Olha as vezes para a janela da prisão.

rosel e anor

Sejamos sincero, o caráter destrutivo humano tem atingido níveis jamais vistos em sua história, há toda uma propaganda para que esse tipo de pessoa esteja entre nós, não há folga durante as vinte e quatro horas do dia, um bombardeio sistemático desse comportamento nos é mostrado e muitas vezes essa mostra é até complacente, por outras palavras, o ruim torna-se bom e o bom é condenado, sendo algo que não presta e não deve ser seguido, temos a sensação que quanto pior estiver a situação, melhor será para aqueles que julgam saberem o que é melhor para a humanidade. Ser destrutivo, acarreta inúmeras consequências para tudo e para todos, não pensemos nas grandes destruições; esse tipo de atividade começa de modo geralmente silencioso, sem alarde, na surdina se preferirmos, ontem e hoje estamos inundados por esse vírus, sabemos muito, temos exemplos ao redor.

Vamos traduzir destrutividade por outra palavra, qual seja, caráter necrófilo, fazemos isso tomando emprestado e trazendo para o nosso contexto a experiência profunda e sempre atual de Erich Fromm (1900-1980), esse expoente da Escola de Frankfurt, em sua trajetória como filósofo e psicanalista da era “moderna”, detectou diversos comportamentos abusivos, orientações colocadas no ser humano, que quando não alinhadas de modo claro, acabam desembocando em doenças graves e altamente contagiosas na perpetuação do tempo. Essa doença leva qualquer um de nós para um estágio de alienação, algo que nos torna incapazes de ver a realidade como ela é e a necrofilia quando presente num ambiente propenso a sua disseminação, leva o caos e a desorientação, lança ideias perturbadoras sobre uns e outros; em quase todos os casos, necrofilia e hybris caminham de mãos dadas.

O caráter necrófilo por onde passa espalha a morte, comum em nossos dias é a imagem viva da morte, ou seja, a guerra, o produto mais abjeto, desprezível e desumano produzido pela mente necrófila, as guerras deliberadamente produzidas por pessoas totalmente despreocupadas com o bem comum, exceto com o seu próprio, os novos necrófilos abalam de modo cruel a vida humana e extra-humana, cada um a seu modo é obrigado a se acomodar num mundo insuportável, onde bombas, drones e outras parafernálias técnicas ditam a moda da vez, os necrófilos de plantão agem espertamente, ou seja, desviam a atenção para o irrelevante, privatizam seus lucros monstruosos às custas de muitas mortes e socializam as desgraças e prejuízos advindos dessa conquista assassina; os necrófilos garantem um futuro promissor, porém nos entregam as mentiras.

Sob os escombros de uma sociedade em frangalhos, é difícil se recompor, é quase impossível querer que alguém se torne produtivo, como quer Fromm pois a necrofilia lança mão de outro artefato poderoso como bem mostra Fromm, por outras palavras, os necrófilos da última hora, fazem um uso exacerbado da alienação, uma pessoa alienada é capaz de fazer coisas absurdas, tais como: afastar-se de si e dos outros, ver o mundo pela ótica do outro, um alienado é incapaz de comover-se com o sofrimento alheio, nada nem ninguém lhe toca, seus sentimentos estão completamente adormecidos pela ingestão maciça de produtos tóxicos que minam suas forças; um ser humano alienado é alguém nada propicio a lutar pelo seu presente, ele quase sempre na maioria das vezes espera do outro uma solução, os necrófilos são os portadores e mensageiros então de um novo macarthismo.

Bioeticamente, ter como modelo a alienação, um modelo destrutivo e desumano, é algo simplesmente impensável, enfrentar a alienação é nadar contra a correnteza, pensar e agir de um modo totalmente novo é algo perturbador para os novos donos do poder, não sejamos tolos nem hipócritas ao ponto de pensarmos que as barbáries de ontem acabaram, elas apenas mudaram as suas formas de atuação, as suas táticas e mudaram também de endereço, ontem as barbáries só a muito custo foram descobertas por nós, hoje elas estão bem diante dos nossos olhos, todos sabendo, todos vendo e todos assistindo em seus confortáveis camarotes, a necrofilia quando não detectada a tempo entra em nossas vidas, nos acomoda, nos torna lentos, sonâmbulos, imperturbáveis, reprimir a nossa liberdade e pensamento, é esquecermos para que viemos a este mundo, é esquecer quem somos.    

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com