Paulo Argollo

Antes de começar a escrever para este espaço, já tenho por hábito dar uma conferida nos acontecimentos dos dias do fim de semana em que o texto será publicado. Vira e mexe aparece alguma coisa interessante e eu mudo o enfoque do texto para contar um evento histórico que ocorreu em determinado dia, ou sobre alguma personalidade que completaria tantos anos. Mesmo sabendo que o foco este ano seria no Dia dos Pais, fui dar uma conferida. E não é que, coincidentemente, achei um antepassado meu fazendo aniversário? O Visconde de Itaparica, Alexandre Gomes de Argolo Ferrão Filho nasceu no dia 8 de agosto de 1821! Ele fez carreira como militar durante o reinado de Dom Pedro II, de quem recebeu o título de Visconde por serviços prestados à pátria.

Argollo Ferrão é minha família por parte de pai. Já vi a genealogia da família um tempo atrás. É de origem espanhola e veio para o Brasil no início da colonização, com Tomé de Souza e se instalou em Salvador desde então. Tanto que na Bahia, Argolo é um sobrenome bem comum, boa parte deles não são diretamente ligados à minha família. Uma das maneiras de saber isso é pela grafia do nome. Normalmente, Argolo, com um “l” só não tem relação direta com a minha família, por exemplo. Um alívio, aliás, já que um tempo atrás rolou um escândalo de corrupção por parte de um tal deputado Argolo pela Bahia. Entretanto, no caso do Visconde de Itaparica, provavelmente ele tem alguma ligação mais próxima comigo, porque, apesar de ser Argolo com um “l” só, é Argolo Ferrão. Enfim.

Fui atrás de saber quem foi esse tal Alexandre Gomes de Argolo Ferrão Filho. Não me impressionou muito, confesso. Como militar, sempre cumpriu ordens, mas esteve envolvido em dois momentos importantes da nossa história. Esteve entre os soldados que reprimiram a famosa Balaiada no Maranhão em 1840. Anos depois, já como major, comandou um batalhão do exército na vergonhosa Guerra do Paraguai. A ele é atribuída uma célebre frase dita para o famoso Duque de Caxias, seu superior. O Duque ordenou que o batalhão do Argolo Ferrão construísse a estrada do Grão-Chaco, que permitiria as forças brasileiras ingressar na famosa marcha de flanco através do chaco paraguaio. Dizem que antes da construção da passagem num terreno tão desfavorável, Caxias perguntou ao major se ele achava possível executar a missão. O Visconde respondeu de pronto: “Marechal! Se for possível, está feita! Se for impossível, vamos fazê-la!”. Eita baiano arretado! Alexandre Gomes de Argolo Ferrão Filho foi gravemente ferido na lendária batalha de Itororó, deixou o Paraguai em 1869 e acabou morrendo no dia 23 de junho de 1870 em decorrência do ferimento em batalha.

Achei essa história toda muito interessante, mas confesso que não me enche de orgulho. Ainda que somente estivesse seguindo ordens, reprimiu uma revolta legítima, e muito sangrenta, como foi a Balaiada e fez parte do massacre cruel dos Paraguaios naquela guerra desnecessária. É ótimo ver que minha família evoluiu de lá pra cá, inclusive abandonando as armas e levando uma vida civil. Mas essa história da construção da estrada do Grão-Chaco paraguaio me lembrou uma história deliciosa que meu pai sempre conta. Meu avô, pai de meu pai, foi prefeito da cidade de Marília, interior de São Paulo, nos anos 1950, cidade onde eu moro, aliás. Na época que meu avô era prefeito, a cidade estava em pleno crescimento. A prefeitura era responsável por fazer a calçada de uma rua que tinha sido aberta, e um cidadão chegou pro meu avô e disse que os pedreiros responsáveis pela obra estavam fazendo corpo mole, e que iria demorar muito pra ficar pronta. Meu avô, que era engenheiro civil, chegou logo cedo na dita obra com uma cadeira de praia e um jornal embaixo do braço. Sentou e ficou lendo jornal. Os pedreiros, vendo o prefeito ali, trabalharam sem parar. Uma hora depois ele se levantou guardou o jornal, pegou uma trena e mediu a quantidade de calçamento feita naquele período. Fez umas contas e disse aos pedreiros. “Em uma hora vocês fizeram x metros. A rua tem y, portanto, contando intervalo para almoço e etc, essa calçada deve estar concluída até amanhã tal hora. Se não estiver pronta, vocês vão receber menos tantos cruzeiros por hora a mais.” Virou as costas e foi embora.

Hoje eu trabalho com o meu pai numa empresa justamente de construção. É muito bom olhar pra trás e ver que, literalmente, minha família vem construindo caminhos. É o que eu faço, e aprendo muito, hoje em dia com o meu pai. Olhar para o passado é ótimo para reforçar suas atitudes no presente e poder realizar mais no futuro.

Feliz Dia dos Pais.

HOJE EU RECOMENDO
Filme: I Am Sam
Direção: Jessie Nelson
Ano de lançamento: 2001
Um dos melhores filmes sobre paternidade já feitos, atuação estarrecedora de Sean Penn, Michelle Pfeiffer e Dakota Fanning. Filmaço!