Deputado federal completa três anos no Legislativo e fala de projetos e da construção de um centro democrático no País, longe da polarização
O deputado federal Beto Richa (PSDB-PR) conhece o Paraná como poucos. Foi deputado estadual, duas vezes prefeito de Curitiba e governador por dois mandatos, quando esteve em todos os municípios do estado. Hoje, vive uma nova etapa da carreira política na Câmara dos Deputados.
Prestes a completar três anos como deputado federal, Richa faz um balanço da experiência no Legislativo, fala sobre os desafios de atuar em um Parlamento marcado pela polarização e avalia os cenários político e econômico. Na entrevista a seguir, Richa comenta ainda a defesa das Apaes, os 27 projetos apresentados na Câmara, a construção de um centro democrático e suas expectativas para o Brasil e o Paraná em 2026.
Após uma longa trajetória no Executivo — com dois mandatos à frente da Prefeitura de Curitiba e dois no Governo do Estado — como o senhor avalia seus três anos no Legislativo? O que mais muda, na prática, na forma de atuar?
Olha, tem sido uma experiência muito gratificante. Eu sempre trabalhei com diálogo, ouvindo as pessoas, tanto na prefeitura como no Governo do Estado, e levei exatamente isso pra Brasília. Outra coisa que eu mantive foi andar o Paraná inteiro. Fui o primeiro governador a ir a todos os 399 municípios do Paraná e, agora como deputado, sigo no trecho, conversando com prefeitos, lideranças, empresários, trabalhadores, entendendo os problemas de perto. Se você for a meu gabinete em Brasília, em qualquer dia da semana, vai encontrar prefeitos, vereadores, lideranças locais. Tenho as portas abertas para os municípios e dá pra demonstrar isso com números: são mais de R$ 100 milhões em recursos para cidades de todas as regiões, metade disso para a saúde, que é a área que mais demanda, mas também você vai encontrar muita obra, pavimentação, ampliação e reforma de escolas, praças, enfim, muito trabalho nosso no Paraná.
É também dessa conversa olho no olho, em Brasília, em Curitiba e nas viagens que faço pelo estado, lá onde a coisa acontece, que surgiram os 27 projetos de lei que eu apresentei até agora. São propostas bem práticas, para os problemas reais das pessoas, voltadas pra geração de emprego e renda, defesa do consumidor, proteção de quem mais precisa. No Legislativo, às vezes, o ritmo é diferente do que a gente gostaria, mas eu estou todo dia insistindo, cobrando, batendo na porta de quem precisa bater, pra acelerar os processos e fazer com que todos os meus projetos virem lei.
A economia enfrentou um ano com juros elevados e impactos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Como presidente da Comissão de Indústria e Comércio da Câmara, de que maneira esse cenário influenciou a agenda e as decisões da comissão?
Influenciou bastante. As tarifas impostas pelos Estados Unidos pegaram em cheio vários setores da nossa indústria. Na Comissão, focamos muito em diálogo e em buscar soluções práticas pra proteger as empresas e, principalmente, os empregos. No Paraná, o setor madeireiro foi bastante afetado. Foi duro de ver, por exemplo, a unidade da BrasPine, em Telêmaco Borba, totalmente parada, máquinas desligadas, poucas pessoas na fábrica. Fizemos uma grande reunião com empresários do setor na região. E também acompanhei um grupo de prefeitos de municípios afetados para uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que é ministro de Indústria e Comércio, em busca de soluções. Em outubro, aprovamos na comissão um projeto, que eu relatei, que cria uma linha de crédito emergencial em dólar para auxiliar empresas exportadoras brasileiras afetadas por tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos.
Tratamos de muitos temas. Realizamos 11 audiências públicas e um grande seminário, reunindo governo, empresários, especialistas, representantes de setores produtivos e pesquisadores. Discutimos temas fundamentais, como a atualização do Simples Nacional, as oportunidades nas cadeias de petróleo, gás e energias renováveis, e os desafios da indústria brasileira, sempre com um olhar pra sustentabilidade.
E aprovamos projetos importantes pra melhorar o ambiente de negócios, facilitar o acesso ao crédito, fortalecer as cadeias produtivas e estimular o empreendedorismo. A ideia foi essa mesmo, ouvir muito, dialogar bastante e transformar esse debate em medidas concretas que ajudem a economia a reagir e a gerar mais oportunidades.
O Congresso viveu um período de forte tensão, com votações polarizadas, confrontos entre grupos e até cenas de violência em plenário. Que efeito esse ambiente tem sobre a imagem do Parlamento e sobre a confiança da sociedade na política?
Isso é ruim. Quando o cidadão vê briga, gritaria, agressão, ele se afasta da política. A imagem que fica é a de que o Parlamento não está preocupado em resolver os problemas reais das pessoas. A divergência faz parte da democracia, é saudável, mas ela precisa ser feita com respeito, com argumento, com diálogo. Quando vira radicalismo, perde todo mundo. O Brasil precisa de soluções, não de espetáculo. Esse radicalismo divide o Brasil, divide famílias, põe brasileiro contra brasileiro e não leva a lugar nenhum. Precisamos é de diálogo, de equilíbrio, de paz.
Diante desse cenário de radicalização, o senhor tem defendido a construção de um campo político mais ao centro, como alternativa à polarização. Esse movimento tem avançado? Que resultados concretos já é possível apontar?
Tem avançado, sim, ainda que não na velocidade ideal. Existe um grupo cada vez maior de deputados e senadores, lideranças da sociedade, que entende que o país não aguenta mais essa guerra permanente. A população quer emprego, renda, segurança, educação, saúde funcionando, e isso não tem ideologia. Esse campo mais ao centro vem trabalhando para construir consensos importantes, aprovar projetos relevantes e destravar pautas que estavam travadas justamente por causa da polarização. Não é fácil, mas é um caminho sem volta, porque o radicalismo cansa e afasta.

O senhor apresentou um projeto para incluir as Apaes e outras entidades de atendimento a pessoas com deficiência no Sistema Único da Assistência Social (SUAS). Ao longo do ano, essas instituições estiveram sob ameaça de uma ADI no Supremo e de um decreto do governo federal. Em que estágio está essa mobilização em defesa das Apaes?
Sim, houve uma grande mobilização no Paraná, especialmente, contra uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no STF para suspender duas leis pioneiras que aprovamos no Paraná quando fui governador. A primeira é o Estatuto da Pessoa Com Deficiência do Paraná, que foi pioneiro no Brasil; e a segunda é a lei Todos Iguais pela Educação, que assinei em 2013, que incluiu as Apaes na rede estadual de educação. Não podemos permitir que essas leis sejam alteradas. Depois, tivemos um decreto do governo federal, um decreto confuso, que pretendia impor um modelo único, tirando das famílias o direito de escolher o melhor para seus filhos e colocando em risco a sobrevivência das Apaes. Cheguei a apresentar projeto de lei para barrar esse decreto, mas, depois de muito protesto e mobilização, o governo decidiu recolher o decreto para revisão.
A mobilização é muito forte, e eu me envolvo pessoalmente porque conheço de perto o trabalho extraordinário das Apaes. São instituições que atendem quem mais precisa, muitas vezes onde o Estado não chega. Há uma grande união de parlamentares, famílias, entidades e da sociedade. Conseguimos barrar retrocessos importantes, tanto no diálogo com o governo como na articulação jurídica e política, mas não podemos descansar nessa luta.
Projeto de Beto Richa reconhece Apaes na rede do SUAS
Outro projeto que gerou grande repercussão é o que amplia o limite de faturamento anual dos microempreendedores individuais, os MEIs. Há perspectiva real de aprovação dessa proposta?
Ah, sim. Esse é um projeto que eu relatei na Comissão de Indústria e Comércio e que dialoga diretamente com a realidade de milhões de brasileiros. O limite atual, que é de R$ 81 mil, está defasado desde 2018, não acompanha a inflação nem o crescimento dos pequenos negócios. O que acontece hoje? Muita gente acaba ficando na informalidade ou sendo penalizada por crescer. O projeto tem amplo apoio, inclusive de diferentes partidos, e está avançando nas comissões. Claro que depende das urgências da pauta, mas eu estou bastante otimista de que a gente consiga avançar.
Em três anos de mandato, o senhor apresentou mais de 30 projetos de lei. Quais considera os mais relevantes até agora e como está o andamento dessas propostas no Congresso?
Todos os projetos que apresentei são relevantes e dialogam diretamente com as necessidades reais da população. Eles abrangem desde a defesa do consumidor e o fortalecimento dos pequenos e médios empreendedores até áreas essenciais como saúde, moradia e geração de emprego.
Na saúde, por exemplo, apresentei um projeto que permite a suspensão temporária dos planos de saúde, sem perda do vínculo, para pessoas que ficam momentaneamente sem renda. Outro garante mais transparência e dignidade ao cidadão, permitindo o acompanhamento em tempo real da sua posição nas filas do SUS.
Na defesa do consumidor, há uma proposta que exige que extratos e faturas identifiquem claramente o nome fantasia e o CNPJ dos estabelecimentos, evitando confusão e abusos. Entre outras iniciativas que tiveram grande aceitação estão o projeto que permite a dedução, no Imposto de Renda, das despesas médicas de animais adotados; a proposta que proíbe o uso de recursos do Bolsa Família em apostas online; e a prioridade para professores da rede pública de educação básica no acesso ao programa Minha Casa, Minha Vida.
Tenho dedicado atenção especial ao incentivo ao empreendedorismo, como no projeto que dá prioridade a jovens de 18 a 25 anos na abertura do primeiro CNPJ, além de propostas para facilitar o acesso ao crédito e modernizar regras que hoje dificultam o investimento e a geração de empregos.
Muitos desses projetos já estão tramitando bem, mais próximos da votação, enquanto outros seguem em fase de debate. O mais importante é que todos são iniciativas conectadas com a vida real das pessoas e com os desafios do dia a dia da sociedade.
Olhando para 2026, um ano decisivo no calendário político, quais são suas expectativas para o Paraná e para o Brasil? Qual cargo o senhor pretende disputar?
Eu sou muito otimista com o Paraná. É um estado forte, trabalhador, que sempre dá exemplo para o Brasil, em todas as áreas. Espero que a gente consiga construir um ambiente político equilibrado, com foco em resultados e no bem dos paranaenses. Em relação a 2026, meu foco agora é cumprir bem o mandato de deputado, entregar resultados, ajudar o Paraná e o Brasil. Política se constrói com trabalho, e é isso que estou fazendo. Agora, estou mais experiente, mais preparado, conheço bem o Paraná, por onde ando há memória do meu trabalho. Se for chamado, estou pronto para qualquer desafio.





