O tempo passa por nós tão depressa

Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

Quando todos nós nos deparamos com o nosso eu real não podemos deixar de notar que embora vivendo num mesmo teto, ou seja, na mesma casa comum, nossas origens são bastante diferentes umas das outras, a história verdadeira nem sempre é aquela mestra que nos diz bem quem somos e por diversas vezes ao longo das nossas existências vulneráveis quebramos as nossas mais simples promessas por diversas razões, algumas vezes por sermos ainda incipientes no quesito do que significa uma promessa e muitas outras tantas vezes, as quebramos de modo deliberado, consciente ou pior ainda, porque nessa quebra vemos algum proveito que nos dará vantagem num outro momento. As vidas humanas que habitam a casa comum são assim; só as realidades extra-humanas, mantém suas promessas, no seu aparente conflito diuturno não notamos nenhum tipo de fingimento.

Sobre o fingimento: eis aí uma poderosa arma que acompanha a existência, um poderoso veneno que não se cura com qualquer antídoto, muito poucos não acreditam naquilo pelo qual a grande maioria está passando, a minoria acredita que essa grande parcela humana tem pouca fé ou ambição em seus ideais, que elas sonham pequeno ou não tem as ferramentas adequadas para tornar seu mundo real. O paradoxo da atualidade é assim apavorante no sentido de que embora todos queiram um mundo normal para todos, o normal acaba assumindo uma roupagem quase inatingível para muitos, pois a normalidade para a minoria é muitas vezes carregada de sofrimento e penalizações para o restante do grupo, grupo esse que acaba carregando todos os ônus; são esses que devem acabar com os incêndios provocados pela minoria, a maioria deve aplacar a sede do menor.

A crise viral que continua, não esqueçamos disso é um desses momentos incomuns pelo qual a humanidade passa a cada certos períodos e assim ela nos dará por muito tempo ainda o que pensar, um espetáculo horrendo no qual todos bem ou mal pagam ingressos, uns mais caros outros mais baratos; uma tragédia que levou consigo milhares de esperanças inocentes, que apenas queriam viver suas vidas de modo normal. Pelo andar da carruagem serão cada vez mais pouquíssimos aqueles que tentarão por todos os meios elucidar a origem do ser invisível e todo o seu potencial destruidor em nosso meio. Nesses quase dois anos surgiram vozes de todos os lados dizendo isso, aquilo e muito mais sobre a doença misteriosa, num piscar de olhos muitas coisas evaporaram para darem vida à novas situações; essa visão incomum não deixa de ter as suas repercussões em todos nós.

Há toda uma campanha para que esse momento seja esquecido de uma vez por todas, existe sim todo um burburinho para que a normalidade seja o mais rápido possível reativada, tudo ao nosso redor é feito para que acreditemos que há uma só saída, que não acreditemos em mais nada além da salvação financeira, que somente essa pode nos dar a salvação que tanto precisamos, mas essa “salvação” se mostrou inoperante já em 2008, quanto mais agora do surgimento misterioso não tão misterioso assim do “novo” vírus do qual todos falam e absolutamente ninguém explica nada. O certo é que uma mudança de era encontra-se a caminho, que outras coisas grandes irão surgir, só não sabemos quando exatamente, num tempo em que nos esquecemos de quem somos em troca de promessas vazias, o melhor que podemos fazer é nos precavermos; não comprarmos gatos por lebres.

A maioria já há muito tempo sabe que a minoria busca manter a qualquer preço a situação atual, desencantos por parte daqueles que mais sofrem não é nenhuma novidade, não raro notamos uma falta clara de objetividade, uma irresponsabilidade em se produzir limitações a certos tipos de crescimentos abusivos, o esvaziamento de uma governança mundial é cada vez mais notório, polarizações de cunho militar e financeiro tem crescido sobremaneira, o que torna as relações humanas e políticas frágeis, instáveis e inseguras se que queremos dar nome aos bois. Ao longo dos últimos anos ficou claro que a grande maioria não acredita em crescimento sustentável, pois esse para se sustentar precisa cada vez mais que outros não sejam sustentados satisfatoriamente, que aquilo que o desenvolvimento sustentável promete, ele não cumpre jamais, apenas maquia a realidade.

Bioeticamente, ao vislumbrarmos já o fim de 2021, quando as aparências de que tudo vai bem, quando na verdade nem tudo caminha tão bem assim, tentam impor a sua lógica, seria bom sermos mais coerentes com a realidade das nossas escolhas, por outras palavras, que elas fossem mais sóbrias, mais condizentes com o restante do meio ambiente; maioria e minoria sabem sem fingimento algum que todas e quaisquer escolhas que forem feitas a curto, médio e longo prazo afetarão irremediavelmente nossos privilégios por mais pequenos que esses sejam no momento, uns e outros carregarão para todo o sempre as marcas que lhes forem infligidas. O mundo pós pandêmico, mesmo em meio ao frenesi da nova imaterial que tenta se alojar em nossas cabeças, deverá lidar com as questões triviais ainda não resolvidas; em meio a tantas desigualdades que precisamos vencer, precisamos descobrir urgentemente que somos humanos, que estamos todos no mesmo barco e que sem uma compreensão do todo as partes não resolverão seus dilemas.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, é Mestre em Bioética pela PUCPR, Graduado em Teologia pelo ISTA-BH e Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, Graduado em Teologia pelo Instituto Teológico São Paulo, é professor titular de Bioética na PUCPR