Em cidades com até 100 mil habitantes, como Pato Branco, a arborização urbana deixou de ser apenas uma questão estética. Pesquisadores de universidades brasileiras e instituições internacionais mostram que as árvores funcionam como um verdadeiro sistema de regulação térmica, controle de umidade relativa do ar e combate às chamadas ilhas de calor. O tema ganha ainda mais urgência com o avanço das mudanças climáticas e o crescimento urbano acelerado.
O que a ciência diz sobre árvores e temperatura nas cidades
Pesquisadores do Instituto de Ciências Ambientais da Universidade Autônoma de Barcelona mediram, durante o verão, a diferença de temperatura entre ruas com alta e baixa densidade de árvores. Os resultados mostraram que ruas com menos árvores registraram temperaturas até 2,7°C mais altas ao nível dos pedestres. O principal mecanismo de resfriamento identificado foi o sombreamento das superfícies de asfalto e concreto, materiais com alta capacidade de reter calor, combinado com a transpiração das próprias árvores.
No Brasil, um estudo publicado na Revista Brasileira de Climatologia analisou os efeitos da arborização sobre a temperatura e a umidade relativa do ar em diferentes tipos de edificações. Os pesquisadores constataram que, em áreas com cobertura arbórea, a temperatura era consistentemente menor e a umidade do ar era sempre maior do que em áreas sem vegetação. Consequentemente, as árvores favorecem temperaturas menos elevadas e maiores níveis de umidade, criando um ambiente mais adequado para a população.
Evapotranspiração: o mecanismo invisível de resfriamento
Além do sombreamento, as árvores contribuem para o resfriamento urbano por meio do processo de evapotranspiração. Neste sentido, o plantio de vegetação nas vias urbanas ajuda no processo de evapotranspiração, aumentando a umidade relativa do ar, reduzindo a poluição e gerando sensação de conforto aos usuários do ambiente, conforme apontam pesquisadores que estudam estratégias de mitigação das ilhas de calor em centros urbanos.
Por outro lado, um estudo realizado em Ituverava, no interior de São Paulo, confirmou que os pontos com maior cobertura arbórea foram justamente os que apresentaram menores temperaturas e maiores valores de umidade relativa. Além disso, uma pesquisa em Natal, no Rio Grande do Norte, mostrou que áreas sombreadas por árvores registraram temperatura fisiológica equivalente até 3°C inferior à de vias sem cobertura vegetal.
Ilhas de calor: o risco que atinge cidades de todos os tamanhos
O fenômeno das ilhas de calor não se restringe às metrópoles. Estudos apontam que cidades de médio e pequeno porte também sofrem com o aquecimento localizado provocado pela expansão de superfícies impermeáveis, como asfalto, concreto e telhas. Segundo pesquisadores da Universidade Federal do ABC, as ilhas de calor afetam diretamente o conforto térmico das pessoas nos espaços urbanos, aumentam o consumo de energia para resfriamento e reduzem a qualidade do ar.
Além disso, estudos mostram que áreas urbanas com menos de 30% de vegetação com cobertura do solo experimentam um aumento crescente de temperaturas locais, conforme alerta Julio Pedrassoli, coordenador da Equipe Urbano do MapBiomas e pesquisador da Universidade Federal da Bahia. Consequentemente, a distribuição desigual de árvores pode tornar o cenário ainda mais crítico em bairros periféricos e de menor renda.
Quanto verde uma cidade precisa ter?
A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana recomenda pelo menos 15 metros quadrados de área verde por habitante. No entanto, o MapBiomas apurou que as cidades brasileiras atingem, em média, apenas 13 m² por habitante, e que apenas 6,9% das áreas urbanas do país têm cobertura vegetal. Neste sentido, a distribuição desigual agrava ainda mais o déficit real de árvores nas cidades.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima reconhece a urgência do tema. Por isso, criou o Programa Cidades Verdes Resilientes e prevê, entre as ações iniciadas em 2025, a elaboração do Plano Nacional de Arborização Urbana, conhecido como PlaNAU, com o objetivo de tornar as cidades brasileiras mais verdes e resilientes ao clima.
Pato Branco aposta em arborização para mudar o clima da cidade
Com clima subtropical úmido mesotérmico, verões quentes com temperatura média superior a 22°C e altitude de 760 metros, Pato Branco reúne condições que tornam a arborização planejada ainda mais estratégica.
A cidade, com cerca de 100 mil habitantes e grau de urbanização de 94%, já deu passos nessa direção, mas ainda tem muito a ser feito.
A prefeitura assinou um Termo de Compromisso com o Instituto Água e Terra para o plantio de 10 mil mudas de árvores nativas, no âmbito do programa estadual Paraná Mais Verde, instituído pela Lei nº 20.738/2021.
Além disso, a Secretaria de Meio Ambiente iniciou em abril de 2025 a implantação do Plano Municipal de Arborização Urbana, com ações na Avenida Tupi.
“Nosso foco é garantir um impacto positivo no clima da cidade, promovendo sombreamento e qualidade de vida”, afirmou Vicente Michaliszyn, secretário de Meio Ambiente de Pato Branco, ao anunciar o início das obras.
O plano prevê ainda a reposição de espécies mortas e a substituição gradual de árvores exóticas inadequadas por espécies de maior porte e melhor adaptação local.
O problema das espécies exóticas invasoras
Um levantamento realizado pela Revista Científica ANAP Brasil no bairro Jardim Primavera, em Pato Branco, identificou que 78% das árvores presentes eram de espécies exóticas, sendo que 26% desse total eram invasoras da região fitoecológica local.
Neste sentido, a predominância de espécies inadequadas compromete a biodiversidade e reduz os benefícios climáticos e ecológicos da arborização.
Pesquisadores da Revista da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana alertam que o uso de espécies nativas regionais aumenta a permeabilidade da paisagem às demais espécies da fauna local e contribui diretamente para a conservação biológica regional.
Por outro lado, espécies exóticas invasoras se tornam centros de dispersão que ameaçam os ambientes naturais urbanos e rurais ao redor.
Quais espécies são recomendadas para cidades como Pato Branco
Por estar inserida na região fitoecológica da Floresta com Araucária, também conhecida como Floresta Ombrófila Mista, Pato Branco tem à sua disposição um repertório rico de espécies nativas bem adaptadas ao clima subtropical da região.
A escolha correta da espécie é fundamental para garantir os benefícios esperados sem criar conflitos com a infraestrutura urbana.
O plano municipal já prevê o uso de espécies como o Jacarandá-mimoso, de grande porte e raízes profundas que não danificam calçadas, e a Quaresmeira, que não apresenta raízes agressivas, tem fácil manutenção e crescimento lento, podendo ser plantada em calçadas com fiação elétrica.
A Extremosa também aparece como opção para áreas com fiação, por ter copa menor e ser de fácil poda.
Espécies nativas da Floresta com Araucária para vias e praças
Entre as espécies nativas mais recomendadas para a região de Pato Branco estão a Aroeira-vermelha, de médio porte, crescimento rápido e alto valor ecológico, indicada tanto para arborização viária quanto para restauração de áreas degradadas.
O Ipê-amarelo é outra opção consolidada: suas raízes profundas não danificam as calçadas, exige poucos cuidados e oferece floração exuberante. O Manacá é indicado para locais com espaço menor, pois atinge até seis metros de altura e apresenta flores simultâneas em três cores.
Além disso, a Araucária, símbolo do Paraná, é recomendada para parques e áreas amplas, já que pode atingir de 20 a 50 metros de altura.
Para canteiros e locais sob fiação elétrica, espécies de menor porte, como o Pessegueiro-do-mato e o Ingá-feijão, ambas nativas da Mata Atlântica, surgem como alternativas viáveis e ecologicamente adequadas para a região.
Consequentemente, a diversidade de espécies também reduz o risco de perdas por pragas e doenças, um problema frequente em cidades com arborização homogênea.





