Paulo Argollo

Era uma vez uma banda de rock predestinada ao sucesso. A década de 80 chegava ao fim e o rock n’ roll clamava por renovação. O cenário já estava abarrotado de bandas com cabelos bufantes, músicas cheias de teclado e letras hedonistas. A banda em questão vinha de Seattle, uma cidade dos Estados Unidos que não tinha uma tradição musical forte como Los Angeles, New York ou Detroit. Mas naquela época, Seattle contava com uma pequena cena de bandas ativas, cooperando entre si, para lançar discos e fazer shows. A banda em questão se chamava Mother Love Bone, e era vista por todos na cidade como a banda que com certeza faria sucesso além das fronteiras do chuvoso noroeste norte americano.

Boa parte dessa certeza vinha do carisma e talento inacreditáveis do vocalista da banda, Andrew Wood. Era chamado pela turma de Andy, e era um compositor de mão cheia e incansável. Tinha como ídolos Elton John, Kiss e Led Zeppelin, ou seja, tinha em seu DNA melodias doces e trabalhadas de Elton John com o peso e agressividade de Kiss e Led Zeppelin. Mas Andy Wood era apenas uma das partes que fazia da Mother Love Bone uma banda tão espetacular. Stone e Jeff, guitarrista e baixista respectivamente, eram amigos de longa data e parceiros musicais inseparáveis. Músicos competentíssimos e muito criativos, eles traziam a técnica e linguagem musical que faltava a Andy. Suas composições em conjunto eram canções grandiosas! Realmente a banda tinha tudo para decolar. E decolaram, rumo a Los Angeles para gravar seu primeiro disco.

Gravaram as músicas num estúdio pequeno nos arredores de Los Angeles e finalizaram o disco em casa, no estúdio London Bridge, em Seattle. Um disco irretocável, com rocks energéticos e equilibrados entre o metal e o punk, e baladas à la Elton John de emocionar o mais duro dos corações. O disco se chamaria Apple e seria lançado em março de 1990. Era sucesso garantido!

Porém, assim como era talentoso e sensível, Andy Wood também era inseguro e tímido. Logo cedo, ele encontrou nas drogas o combustível que lhe fazia se sentir seguro de si e estar sempre de alto astral. Para se ter ideia, aos 19 anos de idade ele já precisou ir para uma clínica de reabilitação por abuso de drogas. Naquele começo de 1990, ele voltava de mais uma dessas internações e estava limpo havia 2 ou 3 meses. Porém, às vésperas do lançamento do disco, no dia 16 de março, Andy teve uma recaída e acabou sofrendo uma overdose de heroína. Foi internado em estado gravíssimo. 3 dias depois ele faleceu aos 24 anos de idade.

Stone e Jeff ficaram desolados. Jeff resolveu se afastar da música. Stone passou a tocar com um amigo de Seattle também guitarrista, chamado Mike. Mike, por sua vez, insistiu que Stone convencesse Jeff a voltar a tocar. Jeff voltou. Eles convidaram Matt, um baterista de uma outra banda de Seattle de amigos em comum para gravar algumas músicas instrumentais que eles haviam composto. O resultado era promissor, mas faltava um vocalista. Em certa ocasião, Jeff e Stone mostraram a Jack, que era amigo deles e baterista de uma já famosa banda da California, a fita com essas gravações. Jack disse: “Eu conheço um cara em San Diego que tem tudo a ver com esse som. Posso dar uma cópia dessa fita pra ele?”. “Claro!” eles responderam.

Então a tal fita chegou a San Diego nas mãos de um jovem chamado Eddie, que trabalhava como frentista num posto de gasolina, vivia surfando nas horas vagas e cantava numa banda chamada Bad Radio. Eddie adorou aquelas músicas instrumentais. Numa tarde, fumou um cigarrinho medicinal e foi pro mar pegar umas ondas. Enquanto surfava, teve várias ideias de letras para aquelas músicas. Voltou pra casa correndo, escreveu as ideias e cantou suas letras em cima das bases instrumentais. Mandou a fita de volta para Jeff e Stone com seus vocais gravados por cima das músicas. A dupla ficou animadíssima. Talvez ainda não era realmente a hora de desistir. Falaram com Eddie por telefone. Alguns dias depois ele já estava em Seattle.

Na mesma época, Chris, um dos melhores amigos de Andy e vocalista da banda da qual Matt era baterista, convidou Stone e Jeff para gravar algumas músicas que ele tinha escrito em homenagem a Andy. Eles toparam. Stone levou junto seu amigo Mike e propuseram que seu novo amigo Eddie gravasse alguns vocais também. Matt completou o time. Eles gravam então um disco chamado Temple of the Dog, mesmo nome dado à banda.

Meses depois, Stone, Jeff, Mike e Eddie, com o baterista Dave, gravam suas músicas no London Bridge, mesmo estúdio onde a Mother Love Bone finalizou seu disco. A banda deles foi temporariamente batizada de Mookie Blaylock, nome de um jogador de basquete do time Atlanta Hawks, de quem todos na banda eram fãs.

O nome da banda não era bom, e podia acabar em processo. Então, eles resolveram mudar de nome. Mesmo assim, para homenagear o jogador, o disco foi batizado com o número da camisa que Blaylock usava. A camisa 10. A banda, que passou a se chamar Pearl Jam, lançou o disco Ten em 27 de agosto de 1991. 30 anos depois de seu lançamento, ainda é um dos discos mais influentes do rock mundial. Stone Gossard, Mike McReady, Jeff Ament e Eddie Vedder ainda mantém a banda em atividade até hoje. Mas agora, o baterista da banda é Matt Cameron, o mesmo baterista que gravou a fita que foi enviada a Eddie Vedder em San Diego em 1990. Matt Cameron era baterista da banda Soundgarden junto com Chirs Cornell, que era um dos melhores amigos de Andy Wood. Infelizmente Cornell cometeu suicídio em maio de 2017. Antes de Matt Cameron, quem ocupava o posto de baterista do Pearl Jam era Jack Irons, que era baterista da banda Red Hot Chili Peppers em 1990 e foi quem indicou Eddie Vedder a Stone Gossard e Jeff Ament.

Os 30 anos do disco Tem representam mais que um disco clássico dos anos 90. Claro, é um disco brilhante e fundamental. Mas ele também representa a beleza e importância da amizade, do companheirismo e do compromisso com aquilo que cada um acredita e ama, no caso desses caras todos, a música.

HOJE EU RECOMENDO
Disco: Apple
Artista: Mother Love Bone
Ano de lançamento: 1990
Andy Wood morreu em março de 1990, quando o disco seria lançado. Com sua morte, o disco foi laçado em julho do mesmo ano, com a banda já dissolvida. Ficou como registro da genialidade e potencial de Andy, Stone e Jeff juntos. Disco recomendadíssimo, tal qual o Tem, do Pearl Jam.