Por Luiz Francisco Guil
Perdoe o atraso, Porto Alegre, no redigir este texto em honra à sua passagem. Você sabe, como ninguém, o quanto a vida é exigente, e nem sempre a chuva cai no exato instante que o lavrador chama os céus. Mas eu não poderia — pelo gosto e alegria com que você e Reni me recebiam em sua casa, e nos tramávamos naqueles anos da Revolta, e bem antes deles, e também depois deles, quando me inteirava de sua índole justiceira e das iniciativas por ela suscitadas — deixar de expor o que representou sua existência em minha própria vida.
O que não esqueço, mais que seus relatos de paixão pela humanidade, pela vida e pela justiça, é aquele seu Renault verde-oliva, com que me levava pela cidade em busca de entrevistados para nosso livro, “Pato Branco”. Como bom contador de causos, você prestava mais atenção à sua própria narrativa que ao trânsito. Sentava-se meio de lado, encostado à porta do veículo, enquanto me falava do instante em que foram você e mais uns três recepcionar um capitão no aeroporto. E a maneira farwest como preparou-se, diante dele, para sacar o revólver.
E no volante do mesmo Renault, quando via uma lombada, ao invés de frenar, jogava o carro um pouco para o lado, passando por ela meio de atravessado para suavizar o solavanco! Porque não havia segundos a perder, na pressa de me contar mais uma de suas peripécias! Como naquela vez em que você e Reni foram alvejadas por uma cartucheira — e meia dúzia de chumbos passaram a compor a anatomia do seu rosto — quando a ousadia colocou-o na linha de frente nas denúncias contra o esquema PC Farias / Collor de Mello lá no Acre. Confesso que quase duvidei, antes que me mostrasse a matéria e sua fotografia na Revista Veja (edição de 10 de junho de 1992).
Porto Alegre denuncia esquema PC Farias / Collor de Mello no Acre. Revista Veja, junho de 1992.
Ah, Porto Alegre, se o mundo soubesse de toda aquela energia, que parece não ter arrefecido sequer um microjoule desde aqueles bravos dias de 1957!
Mais que tudo, do que conversamos, do que guardei e até mesmo publiquei, destaco a natureza imorredoura da consciência heroica, que estendeu-se pelos anos e manteve-o uns pés acima do chão, incólume, sereno e sempre seguro de ter feito a coisa certa, quando a situação exigiu. Prometeu vingança à esposa do vereador assassinado, uniu-se ao intrépido Ivo Tomazoni na transmissão das injustiças fundiárias, tomou a delegacia e saiu pelos matos caçando jagunços. Pergunte-se a um desses faladores valentes que bradam pelos quatro cantos da Internet, qual deles demonstraria essa força, esse caráter, essa ousadia e essa coragem!
Por tudo isso, meu amigo, não que seja do meu costume, mas porque revivi a história na narrativa viva de sua boca, deixe-me, ao menos hoje, chamá-lo de Herói. Porque não sei com que outra lhe designaria.
Em nossa última conversa, quando versamos sobre a possibilidade da produção do Filme da Revolta, e considerando seu estado de saúde já fragilizado, você me disse, “acho que não verei esse filme”. Deixei sua casa naquela tarde com um peso no coração. Mas quero lhe dizer que ainda estamos na luta, em parceria com o Augustinho Zucchi e o cineasta Rubens Gennaro, e continuamos buscando os recursos que nos possibilitem essa realização. Porque o mundo precisa conhecer, mais que a bravura daquele povo, que não dobrou-se às imposições violentas das Colonizadoras, a postura e as atitudes de um jovem vendedor de rádios, que das pedras tirou a água que fez novamente fluir no Sudoeste os rios da liberdade.
Abraços, meu querido amigo! Finalizo por aqui, porque meus olhos já estão coçando.
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