Vivemos num tempo onde o espetáculo, a fama, o sucesso, a força descomunal e o encanto pela técnica não tem limites, tudo se faz pensando em obter o maior número possível de likes, uma rentabilidade imediata, haja o que houver, aconteça o que acontecer, nada importa, a não ser a satisfação imediata, o esquecimento do sofrimento, tampar os olhos e os ouvidos para o que está acontecendo ou já aconteceu ao nosso redor. Esse é o mundo que adotou a aparência como estilo de vida número um, importa o ter mais no aqui agora, do que o ser mais aqui agora, tudo é direcionado para não se levar desaforo para casa, procurar o caminho mais fácil, passando por cima de tudo e de todos, importa maximizar o lucro e a satisfação em número muito reduzido e maximizar ao extremo a distribuição das dívidas, as n desgraças, a destruição do meio ambiente e também da vida.
No último dia 26 de abril, sem alarde, tudo devidamente abafado, como é agora o costume reinante, rememoramos o quadragésimo aniversário do maior acidente nuclear da história, Chernobyl, reator de número 4, na cidade de Pripyat, norte da atual Ucrânia e que fez parte do antigo império soviético. O que era para ser exemplo para o ocidente, o que era para ser o maior espetáculo da terra em termos de progresso, aquilo que prometia uma era de abundância e satisfação sem fim, a cidade futurista, em alguns minutos se transformou num pesadelo de proporções incalculáveis, inimagináveis, incomensuráveis; hoje essa área é um memorial da hybris humana, uma região fantasma, inabitável, esquecida para todo o sempre; como era costume na antiga URSS tudo era realizado em nome do futuro, da glória humana, do progresso e da técnica; mas toda ambição tem preço.
Chernobyl, um nome antes endeusado e glorificado, hoje nos causa arrepios, calafrios e vertigens, Chernobyl se tornou algo monstruoso, sinônimo de morte, destruição e devastação, esse episódio de triste lembrança é o Frankenstein dos tempos atuais, um prenúncio dos acontecimentos vindouros e que agora fazem parte da nossa vida, queiramos ou não. Chernobyl foi pensada, planejada e construída para ser um sucesso estrondoso, sem falhas, sem erros, tudo funcionando perfeitamente nos mínimos detalhes, mas toda essa Babilônia técnica e “sofisticada” era gerida e operada por seres humanos, limitados, bitolados, treinados unicamente para que nada desse errado, esses seres humanos quando viram diante dos olhos milhares de luzes piscando nos painéis ficaram sem chão, não sabiam lidar com a situação, ninguém lhes disse que algo podia dar errado.
E realmente algo deu muito errado, o calcanhar de Aquiles de Chernobyl foi ferido gravemente, tudo e todos estavam despreparados para o que aconteceu e o que viria acontecer nas décadas seguintes, Chernobyl, Pripyat, só estavam preparadas para o sucesso, estavam fazendo tudo em nome do futuro, mas elas esqueceram o presente, o aqui agora, não levaram em conta o princípio responsabilidade, a prudência, a cautela, estudos e avisos; tomou-se como lema, a pressa, a audácia, o fascínio pelo desconhecido, o poder sem fim que a energia nuclear poderia dar. Hoje passadas quatro décadas e com os muitos estudos feitos e publicações de peso a disposição de todos, sabe-se que todo esse projeto desde o seu inicio continha falhas, uma segurança pífia, erros humanos e técnicos que foram amplamente negligenciados por um governo cego, surdo, mudo e fraco.
Bioeticamente, trazer Chernobyl para os dias atuais é não apagar essa tragédia da história e da memória, mas lembrar a todos que a energia nuclear deve ser deixada de lado, que ela pode transformar tudo ao seu redor numa enorme lixeira, deixar tudo sem vida para todo o sempre, até hoje ninguém sabe quantas pessoas lá morreram, num raio de 30 quilômetros tudo está fechado e acabado. O sonho da vida perfeita se desfez, a ilusão deu espaço para a vulnerabilidade, nosso futuro não é mais como antigamente. Chernobyl é apenas mais uma marca do progresso sem consciência, do progresso que mata e faz sofrer quando não se leva em conta a vida em geral; hoje o perigo continua, é real e pode acontecer em qualquer lugar novamente; a energia nuclear é algo muito caro, destrutiva, extremamente perigosa, Chernobyl paira hoje no ar mesmo após passados quarenta anos.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com





