Viver, existir, sobreviver e morar no país dos escândalos cotidianos não é para qualquer um, principalmente quando nos chegam notícias e imagens, as mais absurdas sobre desvios de dinheiro, bancos quebrando de forma deliberada e colocando milhares de pessoas em suspenso, malas de dinheiro sendo atiradas de prédios, um monte de gente envolvida, as artimanhas jurídicas tentando a todo custo desmontar aquilo que já sabemos desde tenra idade, basta nos recordarmos da antiga e tão atual “alvorada voraz”, da lendária banda RPM, nada mudou de lá para cá, pelo contrário, muitas situações pioraram, nosso querido e amado Brasil, sempre padecendo de males que há muito poderiam ter sido eliminados, falar deles é muito revoltante, pois todos sabemos que dinheiro se tem de sobra, isso nunca foi problema; o problema está no coração de quem detém o podre poder.
Todo ano no período quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB lança um tema pertinente e que faz parte da sociedade brasileira, nesse ano de 2026, o tema escolhido foi Fraternidade e Moradia, um tema que é muito caro ao nosso país, haja vista o quão difícil é para muitos obterem a sua casa própria; moradia, um direito humano básico, de primeira necessidade, que à primeira vista parece algo banal, mas quando vamos adentrando no tema com os olhos, mente e coração vamos percebendo a dura realidade de norte a sul, leste a oeste desse imenso país, ter uma casa para morar é talvez um dos maiores e primeiros sonhos de qualquer ser humano. Na era das desigualdades brutais, ter um lar, é para muitos um sonho impossível, são tantas as pressões cotidianas, os gastos para sobreviver, isso e muito mais torna a ideia da moradia algo bastante difícil.
O atual cenário global nos diz muito sobre a moradia, o mais e o menos, palácios e casebres, em algumas casas de dimensões colossais muitas vezes reside uma única pessoa, já em outras casas minúsculas, não raro encontramos muitas pessoas vivendo aglomeradas, em condições precárias, faltando praticamente tudo; terra, bem sabemos tem muita, muitas e muitas casas poderiam ser construídas sem nenhum problema, quantos infortúnios não seriam resolvidos nesse belo país se houvesse políticas públicas realmente levadas a sério, quantas pessoas na área da engenharia e arquitetura estão entre nós e poderiam fazer um trabalho incrível de construção de casas, isso se nossos dirigentes tivessem vontade e gosto pela coisa pública, pelo embelezamento de nossas cidades, não raro percebemos um pensamento mesquinho sobre as tantas situações de vulnerabilidade.
Moradia tem sim a ver com o dinheiro mal usado, e aí entramos num campo minado, onde nos arrepiamos até a alma quando vemos o dinheiro sendo gasto em coisas realmente desnecessárias e que não vão levar ninguém a lugar algum, quantas construções suntuosas, prédios destinados ao serviço público estão aí bem diante de nossos olhos e deixaram de ter alguma finalidade já mesmo no dia da sua inauguração, outras tantas estão espalhadas por esse Brasil, sendo abrigo para animais peçonhentos, criadouros de doenças e por aí afora. Um exército de pessoas clama por um teto decente, pensemos naqueles que nesse momento vagam pelas ruas mendigando um lugar para tomar banho, usar um banheiro, uma sala para fazer a sua refeição, ou mesmo para poder descansar, são milhões de seres humanos nessa vergonhosa precariedade; esse é o Brasil de hoje.
Bioeticamente, a questão da moradia é mais uma mancha grave em nossa sociedade, junto com essa falta vem a reboque muitas outras e isso infelizmente perdura por décadas, basta nos aprofundarmos um pouco, mesmo que de modo superficial em nossa história; sabemos bem, ou seja, aqueles que não tem uma moradia e consequentemente condições para mantê-la, tais como trabalho digno, financiamentos adequados e juros nem um pouco abusivos, um saneamento básico, enfim uma miríade de situações, jamais teremos pessoas comprometidas com qualquer tipo de mudança. Especialmente quando lemos todos os dias sobre escândalos financeiros medonhos, cifras monetárias estratosféricas, dinheiro sendo atirado pelas janelas, manobras jurídicas estapafúrdias para desviar a atenção do público; qualquer um de nós perde as esperanças.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com



