Certa vez, assisti a um filme no qual um dos protagonistas perguntou a seu parceiro: “Sabe qual é a força mais destruidora do universo?” Quando seu companheiro indagou sobre qual fosse, ele respondeu: “O arrependimento!” Até faz sentido se pensarmos no quanto as lembranças de nossos erros ou escolhas equivocadas podem disturbar o nosso ânimo e tirar a nossa paz. Porém, essa não é toda a verdade.
Na Sagrada Escritura, o arrependimento revela um sentido salvífico, como sendo a possibilidade do começo de uma nova história, diferente da outra. Foi assim com o povo de Nínive, cidade para a qual fora enviado o profeta Jonas. Deus não lhe tinha dito para anunciar arrependimento e conversão e sim sua iminente destruição. No entanto, com apenas um dia de pregação, todo o povo, e até o rei, se arrependeram e começaram a fazer penitência, pensando que Deus poderia voltar atrás na sua sentença. E foi o que aconteceu (Jn 1-3). E Jonas nem queria ir pregar àquela cidade. Então, o arrependimento acaba sendo necessário.
Vivemos em uma sociedade em que se pretende abolir o sentimento de culpa e o arrependimento. Parece que arrepender-se constitui uma fraqueza de caráter e a culpa parece ser um tipo de doença da qual todosdevemos ser vacinados, razão pela qual se acredita que não seja educativo corrigir as crianças, para não incutir culpas que poderão transformar-se em traumas. Porém, com isso, o que acabamos fazendo é ensinar as pessoas a atrofiar suas consciências, tirando-lhes a capacidade de distinguir entre bem e mal, e impedindo-as de corrigir o rumo de suas vidas.
Conheço a história de um grande agente da Pastoral Carcerária que morreu durante uma rebelião de presos quando se ofereceu para substituir um refém. Ele dizia aos presos com quem trabalhava: “Daqui da cadeia você pode sair de dois modos: ou fugindo ou com a ordem do juiz. Mas, em todos os casos, se você não se arrepender de seus crimes, continuará sempre um prisioneiro”. É de se pensar que o maior drama da insegurança não é ter de construir mais presídios para colocar os criminosos. O grande drama é colocá-los na prisão e eles saírem de lá do mesmo jeito que entraram ou até pior. Parece que os nossos governos não se preocupam nada em fazer com que se arrependam de seus crimes. Se houvesse arrependimento e conversão, quem sabe, os presídios e até as celas seriam suficientes; mas em uma sociedade que resolveu extinguir a culpa e o arrependimento, é um pouco difícil esperar que isso aconteça.
Nunca me esqueço de um pregador que, antes de sua conversão, tinha uma história de crime e marginalidade. Um dia, foi interpelado, por um grupo de senhoras que ia para um grupo de oração. Elas queriam levá-lo para rezar. Uma delas era muito insistente. Ele se irritou tanto que acabou tendo uma explosão de cólera e deu um empurrão naquela anciã, que acabou derrubando sua Bíblia, com todos os papeizinhos e santinhos que havia dentro. Ela teve de se abaixar para pegar a Bíblia e demorou muito para juntar aqueles papéis com intenções de oração e estampas de santos. Foi um tempo de silêncio e eternidade. Quando a senhora finalmente foi embora, aquela imagem dela abaixada recolhendo suas coisas não saía da cabeça daquele homem. E junto com essa lembrança, um profundo arrependimento que quase lhe corroía a alma. Não se livrou do arrependimento enquanto não foi pedir desculpas. Talvez, para mostrar sua sinceridade, aceitou ir ao grupo para o qual ela o convidara. Foi o começo de uma grande conversão. E tudo por causa do arrependimento. Também não podemos esquecer do arrependimento de São Paulo Apóstolo, que parece tê-lo acompanhado até o fim da vida: “Porque sou o menor dos apóstolos; nem sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas, por graça de Deus, sou o que sou, e sua graça em mim não se tornou vã” (1Cor 15,9-10).
Pe. Lino Baggio, SAC
Paróquia São Roque – Coronel Vivida
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