Mulheres marcantes: Bertha von Suttner

Encerramos o mês de março de 2026, trazendo para o nosso meio uma figura feminina notável e também esquecida pela maioria esmagadora de nós, em tempos de alta rotatividade e volatilidade, é comum colocarmos nas gavetas do esquecimento as pessoas que fizeram o bem, que se dedicaram a uma ou várias causas nobres, nosso tempo está emporcalhado de pessoas e temas que mancham a dignidade humana em todos os sentidos, nosso tempo dá mais valor aquilo que denigre, que dá ênfase aos assassinos de plantão, que pensam serem os donos do mundo, que agem em nome de Deus, achando que salvarão a humanidade do caos; vivemos uma era onde vale a lei do mais forte, somos governados por ególatras da pior espécie possível e temos muita responsabilidade nisso e muito mais, nosso silêncio ensurdecedor é um cúmplice dessa miséria humana toda hoje.

Para terminarmos bem esse mês dedicado às mulheres lembramos de Bertha von Suttner (1843-1914), compositora, escritora e pacifista, viveu intensamente a sua vida sempre em busca da paz entre os povos, muito provavelmente ela já estava antevendo os horrores que viriam em 1914 com o advento da Primeira Guerral Mundial (1914-1918), sua obra está coroada sob os alicerces de se buscar entendimento para todos os conflitos mundiais, no ano de 1891 ela juntamente com outros ajudou a organizar algo até então inédito, isto é, criaram o primeiro congresso internacional da paz, um não decidido às armas era a palavra de ordem; devida a sua intensa e firme adesão ao pacifismo, em 1905 ganhou o Prêmio Nobel da Paz, a primeira mulher a receber tal honraria, algo até então impensável, tanto na Europa, quanto no restante do globo, seu valor e luta nunca foram esquecidos.

No campo musical se embrenhou especialmente na seara da ópera e estudar as línguas para melhor compreender essa musicalidade, foi durante muitos anos professora de música, juntamente com a música desenvolveu o talento da escrita, seu primeiro livro segundo os críticos contém muito de autores como Darwin e Spencer, nesse mesmo livro encontramos o conceito social de paz. No ano de 1899 publicou “A idade das máquinas”, um romance forte, nacionalista e dedicado quase exclusivamente ao mundo armamentista, não contente publicou em seguida “Abaixo às armas”, um sucesso imediato e logo reproduzido em diversas línguas; esse livro a catapultou para o mundo todo e seu nome então foi definitivamente lançado como uma voz do mundo pacifista para todo o sempre; com ela vieram outras sim é verdade, nosso mundo precisa urgente dessas belas vozes.

Já com a idade avançada não esmoreceu em seus esforços, em 1912 foi aos Estados Unidos para uma série de conferências em prol da paz mundial, uma de suas últimas palestras foi no ano de 1913 e em 1914, às vésperas de eclodir a guerra ajudou com entusiasmo a preparar o vigésimo terceiro congresso mundial da paz, ela acabou morrendo dois meses antes do início da guerra que mudou drasticamente para sempre o caminho da humanidade. Não é difícil perceber na vida de Bertha von Suttner essa tensão existencial, guerra e paz, o momento existencial dela foi marcado pela ruptura de um tempo e começo de uma nova era, uma mulher que como poucas percebeu o caos ganhando forma, rosto e objetivos, uma Europa que a partir de então nunca mais seria ela mesma, uma Europa com belas construções que já não ajudam em nada, existem mas não vivem.

Bioeticamente, a figura pública de Bertha von Suttner merece estar entre nós, especialmente quando a luta pela paz parece estar perdendo força a cada dia que passa, as vozes insanas das bombas e mísseis cruzando os céus, espetáculo horrendo, cerca de um bilhão de dólares usados todos os dias para matar pessoas que mal ganham para sobreviver, a técnica a serviço da destruição em massa, genocídios sem explicação, a fraqueza moral dos líderes governamentais atuais é algo indescritível , de uma baixeza inigualável, um verdadeiro escândalo para as gerações futuras; o que ninguém enxerga ou não quer ver, é que o que nos destrói é o nosso “sucesso” e não os nossos fracassos, está diante de nós as amarras que nos colocaram, os acordos espúrios, as falácias dos discursos; Bertha von Suttner sabia bem o que estava acontecendo, por isso ela está viva. 

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com