Já não é surpresa para ninguém, quando termina o Fórum Econômico de Davos, então é que ficamos sabendo por alto que o mesmo aconteceu, nesse início de 2026, não foi nada diferente, uma minúscula parcela de líderes governamentais, empresários, altos escalões da indústria, banqueiros e outros ilustres desconhecidos, mas de poderio financeiro enorme tentaram discutir o indiscutível, tentaram mais uma vez em vão aprovar algo, que no fundo eles querem que continue do jeito que está, mais uma vez os panos quentes, as enormes cortinas de fumaça, prevaleceram sobre as necessidades mais básicas que o mundo inteiro precisa resolver. Resultado final: Tudo continua como está, para Davos, o quanto pior melhor; o mundo teórico de Davos, é de uma magnitude ímpar, um contato zero com a realidade nua e crua, Davos não é para um simplório amador ver.
Davos é um daqueles lugares que a maioria esmagadora de nós nunca chegará a conhecer, quando muito uma fotografia, um vídeo qualquer desse lugar enigmático, sombrio, perdido no meio do nada nós vamos ver, os mais desavisados e esses formam um exército gigantesco ficarão até encantados com ele, encherão a boca para repetir a exaustão de que ali estão pessoas comprometidas com o bem comum, com o presente e o futuro da humanidade, mas bem sabemos que entra ano, sai ano e Davos continua na sua mesmice de sempre, querem nos fazer crer em velhas fórmulas que não deram certo até agora e nunca vão dar em nada, a realidade é muito mais forte do que o pensamento pobre e rasteiro dos participantes lá reunidos; Davos é um museu a céu aberto de antiguidades imprestáveis, Davos nos revela o fracasso retumbante de todo o sistema financeiro mundial.
Davos poderia sim, caso tivesse responsabilidade, seriedade e principalmente credibilidade, em acabar com as mazelas que assolam o planeta, a pobreza, as guerras, a devastação ambiental e climática, o saneamento básico, as massivas emigrações forçadas, o desequilíbrio financeiro monstruoso, a lavagem de dinheiro sem fim que vemos em tantos setores, as quebradeiras programadas de bancos e demais instituições financeiras, mas nem de perto Davos toca nesses e outros assuntos derivados dos já citados anteriormente. As tempestades não enfrentadas por esses “senhores” do mundo são deixadas como sempre para a grande maioria resolver, os descartáveis que enfrentem do seu jeito essa policrise planetária, Davos fala daquilo que não conhece, Davos fala demais porque já não tem absolutamente nada para dizer, Davos tornou-se apenas uma sombra do mundo real.
Davos não é a solução, ele apenas nos mostra o abismo em que fomos colocados por pessoas e organizações irresponsáveis, Davos só serve para aqueles que estão lá e que nada entendem do que é passar fome, de estar desempregado, de fugir do seu país de origem e tentar a sorte noutro lugar, os senhores de Davos não sabem o que é morar ao relento, fugir de guerras que eles mesmos provocaram, por outras palavras, Davos é sim para aqueles que estão sentados confortavelmente em suas suntuosas salas, regadas a muito cafezinhos, ar condicionado em abundância, comidas exóticas e conversas intermináveis para os ingleses verem e aplaudirem, sem nada entenderem. Davos, a sua infinita hipocrisia, a sua majestosa rede de ironias e desfaçatez, os seus olhos marejados de lágrimas de crocodilos, chega até a ser fascinante, mas tudo isso esconde uma tragédia.
Bioeticamente, Davos é algo que nos remete ao total descrédito para com aqueles que estão empenhados em nada fazer, com aqueles que volta e meia aparecem entre nós como salvadores da pátria, daqueles que tem solução para tudo; mas Davos tem o seu lado bom, ele nos aguça o senso crítico, ele não deixa morrer em nós a arte de pensar com seriedade sobre aquilo que faz mal ao mundo e as pessoas, Davos revela também a realidade comum de milhões de seres humanos, a profunda desconexão entre as palavras e as ações, o poderio da técnica, exaltado por Davos é outro ponto emblemático, mal sabem eles que o que pode nos destruir é o nosso sucesso e não os nossos fracassos, Davos lida de modo superficialmente profundo com a fragmentação, com a erosão da verdade e a busca por algo inatingível, aquilo que entre outras coisas é uma incongruência única e vital.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com


