No último dia nove de abril, celebrou-se o quarto centenário da morte do filósofo Francis Bacon, um dos pioneiros do atual modelo de ciência que temos espalhado pelo mundo afora, enquanto vivo desempenhou diversas funções, dentre as principais sendo a de político, filósofo e também cientista. Não nos interessa aqui a sua vida política, aliás vida essa conturbada e envolta em altos e baixos, o que contribuiu para denegrir a sua imagem, Bacon, como é sabido teve uma esmerada educação, tanto aquela da vida civil, quanto aquela voltada para a religião; não a toa, vamos perceber em seus escritos uma referência constante a Bíblia, tendo esse conjunto de livros muitos elementos que serviram de base para os seus estudos e experimentos; Bacon é produto do seu tempo, era marcada por reviravoltas em todos os campos, o mundo não seria mais o mesmo após Francis Bacon.
Francis Bacon, encantou-se desde pequeno pela ciência, um leitor voraz, procurou entender a ciência dos antigos, como ela fora concebida, quais os seus elementos principais, suas contribuições e o que essa ciência estaria fazendo de bom na sua época; não demorou muito para que ele levantasse a voz contra os antigos, lançou um ataque sem precedentes para com aquela ciência, a qual classificou como monótona, ultrapassada, sem perspectivas de crescimento, tendo essa alcançado um grau de estagnação jamais visto até então. Bacon argumenta que o mundo não pode mais continuar se pautando pelos antigos donos do saber, a figura mais atacada por ele é Aristóteles, o qual teria preservado o conhecimento numa redoma e que poucos estavam autorizados a ter acesso a ele; Bacon procura por todos os meios desfigurar o passado, um tempo segundo ele, sem brilho e luz.
Restaurar é então a palavra de ordem de Francis Bacon e o homem é quem está no centro do seu pensamento para fazer essa restauração em todos os níveis, para Bacon seria apenas e tão somente o homem novo, pensado por ele aquele capaz de produzir, redefinir e reconstruir coisas novas e também “acessíveis” para o restante das pessoas, isso se encontra particularmente em seu “Novum Organum”, sua obra seminal, aí a ciência estaria num pedestal acima de tudo e de todos, seria ela a nova mestra em tudo fazer e tudo resolver, tanto é verdade que uma de suas falas mais repetidas até hoje é que “saber é poder”, poder hoje bem sabemos quase sempre usado de maneira desrespeitosa, sem escrúpulo algum e o saber continuando nas mãos de poucos, então já se nota uma falha enorme nesse discurso; saber e poder hoje, são armas perigosas, muito mal distribuídos.
Juntamente no centro com o homem, está a natureza em geral, o maior laboratório a céu aberto para Francis Bacon realizar a sua experiência, é na natureza que está a salvação, é nela que encontraríamos todos os elementos necessários para se ter vida digna sobre a terra, sendo assim o homem estaria autorizado segundo Bacon a exercer esse domínio em escala global, explorar as partes mais recônditas e ínfimas de todos os seres, dissecá-los ao máximo, intervir de modo profundo na matéria, conhecer suas causas, seu funcionamento e o porque da sua existência; interpretar esse mundo natural na visão baconiana era de fundamental importância, curioso na vida de Bacon é saber que ele adorava estudar o fogo e o calor, duas instâncias que propiciavam a transformação do que quer que fosse, por outras palavras o fogo aqui simboliza muito a ciência, o saber , o fazer.
Bioeticamente, Francis Bacon, alterou profundamente a visão de mundo nesses últimos quatro séculos, os cientistas foram elevados ao status de deuses, os possíveis salvadores do planeta, mas eis que isso com o passar do tempo se revelou falso, o cientista se revela falível, inserido na dúvida, em problemas morais e éticos, na sua grande maioria hoje cooptados para produzirem aquilo que o governo ou lobbys empresarias querem que eles produzam e nem sempre para o bem estar da população. A ciência que Francis Bacon imaginou, tornou-se um poço sem fundo de contradições, gerando em muitos uma dúvida, fazer ciência sem consciência parece ser a tônica dos dias atuais, o resultado vemos bem nos problemas gigantescos que aí estão, Bacon precisaria estar vivo para concluir que a ciência pode sim resolver muitos problemas, porém ela provou que não pode resolver tudo.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com





