Governo Lula alega no STF restrição ao financiamento de APAEs

apae

O Ministério da Educação encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um novo parecer da Advocacia-Geral da União defendendo uma interpretação que pode limitar o modelo de financiamento público das escolas especializadas, como as APAEs e as Pestalozzis.

A posição gera alerta em famílias de pessoas com deficiência, entidades e municípios de todo o país, especialmente em cidades pequenas onde essas instituições são o único suporte educacional disponível.

O que o governo defende no STF

O parecer enviado pelo Ministério da Educação sustenta que o aluno com deficiência deve estar preferencialmente matriculado em uma escola regular, com a educação especial funcionando apenas como apoio complementar. Na prática, isso significa que instituições como as APAEs só poderiam receber recursos públicos caso o estudante estivesse obrigatoriamente vinculado à rede comum de ensino.

Consequentemente, o modelo de atendimento integral que muitas dessas instituições oferecem hoje poderia ser inviabilizado. Em muitos municípios, as escolas especializadas são o principal espaço de atendimento educacional para alunos que não conseguem ser plenamente acolhidos pela rede regular de ensino.

A ação no STF e as leis do Paraná sob ataque

A disputa ocorre na ADI 7796, ação movida pela Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down contra duas leis do estado do Paraná. A decisão que o Supremo tomar no caso valerá para todo o país. A primeira lei sob ataque é a Lei 17.656/2013, que criou um programa permanente de apoio a entidades mantenedoras de escolas de educação especial. A norma permite que o poder público ajude na manutenção dessas instituições com a designação de professores, pedagogos e agentes educacionais, além de transferência de recursos financeiros.

A segunda é a Lei 18.419/2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência do Paraná, que assegura, em determinadas situações, o direito de a família optar entre a escola regular e a escola de educação especial. O texto também prevê a oferta de atendimento especializado quando a rede comum não puder responder adequadamente às necessidades do estudante.

A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down argumenta que o modelo paranaense promove a segregação de alunos com deficiência, ao permitir que eles sejam atendidos fora da rede de ensino comum. Por outro lado, famílias, entidades como as APAEs e autoridades municipais sustentam que muitos alunos precisam de estrutura especializada, com equipes multiprofissionais, rotina adaptada e atendimento adequado às suas condições específicas.

O argumento das famílias e das entidades contra a restrição

Para as entidades e os pais que se opõem à posição do governo, inclusão não significa apenas matricular o aluno na escola comum. Eles defendem que muitos estudantes possuem deficiências complexas que exigem equipes multiprofissionais e rotinas adaptadas que a rede regular de ensino frequentemente não consegue oferecer. Neste sentido, restringir ou eliminar as escolas especializadas retiraria o direito de escolha das famílias e poderia comprometer o desenvolvimento de milhares de crianças e jovens.

Do lado contrário ao parecer do governo estão entidades como a Fenapaes, a Fenapestalozzi e o próprio governo do Paraná. As Advocacias da Câmara e do Senado também enviaram recentemente pareceres ao STF defendendo a manutenção do modelo atual e sustentando que a educação inclusiva não precisa excluir a existência de instituições especializadas.

Leia também
Pato Branco realiza concurso público para área da educação
Francisco Beltrão vence etapa paranaense do Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora

Municípios do Paraná reagem

Diversas câmaras municipais do Paraná enviaram manifestações ao STF contra a posição do governo federal. Em Fênix, a Câmara Municipal alertou que a decisão do Supremo impactará diretamente inúmeras famílias do município que dependem dos serviços prestados pela APAE local.

Em Bela Vista da Caroba, os vereadores ressaltaram que incluir não é apenas matricular, mas garantir permanência, aprendizagem, segurança emocional e dignidade. “Eliminar as escolas especializadas não promove inclusão; ao contrário, impõe um modelo homogêneo, desconsiderando as singularidades e as necessidades específicas de milhares de crianças, jovens e adultos com deficiência”, afirmaram os parlamentares municipais.

Em Bocaiúva do Sul, a Câmara destacou que uma decisão contrária às APAEs significaria desconsiderar a diversidade das necessidades educacionais e desrespeitar a voz de famílias que lutam diariamente por uma educação de qualidade e adaptada. O Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Paraná também pediu ingresso no processo como amicus curiae, alertando que a ação pode resultar na extinção ou restrição da política estadual de educação especial.

Senador critica parecer do MEC

O senador Flávio Arns, do PSB do Paraná, afirmou que o parecer enviado pelo Ministério da Educação ao STF poderia ser interpretado como uma tentativa de invalidar o amplo acordo político construído pelo Congresso Nacional e pela sociedade civil em favor das escolas especiais. A declaração foi feita em manifestação recente à imprensa.

Governo já havia recuado sobre o tema em 2025

A posição atual do governo federal reacende um debate que já havia gerado forte reação no final de 2025. Em novembro daquele ano, o Ministério da Educação publicou o Decreto 12.686/2025, que ameaçava o espaço das APAEs e Pestalozzis na educação de jovens com deficiência. Um mês depois, o governo editou o Decreto 12.773/2025 e recuou da posição, após pressão do Congresso, de entidades da área e de famílias.

O novo texto reconheceu expressamente a coexistência entre escolas comuns e escolas especializadas, inclusive com parcerias com instituições privadas sem fins lucrativos. Consequentemente, o parecer agora enviado ao STF surpreendeu os defensores das escolas especiais, pois retoma a tese de que a escola especializada não pode substituir a escolarização regular, contrariando o acordo construído meses antes.