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Café

*Cezar Daneluz

Hoje mudei a forma de fazer café. Bom, não mudei a forma exatamente. Mudei a quantidade de pó que eu coloco, porque o café tava ficando forte demais e já estava começando a me fazer mal aumentando minha ansiedade e criando alguma úlcera no meu estômago. Não sei se café forte demais pode criar uma úlcera, mas a ansiedade talvez. Devo avisar que se você for fazer alguma mudança na quantidade do café a ser preparado é necessário fazer um estudo minucioso sobre o assunto antes. Falo isso porque meu café ficou uma verdadeira bosta. Virou chafé.

Não sei exatamente se estou reclamando sobre o café ou sobre as decisões que fazemos na vida. Talvez os dois. Talvez essa reflexão seja o grande e misterioso portal que os filósofos nunca foram capazes de atravessar. O que fazemos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o propósito possível para que haja vida? De que serve a vida? Medo. O medo é o que coordena o mundo. Sem medo, sem manipulação. Sem manipulação, sem capitalismo. Sem capitalismo, sem poder.

 Há um pouco de culpa também. A culpa é cristã. Acho que é por esse motivo que sempre fui atraído pelo que há de oculto no mundo. O diabo é somente um ser incompreendido por tentar trazer uma espécie de alegria para todos nós. Satã é o começo travesso que atravessa o avesso traçando o final. É luz que irradia a comunhão das bruxas em noites de Sabbath , é a marotagem da criança, a liberdade do riso frouxo que surge no momento proibido, é o beijo dos amantes na lua cheia. A alegria é diabólica? Sim. Mas é libertadora também. O diabo nos liberta.

 É da brasa de Satã que nasce a morte. A morte nada mais é do que uma nova vida que nos arrebata com força para nosso útero primário e nos conecta novamente ao seio da terra pelo cordão umbilical de lava vulcânica. Quando tudo chegar ao fim não sofreremos no inverno porque na casa de meu pai há muitas moradas e todas foram muito bem ornamentadas com boas intenções. A ciência chama esse lugar de magma, pois bem, eu chamo de inferno.

O problema é que na receita de tudo sempre existe culpa. Deus e o diabo são faces opostas da mesma moeda. Ah, a velha e já tantas vezes descrita dualidade tomando formas novamente: deus e o diabo, o bem e o mal, a luz e as trevas. Você vê? Emaranhei-me em mim feito cobra-cega e agora não consigo mais desfazer os nós. Me tornei culpa quando me tornei prazer. Eu sou o chafé: tenho a premissa de ser forte porque pareço forte, mas não passo de um líquido insosso quando engolido guela abaixo. Por isso do fumo nos lábios: é um disfarce. De trago em trago me torno a fumaça necessária para ofuscar o nojo de beber algo sem gosto.

Onde quero chegar com tudo isso eu já não sei. Há muito não tenho ambição em me tornar alguma coisa, só sigo meus dias como posso. Me jogando no mundo. Lutando? Sim, lutando. Lutando e esperando não morrer no final. Mas todos morremos, não é? A morte é a única certeza de tudo, afinal. Só espero que a minha morte não seja um chafé. Me disseram que no fim do mundo teríamos bestas e pessoas marcadas pelo número da besta. Fomos enganados. O mundo já acabou faz tempo e esqueceram de avisar. Nós somos o nosso próprio fim e é isso. Ponto final. Acabou para nós.

Com alguma fé poderíamos ressuscitar os dinossauros com a ciência. Recriar a divindade. Nos tornarmos deuses de nós mesmos mas sem errar a dose dessa vez. Acabar com tudo e certificar de que não haverá um grão de terra para plantar uma árvore sequer. Dar liberdade aos demônios que carregamos em nossas almas é o nosso destino maior. Nosso Santo Graal. Beba mais um gole dessa vã existência e você verá. A resposta está diante de nossos próprios olhos e somos nós que escolhemos ver ou não.

Mas, por enquanto, sente-se. Eu acabei de passar café e fazer bolinhos. Talvez teremos almôndegas no almoço.

Como fazer o café perfeito

  • Primeiro, escolha um bom café, preferencialmente moído na hora. Caso não seja possível, utilize um café moído, mas não há mais de 15 dias.
  • Café de baixa acidez, 100% arábica é a melhor pedida 
  • Escolha um bom coador. Os de papel são os melhores.
  • Umedeça com água fervente esse coador, só depois coloque o pó de café. 
  • Use uma colher de sopa (das de medida) de pó para cada 100ml de água.
  • Use água filtrada.
  • O ponto ideal da água para passar o café é de 96º. Para isso, deixe a água ferver, desligue e espere 30 segundos.
  • Se você gosta de adoçar, use o açúcar refinado. Ele é o que menos interfere nos aromas. 
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