Paulo Argollo

Eu tenho plena consciência que vivo numa bolha. Aquela bolha que limita uma compreensão mais ampla porque se conversa com pessoas com opiniões semelhantes, as informações e notícias são veiculadas por canais que pendem pra determinado lado e por aí vai. Todos nós vivemos assim atualmente. E ainda bem que é uma bolha, porque assim a gente consegue ver através dela, para ampliar a concepção dos fatos e poder tirar conclusões e agir conforme achar mais adequado.

Mas ,enfim, comecei falando disso porque, justamente sabendo que vivo numa bolha, procuro buscar informações nos lugares mais distintos e seguir bastante gente com opiniões bem diferentes das minhas nas redes sociais. Eu faço parte de um grupo no whatsapp com 14 amigos de longa data, todos eles com ideias bem parecidas sobre música, cinema… e política. Este grupo já existe há alguns anos e as conversas sempre foram mais pautadas em piadas infames, música, falar mal de pessoas que conhecemos e não estão no grupo, falar sobre nossas próprias vidas trabalho e cinema. Política sempre apareceu em menor escala. Porém, de algumas semanas pra cá, todo dia se fala sobre a CPI da Covid. Alguns de nós acompanham as sessões do senado e vão comentando os hjghlights. E esse comportamento me chamou a atenção e me fez dar uma olhada em volta pra ver se eram só os meus amigos que estavam nessa.

Não eram só os meus amigos. A CPI da Covid virou realmente um evento midiático. Comecei a ficar atento no Facebook e vi posts de muita gente contra e a favor do governo tecendo comentários, deixando claro que estão acompanhando o desenrolar das investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito. É muito louco ver que onde pipocavam meses atrás nomes de Juliette, Gil e Karol Conká, agora aparecem nomes de Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues e Omar Aziz. Claro, tudo aparece em forma de memes, montagens, vídeos com funks engraçadinhos… mas não deixa de ser um fenômeno. Para se ter ideia, comparadas as audiências do último mês a CPI foi mais assistia que a Copa América. Claro que os dois eventos não aconteceram no mesmo horário, mas a média de telespectadores mostrou essa diferença. E olha que muita gente acompanha pela internet, mas a CPI Na TV aparece só em canais a cabo como a TV Senado ou em transmissões de canais e notícias como Globonews, CNN e etc.

Eu tendo a ser otimista, é verdade. Mas vejo essa movimentação toda com bons olhos. Claro que existe uma polarização que é totalmente nociva, extrema esquerda e extrema direitas só atrapalham. Mas estamos diante de uma situação em que se torna inevitável não se posicionar, até porque o simples fato de você usar máscara em público, se comprometer com o isolamento social e querer se vacinar sem escolher a marca da vacina já é um posicionamento político. Mas para prosperar, melhorar a qualidade da política do país, o povo que vai às urnas precisa entender a política, entender de política e conhecer seus direitos e deveres. Se a CPIpalooza contribui para isso, vamos seguir acompanhando! Até porque a CPI acaba incentivando que a gente se informe sobre vários assuntos paralelos. A CPI levantou a lebre do número inacreditável de militares com cargos no governo, por exemplo. Aí lá vamos nós procurar saber mais sobre isso, tentar entender porque isso é tão ruim, quais papéis os militares já exerceram na nossa política ao longo da história e por aí vai.

E, há de ser dito, independente da seriedade dos assuntos abordados e da importância da política, a CPI é um baita entretenimento, sim. O brasileiro gosta de ver treta e bate boca, que rolam direto nas sessões. Tem a dualidade bem definida do bem contra o mal, entre personagens muito interessantes. O senador Omar Aziz é uma figura, com suas frases de efeito tal qual “Me erre!”, “Jabuti não sobe em árvore.”, “Chapéu de otário é marreta.”, além de, para quem acompanha as sessões pela internet com fone de ouvido, ele ronronar, quase que roncando acordado numa respiração esquisita (vai se tratar, Omar!). Tem o intrépido Randolfe Rodrigues, que se destaca com firmeza, O senador Otto Alencar e suas perguntas de professor de faculdade que dão medo, tem a Simone Tebet, mulherão da porra com argumentos sagazes e bem colocados. Do outro lado temos o Flávio Bolsonaro, encrenqueiro e falastrão, o senador Fernando Bezerra que gosta de interromper uma fala pra defender o governo como ninguém, o Marcos Rogério engomadinho chato de doer e o Luís Carlos Heinze e sua fixação por ONGs que defendem a maconha.

Como brasileiro, gato escaldado, não boto muita fé que essa CPI vá punir pra valer alguém, o que deveria acontecer, diga-se. Mas só de ela estar acontecendo e gerando tanto barulho, discussão e levando as pessoas, ainda que sejam poucas, a procurar conhecer melhor a nossa política, eu já acho ótimo! Não vejo a hora de acompanhar os próximos episódios desta que hoje é minha série favorita!

HOJE EU RECOMENDO

Série: Mad Men
Ano de lançamento: 2007
Onde assistir: Amazon Prime Video
Se você não estiver na onda de maratonar a CPI, tudo bem, então pega essa série incrível sobre uma agência de publicidade dos anos 60 com um figurão criativo e uma mulher que tenta se destacar como redatora. É excelente!

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