Certas coisas que não se esquecem.

rosel e anor

          Faleceu no último dia 29 de maio de 2026, o filósofo francês Edgard Morin, em julho ele iria completar 105 anos de idade, uma das vozes mais importantes da filosofia dos dias atuais, um homem que se dedicou de corpo e alma em entender a vida no seu todo, a política, o ser humano, não à toa seu pensamento foi considerado complexo, de vastidão única, ao longo da sua trajetória procurou ligar tudo a tudo, opositor ferrenho aos sistemas governamentais que reduzem o cidadão a mera massa de manobra, não poupou críticas aos regimes ditatoriais. Com o passar do tempo, sua lucidez só foi aumentando, percebeu claramente a fragmentação da vida diante das inúmeras barbáries, uma contradição profunda entre a vida bela, louvada pelos iluministas e a realidade nua e crua do século XX; combateu a restrição de ideias hoje vigente, o esquecimento do passado, e a nossa história.

          Morin cunhou a famosa expressão “policrise” e para isso ele tem motivos de sobra, pois nessa palavra se condensa toda a hybris grega, praticamente tudo o que foi criado ao longo dos séculos caiu numa forma de degenerescência, isto é, da euforia passamos ao medo, do louvor a técnica, fez morada em nós o temor de uma não vida, de um domínio absoluto da natureza, convivemos agora com uma crise climática sem precedentes, ameaçando o presente e as gerações futuras, do endeusamento da democracia nutre-se agora um profundo ceticismo para com ela, chegando muitas vezes até um descrédito completo com ela, de tão embriagados que estávamos, ingerindo doses cavalares de otimismo não percebemos que o improvável pode acontecer, que as nossas certezas são frágeis diante das tempestades que nós mesmos provocamos, uma mera ilusão de ótica.

          Para Edgard Morin, uma doença crônica que atinge o ser humano hoje é perder a ligação com as suas origens, a sua história, o seu passado, não procurar entender a sua trajetória, nascimento, infância, adolescência maturidade e velhice são falhas graves e muito disseminadas nos dias atuais, esquecer a sua origem eis uma doença que precisa ser curada urgentemente, a sociedade atual abraçou quase de modo universal Pólemos e Tânatos, as personificações perfeitas da morte, da desagregação, de tudo aquilo que afasta, corrói e destrói, esquecemos de pensar, nos entregamos a poderes titânicos que nada querem de nós a não ser a submissão completa, alegramo-nos de sermos livres, mas essa liberdade é meramente balela, como nos alertou George Orwell, de forma exemplar décadas atrás; corremos sem saber para onde,  estamos atrás de sonhos muito perigosos.

          Em relação ao progresso, Morin sustenta que se ele não for orientado sob a ótica da responsabilidade e prudência, ele nos levará para um buraco negro, o progresso carrega em seu seio a ambivalência, a dubiedade, as contradições, as enormes disparidades que aí estão, quando se fala em progresso, é bom ter em mente quem está usufruindo e lucrando com ele e a que custo isso acontece, caso contrário não é progresso, é mais um tema falado apenas da boca para fora. Se o progresso trouxe alguns benefícios, também com ele surgiram novos traumas antes impensados, o pior deles é não acreditar na espécie humana e querer inventar novas formas de espécies que venham a substitui o ser humano; sair da Terra, fazer uma casa na Lua e depois colonizar, expropriar Marte são situações preocupantes; destruir aqui e ir para lá não é progresso, é ganância perpetuada no tempo.

          Bioeticamente, Edgard Morin fará falta existencialmente, mas pelo lado intelectual e humano, das ideias, ele continuará para sempre entre nós, as alegrias e tristezas que ele proclamou aos longo de seus 104 anos de vida estão aí para serem analisadas, estudadas e pensadas e qual o caminho queremos escolher diante do cenário atual, ou seja, a vida ou a morte, a alegria ou a tristeza, pensar ou estar preso, queremos crescer como humanidade ou cairmos no poço sem fim da mediocridade e ausência de progresso autêntico. Morin nos lembra com insistência o que outros grandes mestres já disseram, somente a solidariedade, fazer o bem, resgatar as amizades, os povos viverem em paz, isso e outras coisas simples do dia a dia nos farão melhores, mais humanos, mais próximos de nós mesmos e da vida em geral; o desafio e conviver com a complexidade continua, Edgard Morim é sim uma luz.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com

Rolar para cima