Transformando o tédio em melodia.

          O mundo atual vem passando por uma mudança profunda em todas as direções, para onde quer que se olhe a situação é basicamente a mesma, paira no ar uma sensação de que tudo está desmoronando, que a cada dia que passa estamos mais frágeis apesar de todas as aparências de grandeza e força que muitos tentam nos inculcar, realmente o nosso mundo do tempo de criança há muito deixou de existir, um gosto amargo de desilusão toma conta ao nosso redor, por mais que nos esforcemos, os que detém as rédeas do poder não nos ouvem, não somos levados a sério, a não ser em tempos de eleição; queiramos ou não admitir, nossos destinos estão nas mãos de imbecis especializados em fazer o mal, naqueles que se vangloriam do uso da força bélica, os tresloucados da última hora não tem vergonha e muito menos pudor em nos tirar ou roubar o que temos de mais sagrado, a vida.

          Não pensar, não enxergar, não agir, são doenças gravíssimas que acometem muitos de nós hoje, por isso voltamos a um pensador seminal de muito prestígio e que tem muito a nos ensinar, alguém que anteviu como poucos as doenças do mundo “moderno”, alguém que sem querer profetizou as patologias que estão aí, seu nome: Erich Fromm (1900-1980), um dos diretores da Frankfurter Institut für Sozialforschung, popularmente conhecida entre nós como a Escola de Frankfurt. Com a subida dos nazistas ao poder na Alemanha, acabou deixando sua terra e se estabeleceu nos Estados Unidos até o final de sua vida; Fromm vivencia e experimenta in loco, os momentos marcantes e decisivos do século XX, os dilemas desse mundo dito “moderno”, advém de um processo humano lento, nem tudo são flores na existência humana, em outras palavras, a caminhada é por demais contraditória.

          A atualidade de Erich Fromm é inquestionável, especialmente quando lemos em sua vasta obra os temas destrutividade, alienação, coisificação, autoritarismo, conformismo, liberdade, a idolatria, a vigilância total, irracionalidade, a burocracia sem fim transformando o ser humano numa máquina muitas vezes sem sentido, fazendo coisas que ele nem mesmo sabe para que propósito servirão, o uso da religião para fins de dominação, sistemas financeiros que promovem a angústia no ser humano, de sempre querer se ter mais em detrimento de uma vida saudável e mais comedida. Analisar o atual estágio da humanidade com o olhar de Fromm, é ir contra a corrente esmagadora que aí está, é se colocar no lugar do outro que experimenta na pele as escolhas difíceis que precisamos fazer todos os dias, cada um de nós está envolvido num ou noutro aspecto dessas escolhas.

          Dentre as tantas situações estudadas por Erich Fromm, uma que merece destaque aqui é a chamada coisificação do ser humano, processo esse que se dá por inúmeras vias atualmente, coisificar uma pessoa é tirar dela aquilo que ela possui de mais sagrado, é transformá-la num zumbi ambulante, isto é, alguém que passa o dia, falando, vendo, escutando e fazendo, sem entretanto compreender absolutamente nada daquilo que está fazendo, escutando, vendo e falando, são os novos palradores, as subcelebridades de plantão, uma mercadoria que vale pelo aqui agora, mas que amanhã é obsoleta e descartável; a engrenagem da coisificação que molda o ser humano a seu prazer, passou por uma profunda transformação, a coisificação atinge hoje áreas até então impensáveis; nesse processo o que contra são os interesses, aquilo que vai dar retorno, a lucratividade.

          Bioeticamente, a figura ímpar de Erich Fromm nos remete para um outro patamar existencial, ou seja, ela nos transporta para aquele mundo que abandonamos, que um dia fez parte da nossa primeira vivência, o mundo que mais tarde optamos nos traiu e nos traí dia e noite, ele não faz a menor cerimônia em nos abandonar, em nos deixar sós e sem nada para repor em muitas situações. O mundo que nos deixa alienados, não preenche as nossas expectativas, ele é preocupado apenas consigo mesmo, com as suas necessidades egoístas, até mesmo as doenças que esse mundo moderno provoca tem o condão de produzir riqueza, na verdade uma riqueza criminosa, às custas de muito sofrimento humano, tomemos como exemplo a pandemia do ser invisível, as guerras sem fim, uma economia frustrante; o mundo de Fromm realmente não cabe no molde atual deste mundo.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com