantes, pouco ou nada lhe importa quem mora lá, basta para eles o que há embaixo da terra, os tais minerais raros ou mais.

A  Groenlândia, em tese faz parte do grupo conhecido como OTAN, o que causa grande espanto agora é um membro desse bloco requisitar para si esse território, quando todos sabem que se um país membro for atacado por um outro país, todos então podem dar uma resposta rápida e de poderio inimaginável do ponto de vista militar, mas o que dizer quando se sabe que o líder invasor é o próprio líder da OTAN? Já sabemos pela história recente quando os alemães nazistas foram anexando aos poucos vários territórios para si e a que fim isso levou e por sua vez as duras consequências que ainda hoje permanecem em maior ou menor grau entre nós. A diferença enorme de ontem com hoje é justamente o poderio bélico de todos os países envolvidos, fora isso o que notamos é uma imensa pressão comercial sobre tudo e todos; no mais das vezes as pessoas não contam.

Um personagem que pode nos ajudar nessa caminhada por clareza e discernimento do mundo atual, chama-se Erich Fromm (1900-1980), um importante autor alemão que se debruçou como poucos nas principais questões que permeiam o ser humano e o mundo a sua volta, Fromm nasceu, cresceu, viveu e conviveu com os principais dilemas humanos durante o século XX e que continuam a todo vapor em pleno século XXI, os dilemas enfrentados por Fromm continuam entre nós, só que agora com muito mais roupagens, realidades apenas vislumbradas por ele lá atrás, hoje se transformaram em grandes e profundas contradições. O ser social que Fromm tanto enfatiza em sua obra, passa hoje por uma profunda desfiguração, um ser que não se conhece mais, aquele que perdeu a sua identidade e que não mais conhece o outro, um ser incapaz de se comunicar com o todo.

De modo rápido podemos com certeza afirmar que Fromm se debruçou sobre muitos temas entre os quais destaca-se aqui a alienação, a liberdade e a coisificação, temas esses que em outros momentos serão melhores explicitados; nada no pensamento frommniano pode ser pensado fora do sistema financeiro que regia o mundo em seu tempo e agora muito mais ainda, a implantação de um novo modo de comercialização entre os humanos, mudou radicalmente todas as relações existentes, por outras palavras, o mundo atual é visto como mercadoria, o que possui e não possui valor, o que deve ser mantido e o que deve ser extirpado do meio; humanamente nos transformamos, queiramos ou não, num imenso balcão de negócios, até as mínimas relações em última instância carrega em si o dom da cifra;  o desejo incontrolável, alimentado pela hybris, é entre nós um veneno mortal.

Bioeticamente, a figura do ser humano está no centro do debate mais uma vez, as luzes e sombras que permeiam a figura humana é um tema complexo, profundo e inesgotável, mais importante ainda é o meio onde o ser humano se encontra, a sociedade que rege, alimenta e dá poder ou não a este ser humano carregado de potencial enorme para fazer o bem, mas que também é limitado por uma série de fatores (muitos acima da sua alçada) e que o faz muitas vezes cometer atos de barbárie indescritível. O mundo atual com raras exceções, se deu conta de que precisa resistir, que é preciso um forte questionamento de como as coisas estão caminhando, afinal é a vida que está em jogo em última instância, se encantar com a vida novamente, de que ela pode ser vivida plenamente será com certeza o maior dos desafios, especialmente num tempo onde a ilusão é a moda.  

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com