Muitos são aqueles que se queixam da vida, dos percalços que ela impõe a cada um cotidianamente, muitos são aqueles que se fazem de coitados para nada fazerem, esperando sempre uma oportunidade para se desincumbirem de suas responsabilidades, muitos são aqueles que promovem todo tipo de situações que acabam inibindo em muitos a oportunidade para criarem um mundo melhor, muitos são aqueles que de uma forma ou de outra criam situações de difícil solução só apostando no quanto pior melhor, estamos vendo isso e muito mais bem diante de nossos olhos, por outras palavras, máquinas voadoras para matar pessoas que custam milhões de dólares, sendo usadas com toda fúria, diante de nós vemos tantos inocentes sendo massacrados, inocentes que mal ganham para sobreviver; em muitos aspectos nosso mundo atual sofre de uma cegueira absurda, mortal.
Num mundo carregado de péssimos exemplos, trazemos à tona a figura ímpar de Dorina de Gouvêa Nowill (1919–2010), uma mulher inspiradora, criativa, educadora e sensível aos problemas que se lhe apresentavam, Dorina perdeu a visão aos dezessete anos de idade, numa época em que ser cego era praticamente assinar a própria sentença de morte, Dorina mesmo diante da vitalícia cegueira não desanimou, correu atrás como costumeiramente falamos, desenvolveu novas habilidades, criou situações para vencer a sua “fraqueza”, nadando contra a corrente se formou professora, algo até então tido como impensável; quis a vida proporcionar a Dorina algo muito maior ainda, ela fez com louvor, especialização nos Estados Unidos, estudo esse totalmente voltado para a deficiência visual; se nos sentimos vazios por dentro Dorina Nowill é um belo exemplo a ser seguido.
Após sua estadia nos Estados Unidos, voltou para o Brasil onde mergulhou fundo para melhorar a vida das pessoas cegas, produziu, criou e distribuiu livros em Braille, na mesma esteira buscou regulamentar a educação para as pessoas cegas e com o passar do tempo isso se tornou lei nacional, hoje passados tantos anos notamos o quanto essa luta foi e continua importante, quantas pessoas com problemas visuais puderam e estão aí mostrando o seu valor, as suas habilidades, uma riqueza belíssima que em hipótese alguma pode ficar escondida. A cegueira só existe para aqueles que não querem enxergar ou fingem não enxergar, as pessoas comprovadamente cegas veem o mundo de uma maneira totalmente diferentes daquelas que “veem” ou que fingem que veem; nosso mundo ainda possui uma divida muito grande para com as pessoas com deficiência visual, elas importam.
Poderiam ser citados muitos nomes de mulheres cegas que são exemplos em muitas áreas de atuação, resumimos todas ela em Dorina Nowill, que por onde passou foi luz para muitas pessoas, ajudou homens e mulheres, crianças e jovens a buscarem o seu espaço, a mostrarem o seu potencial para o mundo, muito provavelmente cada um de nós conhece uma pessoa cega ou já se deparou com uma delas na rua ou qualquer outro lugar, são seres humanos como qualquer outro de nós, pessoas que possuem uma outra maneira de ver, sentir e olhar o mundo. A luta das pessoas com deficiência visual são muitas, especialmente quando nos chegam noticias daqui e dali querendo acabar com o direito dessas pessoas; nosso mundo idolatra os mais fortes, somos instigados a ver somente aquilo que enche nossos olhos de prazer, voracidade, aquilo que é mais rápido e rentável.
Bioeticamente, olhar para Dorina Nowill é algo de grande relevância, especialmente pelo momento que vivemos, quando uma parcela imensa da humanidade está cansada, está com o olhar vago sem nenhum ponto fixo a frente, por outras palavras, estamos cegos sem saber e pior ainda, sendo guiados por outros tantos cegos pelo poder, pela ganância desenfreada, um mundo enlouquecido pela cupidez sem fim, o atual estilo de vida proporciona essa cegueira fraudulenta e criminosa, que no fim das contas transforma a vida em algo totalmente irrelevante e inexpressiva. Dorina Nowill não se curvou ante a miséria do seu tempo, o que as pessoas da sua época não conseguiam entender ou fingiam não compreender, ela tomou como um caminho a ser seguido, uma estrada que valia a pena percorrer; essa grande mulher é para nós inspiradora, um talento que merece ser lembrado.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com




