Mulheres marcantes: as vítimas de Epstein.

Jeffrey Epstein (1953-2019), é um daqueles personagens que sai do nada, alguém que praticamente nunca ouvimos falar dele, uma pessoa completamente desconhecida, mas que de um momento para outro ficamos sabendo da sua existência e da sua vida, isso porque nas idas e vindas da sua história, o Brasil encontra-se bastante enraizado em sua vida, aparentemente uma pessoa acima de qualquer suspeita, quando criança e adolescente frequentou a escola normalmente, até onde se sabe era inteligente, chegando a ser professor por um tempo e depois enveredou para o mundo das finanças onde mostrou seus dotes para diversos grupos e executivos financeiros. Em seu círculo de amizades não estão incluídas pessoas “normais”, do mero cotidiano; seus amigos e amigas são da elite, de um mundo quase que irreal, um verdadeiro conto de fadas, só que regado a pesadelos.

O mundo de Epstein foi um universo paralelo ao que normalmente costumamos vivenciar, frequentou a alta corte, os palácios, bailes, festas, a politica mais badalada e seus integrantes mais notórios, tanto nos Estados Unidos, quanto mundo afora e isso inclui o Brasil também. O financista Epstein sabia como mudar o curso da sua história e dos outros ao seu redor, usava e abusava da palavra mágica “dinheiro” para atrair para perto de si aqueles que lhe interessavam e posteriormente lhe deveriam favores imensos em todas as áreas. Para saciar a sede de seus “amigos e amigas” nada melhor do que lhes oferecer prazer, esse vindo de todas as partes do Planeta, sabe-se hoje através das inúmeras investigações que os tentáculos de Epstein iam muito longe e traziam para a sua ilha “paradisíaca” no Caribe, mulheres jovens, adolescentes e crianças para serem “admiradas”.

Mas essa admiração tinha muitos outros nomes, tais como: guerra sexual, abusos de menores, tráfico humano, crimes sexuais infantis, desfiles e leilões a céu aberto de suas vítimas, para Epstein não havia esquerda ou direita, a ambiguidade era algo profundamente enraizada em sua personalidade, por outras palavras, quem pagava mais levava. Não á toa, que hoje quando mergulhamos nesse caso percebemos uma densa nuvem de fumaça tentando obstruir qualquer tipo de investigação, afinal Epstein construiu um mundo cercado de impunidade, seus sócios eram a nobreza do mundo financeiro, político, militar, da ciência, tecnologia, globalização e privatização, some-se a isso a total hegemonia masculina em todos os terrenos, nas quais ele acreditava piamente. Epstein mostrou ao mundo o que muitos já desconfiavam, isto é, quando se está no poder você faz o que quer.

As vítimas de Epstein ao longo dos anos foram muitas, vieram de todos os rincões, na sua maioria esmagadora mulheres em busca de algo melhor para as suas vidas, mas a realidade nua e crua quando se depararam com a ilha de Epstein foi muito diferente, há relatos de suicídios, desaparecimentos misteriosos, overdoses, violências de todo tipo e a qualquer hora do dia, a hybris do prazer levada a uma escala sem precedentes. No Brasil a rede de Epstein esteve em atividade por muito tempo, tanto para aliciar mulheres de todas as idades, bem como para abocanhar potenciais “empreendedores” para compartilharem e expandirem suas redes de negócios; praias de norte a sul, revistas de moda, fotos, eram apenas algumas de suas obsessões, foram amplamente visitadas por seus olheiros e comparsas; no mundo de Epstein tudo tinha um preço, mas as vítimas não tinham valor.

Bioeticamente, as mulheres estão no centro do caso Epstein, estão presentes de um modo nada digno, usadas e abusadas, servindo na maioria das vezes como moeda de troca, todas a serviço de um poder sombrio, oculto e ganancioso; o número exato dessas mulheres que passaram pela ilha de Epstein provavelmente nunca saberemos ao certo, nem mesmo seus nomes serão lembrados, haja vista os intensos esforços para varrer esse caso de uma vez por todas para debaixo do tapete do eterno esquecimento. O mundo atual está cada vez mais inclinado a adotar a lei do mais forte, da vingança seletiva, Epstein estava rodeado de muitos que se auto intitulam “donos do mundo”, “donos da verdade”, “donos da moral e dos bons costumes”, “donos da vida e da morte”, o tempo nunca foi e não será neutro, a consciência de quem lá esteve julgará os mesmos, Epstein nunca mais.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com