O que fazer com os bezerros das vacas de leite?

Regis Luis Missio e André Luís Finkler da Silveira

O nascimento de bezerros numa propriedade leiteira é considerado um problema, pois demandam leite (4 L/dia), ração e feno nos seus primeiros 60 dias de vida. A alimentação mensal de dois bezerros com até 60 dias de idade representa meio salário mínimo que o produtor deixa de receber com a venda do leite. Em função disso, muitos produtores optam pelo sacrifício destes animais ao nascer. Essa opção, já abolida em países de pecuária leiteira mais desenvolvida, além de ser contestável do ponto de vista ético e de bem-estar animal, gera marketing negativo para a cadeia do leite, e também se ampara no mito que os machos leiteiros não apresentam potencial para produção de carne ou que esta seria de pior qualidade. Soma-se a isso o menor preço pago pelos frigoríficos, a desorganização da cadeia produtiva para produção desta categoria e a falta de mão de obra e estrutura das propriedades.

Ao mesmo tempo em que esta prática é executada em grande parte das propriedades leiteiras, o estado do Paraná têm um déficit estimado de 400 mil bezerros ao ano para produção de carne. O estado tem um potencial de produção de mais de 500 mil bezerros leiteiros ao ano, que poderiam suprir esta deficiência com sobras. Nos países da União Europeia e América do Norte os machos leiteiros são utilizados para produção de vitelos de carne branca ou rósea, o que representa abater os animais com até seis meses de idade. O brasileiro prefere carne com coloração vermelho brilhante, característica de animais com 12 a 18 meses de idade, normalmente. Nesta faixa de idade, independente da raça, a carne apresenta elevada maciez e adequado conteúdo de gordura.

De fato, devido ao melhoramento genético para produção de leite, as carcaças destes animais apresentam menor rendimento cárneo, mas podem ser uma alternativa de produção de carne viável. A qualidade da carne, medida em painel de degustação às cegas com carne de machos da raça Jersey (proveniente de experimento realizado em conjunto entre a UTFPR e o IDR Paraná) e carne Premium adquirida em açougues de Pato Branco, demonstrou que a carne de machos leiteiros foi de qualidade similar à carne Premium e algumas características, como a maciez, foram até melhores, desmitificando que esta carne é de pior qualidade.

Experimentos realizados pela UTFPR e IDR-PR demonstram que machos leiteiros apresentam grande potencial para produção de carne desde que se adotem boas práticas produtivas. Em confinamento com dieta de alto grão, novilhos Jersey necessitaram 222 dias para serem abatidos com 390 kg (195 kg de carcaça) aos 12 meses de idade e geraram um lucro operacional de R$ 590,00 por animal aos custos atualizados de hoje, mesmo vendendo estes animais por preço de vaca (pago pelos frigoríficos devido o rendimento de carcaça). Um benefício da utilização destes animais é o menor valor de aquisição (R$935/animal), já que o bezerro de corte custa hoje R$3.100 (R$13,8/kg de peso vivo).

Uma alternativa mais barata é a utilização de pastagens. Em outro experimento, os machos Jersey foram suplementados com 1% do peso vivo por 247 dias em pastagens (capim aruana no verão e aveia + azevém no inverno) e abatidos com 350 kg (159 kg de carcaça fria) aos 16 meses de idade. Foi possível produzir 10 novilhos/ha. A produtividade (2.383 kg/ha/ano) foi 1.428% superior à média da bovinocultura de corte nacional (168 kg/ha/ano). O lucro operacional foi de R$10.454/ha, o que equivale à produção de 67 sacas de soja/ha. O custo com insumos (sementes e adubação) da pastagem foi semelhante à implantação de uma lavoura de milho. O segredo não é a raça do boi, mas o manejo de pastagens (adubação, altura de pastejo, espécies/cultivares do pasto).

Acredita-se que com adoção de tecnologias como uso de sucedâneos, nutrição de precisão e melhorias nos cruzamentos para produção de carne, pode-se incrementar os lucros desta atividade, resolvendo o problema do sacrifício destes animais ao nascer.

A UTFPR/Pato Branco aceita doações de bezerros recém-nascidos que receberam colostro para pesquisas, entre em contato!

Regis Luis Missio, professor, doutor, curso de Agronomia da UTFPR/Pato Branco e André Luís Finkler da Silveira, pesquisador, doutor, IDR-PR/Pato Branco