Águas de Março: Defesa Civil aprimorou sistemas e monitoramento

As fortes chuvas que atingiram o Litoral do Paraná em março de 2011 deixaram marcas profundas na paisagem e na memória da população. O episódio, conhecido como Águas de Março, registrou acumulados históricos de até 398 milímetros de chuva entre os dias 10 e 11 de março. Como consequência, ocorreram enxurradas, enchentes e mais de 2.500 deslizamentos de terra, especialmente nos municípios de Antonina, Morretes, Paranaguá e Guaratuba.

Na ocasião, famílias inteiras ficaram isoladas e 816 moradores precisaram ser resgatados por terra ou com apoio de aeronaves. Ao todo, 10.761 pessoas ficaram desalojadas e outras 2.500 perderam suas casas, tornando-se desabrigadas. Além disso, os deslizamentos danificaram 3.790 imóveis e destruíram completamente outras 223 residências.

Tragédia impulsionou mudanças na Defesa Civil do Paraná

O desastre de 2011 marcou um ponto de virada para a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil (Cedec), que passou a implementar novas iniciativas voltadas à prevenção e mitigação de desastres naturais. Após o episódio, o Governo do Paraná construiu novas moradias e realocou famílias atingidas nas cidades mais impactadas.

Foram reassentadas 88 famílias em Antonina, 85 em Morretes e outras 50 em Paranaguá. Paralelamente, a Defesa Civil Estadual passou a promover exercícios simulados de evacuação em comunidades do Litoral e também em outras regiões do Estado. Com o passar dos anos, esses treinamentos tornaram-se cada vez mais frequentes como forma de preparar a população para situações de risco.

Sistema informatizado modernizou gestão de riscos

Logo após a tragédia, o Estado iniciou mudanças estruturais que seguem em uso até hoje. Entre as principais iniciativas está a criação do Sistema Informatizado de Defesa Civil (SISDC) e do Plano de Contingência Online. Por meio dessas ferramentas, os 399 municípios do Paraná cadastram e atualizam anualmente seus planos de emergência.

Os sistemas permitem o mapeamento de áreas de risco, a definição de ações de resposta e a indicação de locais para abrigos em caso de desastre. Dessa forma, as cidades conseguem compreender melhor os riscos locais e planejar medidas de proteção para a população.

Em 2015, o sistema recebeu reconhecimento internacional ao ser premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do Escritório de Estratégia Internacional para Redução de Desastres (UNISDR).

Criado inicialmente como um banco de dados sobre desastres naturais, o sistema passou a ser aperfeiçoado após as chuvas de 2011. Atualmente, ele funciona como um elo de comunicação entre Estado e municípios e reúne informações sobre ocorrências registradas no Paraná desde a década de 1980.

Monitoramento em tempo real reforça prevenção

Hoje, a gestão de ocorrências, a distribuição de ajuda humanitária e o acompanhamento dos planos de contingência são realizados por meio do SISDC. A ferramenta integra as atividades do Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CEGERD).

Inaugurado em 2017, seis anos após a tragédia, o centro permite o monitoramento das condições meteorológicas do Paraná em tempo real, durante 24 horas por dia.

Outra mudança importante foi a criação de sistemas de alerta à população. O Paraná se tornou o primeiro estado do país a enviar mensagens de alerta para celulares cadastrados. Atualmente, o serviço funciona por SMS, WhatsApp, Telegram e também pela televisão.

O Estado também participou dos primeiros testes da tecnologia Cell Broadcast, que já foi utilizada mais de 130 vezes para alertar moradores sobre situações de risco.

Segundo o coordenador estadual da Defesa Civil, coronel Fernando Schunig, a experiência vivida em 2011 impulsionou avanços importantes no monitoramento e na comunicação com a população.

“Da dor que vivemos em 2011 procuramos evoluir e modernizar os sistemas de monitoramento e alerta, o que ajudou a criar protocolos mais ágeis. Trabalhamos de forma preventiva e atualmente temos condições de avisar a população por mensagens no celular de tal forma a evitar que eventos como aquele causem danos dessa gravidade”, explicou.

Ele também destacou a criação do Fundo Estadual para Calamidades Públicas (Fecap), que financia obras de prevenção e reconstrução em municípios paranaenses.

“Hoje também dispomos do Fundo Estadual para Calamidades Públicas (Fecap), que custeia obras de prevenção e reconstrução. Já destinamos R$ 88 milhões para 145 municípios desde a criação em 2023”, afirmou.

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Operação de resgate marcou fase emergencial

Durante os dias mais críticos da tragédia, as equipes de resgate concentraram esforços para retirar moradores de áreas isoladas. Muitas comunidades só puderam ser alcançadas com o uso de helicópteros, que transportaram famílias para abrigos emergenciais.

Posteriormente, a operação passou a incluir campanhas de arrecadação de alimentos e roupas para os desabrigados, além da retirada de lenha e sedimentos levados pelas enxurradas. Também foram realizadas obras para recuperação de estradas, reconstrução de pontes e construção de novas moradias.

Em Morretes, por exemplo, um morro inteiro deslizou após as chuvas intensas. A BR-277 teve pontes destruídas pela força da água, enquanto a BR-376 registrou quedas de barreiras que impediram o acesso terrestre ao Litoral por vários dias.

Comunidades inteiras permaneceram isoladas enquanto aguardavam resgate em meio aos destroços. Após o desastre, foi realizado um amplo mapeamento de aproximadamente 2 mil quilômetros quadrados da região litorânea.

O levantamento gerou uma base de dados que orienta até hoje as ações das equipes da Defesa Civil no Litoral do Paraná, fortalecendo as estratégias de prevenção e gestão de riscos.