Deus não faz contabilidade

Lino Baggio

Para relacionar-nos humanamente com o Deus que Jesus nos revelou, o mais urgente que devemos fazer é quebrar as “falsas imagens” d’Ele que carregamos em nossas consciências, em nossa intimidade mais secreta. E a primeira e principal imagem falsa é que Deus é uma ameaça da qual devemos nos proteger.

De fato, a presença de Deus na vida e na história de muitas pessoas é vivida secretamente sob as vestes do temor e do medo. Um “Deus” que a todos pedirá contas no juízo, onde teremos de responder pelo mau uso de nossos dons; um “Deus” que nos castiga com desgraças, por causa de nossos fracassos; um “Deus” interesseiro, um ídolo que nos amarra e não nos deixa viver, que impõe obrigações duras e difíceis; um “Deus” que é um constante perigo, causador do grande medo que nos paralisa. Diante desse “Deus” é impossível “amá-lo de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento”.

No entanto, a fé não se fundamenta jamais a partir do medo, nem se confunde com modos fechados de viver, com fixação legalista; ela é busca, iniciativa, aventura, correr riscos. Assim, passamos a nos relacionar com Deus, cuja presença na História não nos proíbe de construí-la, mas nos empurra em favor da transformação deste mundo. Só assim poderemos recuperar a confiança no Deus que nos olha com ternura e viver a partir do amor que afasta todos os medos. De fato, “no amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo; quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18).

A verdadeira “experiência espiritual” é estabelecer com o “Deus da Vida” uma relação “desinteressada”, isto é, uma relação na e a partir da gratuidade; é passar do “Deus mérito” ao “Deus do dom”, do “Deus juiz” ao “Deus Pai”, do “Deus ameaça” ao “Deus amor” que nos acolhe em nossa vulnerabilidade e fragilidade. Jesus pinta um rosto de Deus que a sabedoria humana não pode entender. Deus não faz contabilidade; não soma nem virtudes e nem pecados. Ele não está acima de nós cobrando, mas abaixo, desafiando, fortalecendo e sustentando nossa vida. Esta percepção de Deus todo Gratuidade nos faz mergulhar na dinâmica da Graça, nos revela um Deus que nos quer porque somos criaturas suas. E basta!

Assim é o amor: não tem “porquês”, “sem-razões”. Ama porque ama. Com um Deus assim acabam-se os ressentimentos, as violências interiores, os sacrifícios, os sentimentos de culpa. Morre o “deus” das proibições, das ameaças, dos castigos e da perpétua vigilância sobre nossos atos e intenções. Desaparece a fé imatura e farisaica que injeta no nosso interior o carcoma da culpa, da dívida, do medo, do remorso.

O amor que Deus tem pelo ser humano é perfeitamente desinteressado, gratuito e livre. Deus invade sua vida, banhando-a toda de seu amor. Não é o ser humano que é amável; é Deus que é amor. Esse amor é absolutamente primeiro, ativo e criativo, absolutamente livre: não é determinado pelo valor de quem Ele ama.

A pessoa encontra-se, assim, envolvida pelo amor de Deus. Esse amor, ativo e primeiro, suscita nela a gratidão que a leva a corresponder com um amor-serviço. A paixão por Deus implica compaixão pelo ser humano.

Pe. Lino Baggio, SAC

Paróquia São Roque – Coronel Vivida