Pô, Ed Motta, repensa essas ideias aí, bicho!

(Paulo Argollo)

Recentemente viralizou nas redes sociais um corte retirado de uma live feita pelo cantor Ed Motta. No vídeo, Ed Motta se presta a fazer duras críticas a alguns artistas que ele considera ruins. O primeiro deles é Raul Seixas. Ed Motta afirma que o famoso Raulzito era mau caráter por ter sido funcionário de uma gravadora, além de considerá-lo muito ruim musicalmente, dando crédito apenas ao Paulo Coelho por algumas letras que tem alguma qualidade. Depois ainda falou mal de Elvis Presley, que ele também considera fraco musicalmente, muito limitado, que não passa de um cara com uma voz boa. Por fim, ele destila seu desprezo por Johnny Cash, a quem ele não só considera ruim, como afirmou que se o viesse pessoalmente, gostaria de esmurrar-lhe a cara! Bom, eu não só discordo de tudo isso que o Ed Motta falou, como considero ser uma péssima ideia querer brigar com um cara casca grossa como era o Johnny Cash.

Johnny Cash, neste dia 26 de fevereiro, estaria completando 90 anos de idade se estivesse vivo. Com certeza uma das figuras mais extraordinárias, cativantes e controversas da história da música popular do século XX. Nascido John R. Cash na cidade de Kingsland, Arkansas, em 26 de fevereiro de 1932, ele teve uma infância dura, trabalhando desde muito novo em lavouras de algodão com os pais e o irmão mais velho, Jack. Johnny e Jack eram muito próximos, grandes amigos. Na lavoura de algodão eles acompanhavam os negros cantando os spirituals, música negra que depois ficaria conhecida como gospel, e se divertiam quando tinham algum tempo livre pescando no rio e apostado corrida pelos campos.

Numa dessas tardes, em 1944, Johnny insistiu com o irmão para que fossem pescar. Jack estava encarregado de cortar algumas tábuas, pelas quais ganharia algum dinheiro. Johnny deixou o irmão e foi pescar sozinho. E Jack acabou se acidentando na serra, quase foi cortado ao meio, e faleceu. Johnny nunca se perdoou por ter ido pescar naquele dia.

Por fim, já adulto, Johnny Cash passou uma temporada servindo o exército norte-americano na Europa. Quando votou, após ser dispensado, montou um grupo para tocar canções country religiosas. Ao tentar uma chance de ser gravado por Sam Phillips, dono da Sun Records, a legendária gravadora que revelaria Elvis Presley, Johnny Cash e seus amigos levaram um balde de água fria. No fim dos anos 50, o que mais tinha no sul dos Estados Unidos era branquelo caipira cantando country de cunho religioso. Em uma das sessões de estúdio, Sam Phillips provocou Cash a mostrar algo diferente, talvez alguma composição própria. E foi quando tudo mudou.

Desde a morte de seu irmão, Johnny Cash era um cara amargurado, se sentia injustiçado pelo mundo. Quando aprendeu a tocar violão, ainda no exército, na Europa, ele começou a escrever algumas canções simples, mas com letras duras, falando sobre prisão, crimes e abandono, onde tentava botar pra fora a culpa que sentia pela morte do irmão. Quando tocou uma dessas canções no estúdio, Sam Phillips entendeu que estava diante de algo diferente, novo e visceral. Tinha tudo pra dar certo. E deu mesmo. Cash gravou algumas canções e caiu na estrada com os demais artistas da gravadora, que se apresentavam em feiras agropecuárias da região. Junto com Johnny Cash estavam artistas como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, todos ainda ilustres desconhecidos.

O faro para o sucesso de Sam Phillips era infalível. Todos os seus artistas fizeram muito sucesso, alguns chegando ao mais alto posto do estrelato, caso de Elvis, e outros considerados criadores de novos estilos, caso de Jerry Lee Lewis, que reinventou o piano, e de Johnny Cash, que trouxe novas cores, timbres e densidade ao country, que se fundia com o rock n’ roll.

Como a maioria dos artistas geniais, Johnny Cash se entregou abertamente à vida de excessos. Mas, apesar do consumo inequívoco de álcool e drogas, ele continuava compondo sucessos e promovendo shows incendiários. Ainda que tenha feito muitas canções falando de amor, Cash nunca deixou de escrever sobre crimes, prisão e culpa. Aquilo era uma verdade tão enraizada dentro dele, que essas canções ecoavam forte entre criminosos de verdade. Em sua correspondência, ele recebia essencialmente dois tipos de cartas: de fãs mulheres apaixonadas por ele e de criminosos em penitenciárias que ouviam suas músicas e se identificavam. Esses homens escreviam agradecidos, pois se viam compreendidos por um artista famoso. Com seu temperamento forte, Johnny Cash nunca se deu muito bem com os empresários. Foi quando sua gravadora começou a pressioná-lo para cumprir o contrato e gravar um novo disco, que ele teve a ideia de gravar um disco ao vivo com os seus maiores sucessos. A gravadora achou ótima ideia. Até saber onde ele queria fazer a gravação do show.

Nada de arenas, estádios, teatros ou grandes casas de shows. Johnny Cash resolveu fazer shows dentro das principais penitenciárias dos Estados Unidos. Assim saíram dois de seus discos mais antológicos. Live At Folsom Prison, lançado em 1968, e Live At San Quentin, lançado em 1969.

A partir da década de 70, Johnny Cash passou por muita coisa. Chegou a ser preso por porte de drogas, quase morreu por overdose, ficou esquecido pela mídia e evitado pelos empresários de gravadoras, que o viam como um artista brilhante, mas muito problemático. Ficou um período longo sóbrio, estrelou um programa de TV de muito sucesso, tocou com Bob Dylan, nos anos 80 teve uma recaída pesada nas drogas, época em que conheceu Ozzy Osbourne, que era um grande fã, e Cash se converteu ao cristianismo, ficou sóbrio de novo… olha, uma vida inacreditável.

Mas no começo dos anos 90, mesmo estando sóbrio e já tendo escrito e lançado sua autobiografia (um livro excelente, diga-se), sua popularidade andava bem baixa, quase no ostracismo. Foi quando ele conheceu e resolveu trabalhar com o produtor Rick Rubin.

Uma parceria no mínimo inusitada, Rick Rubin era, nos anos 90, um dos produtores mais reverenciados por seu trabalho com grandes nomes do hip hop e do heavy metal. Ele produziu discos de artistas como Beastie Boys, Slayer, Red Hot Chilli Peppers e Run DMC.

Os dois se deram muito bem. Rick Rubin soube captar o que havia de melhor em Johnny Cash, demonstrando mais do que respeito, reverência, pela obra de Cash até ali. E a proposta foi certeira ao colocá-lo para, entre uma e outra composição própria, interpretando a seu estilo músicas de bandas e artistas dos anos 90. Assim, ele gravou canções de gente como Soundgarden, Beck, Depeche Mode e muitos outros.

Vale destacar a irretocável versão da canção Hurt, originalmente da banda Nine Inch Nails, mas que ganhou sua versão definitiva na voz grave e sentida de Johnny Cash.

Por fim, Rick Rubin ajudou a catapultar a carreira de Johnny Cash de volta ao lugar que sempre mereceu estar. Entre 1994 e 2003, Cash gravou cinco discos memoráveis sob a produção de Rubin, inclusive ganhando Grammy e sendo apresentado, e rapidamente reverenciado, por uma geração mais nova, que não o conhecia.

Em 1999 ele precisou encurtar a turnê que fazia por ter tido um colapso. A vida de excessos, a idade que avançava e a diabetes cobravam seu preço.

Johnny Cash, à partir dali, foi ficando cada vez mais debilitado. Em maio de 2003, June Carter, sua esposa, o grande amor de sua vida, faleceu de causas naturais. Ele, que já não vinha bem, entrou em depressão, e seu estado de saúde piorou drasticamente. Em 12 de setembro de 2003, quatro meses depois da morte de June Carter, Johnny Cash morreu por complicações da diabetes.

Neste dia 26 de fevereiro, quando Johnny Cash completaria 90 anos, não só eu, mas muita gente por todo o mundo, celebra a vida e a obra de um dos artistas mais provocadores, honestos, intensos e talentosos do século XX. Um personagem que transcende a música para se tornar um ícone da cultura pop. Afinal, até nessas grandes redes de lojas de roupa você encontra camisetas com aquela foto incrível dele mostrando o dedo do meio. Aliás, que foto, né? Pensa bem: um sujeito com aquela cara de quem está puto, mostrando o dedo do meio, é alguém que você diria que queria esmurrar? Pô, Ed Motta, repensa essas suas ideias aí, bicho! E viva Johnny Cash!

HOJE EU RECOMENDO
Filme: Johnny & June (título original: Walk the Line)
Direção: James Mangold
Ano de lançamento: 2005
Um filme incrível, divertido e empolgante contando toda a história do Johnny Cash! O roteiro é inspirado no livro Man in Black, a autobiografia de Cash e tem como protagonistas Joaquim Phoenix e Reese Whiterspoon atuando primorosamente! Filmaço!

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