“É muito triste. Eu não consegui ver as fotos”, afirma Marcelin Pierre, haitiano que mora em Pato Branco

Mais de 5,4 mil quilômetros separam Pato Branco a Les Cayes, no Haiti (cerca de 150 quilômetros a oeste da capital Porto Príncipe), epicentro do terremoto de magnitude 7,2 na escala Ritcher — que vai até 10 —, registrado no sábado (14).

Porém, desde que outro terremoto, o de 2010, que atingiu a ilha no mar do Caribe, as relações entre os dois pontos geográficos ficaram muito mais próxima, por assim dizer, uma vez que o Brasil recebeu uma grande quantidade de migrantes haitianos, o que também colocou Pato Branco no mapa das ofertas de trabalho.

Segundo dados da Organização Universal para o Desenvolvimento Sociocultural (Oudes), no auge da migração para Pato Branco, chegou a mais de 1,5 mil o número de haitianos no município. Esta não é mais a realidade pelo fato de que muitos estão em nova rota migratória, desta vez tendo como destino os Estados Unidos.

Nos últimos dias, os haitianos que estão fora do seu país e, por que não, os residentes em Pato Branco, vivem a apreensão por notícias dos familiares, principalmente aqueles são do departamento do sul do país, o equivalente as microrregiões no Brasil.

Marcelin Pierre, presidente da Oudes, morava na cidade litorânea de Les Cayes antes de chegar ao Brasil. Ele comenta que além da sua cidade, outras cinco foram amplamente afetadas pelo terremoto. “No primeiro terremoto [2010], ela [Les Cayes] não tinha nada, mas nesse aqui atingiu bastante”, explica.

Les Cayes, a cidade de Pierre foi a localidade mais atingido pelo terremoto – Foto: Reprodução

No Brasil somente com a esposa e filho, Pierre deixou na ilha caribenha a mãe e outros familiares, com quem vem buscando manter contato ainda mais constante nos últimos dias.

“Conversei com minha mãe, minha irmã e demais pessoas da minha família. Eles estão bem”, relata ele, comentando que sua mãe teve uma leve lesão no joelho por ter saído correndo durante o tremor de terra.

Pierre comenta que sua família teve a sorte de não ter a residência danificada, com a exceção de uma janela com avarias, realidade bastante diferente de outras 2.300 casas, que segundo a Polícia Civil haitiana, foram destruídas.

Além da cidade amplamente degradada com o terremoto, na noite da segunda-feira (16), o furacão Grace que chegou ao Haiti provocando fortes chuvas, o que complicou ainda mais os trabalhos de resgate das pessoas entre os escombros.

Também, a situação dos desabrigados se tornou ainda mais grave. “As pessoas que tiveram as casas destruídas ficam na rua e nos acampamentos”, descreve Pierre.

A mesma sorte que Pierre teve, de seus familiares não perderem bens materiais e vidas, outros haitianos que moram em Pato Branco não tiveram. Segundo ele, todos os residentes em Pato Branco conseguiram conversar com algum familiar, e alguns receberam a triste notícia de morte de um ente querido.

“É muito triste. Eu não consegui ver as fotos, as imagens, os vídeos que estão mostrando, porque é muito lamentável as pessoas nas ruas, chovendo, perderam tudo. É muy, muy, muy triste”, afirma Pierre lamentando, misturando o espanhol com o português.

Morando em Pato Branco, Pierre mentem contato com a família no Haiti – Foto: Reprodução

Ajudas

Neste momento, até mesmo pelo mais recente eixo migratório dos haitianos deixando o Brasil, com destino aos Estados Unidos via México, muitos não conseguem enviar recursos para os familiares se recomporem no Haiti.

Contudo, a ajuda está sendo fundamental para as buscas e atendimento de feridos neste momento.

Pierre relata uma lista de países que destinaram ou manifestaram o encaminhamento de equipes, medicamentos e outros tipos de auxílio.

Momento delicado

Além dos infortúnios naturais dos últimos dias, o país mais pobre das Américas vive uma delicada crise política que teve como ponto alto até o momento o assassinato do presidente Jovenel Moise, em 7 de julho.

“O Haiti é um país que está sofrendo de mais”, avalia Pierre, ao comentar o momento político e social. Ele recorda que, com o assassinato do presidente, o primeiro ministro está conduzindo o país no que definiu “fazendo as coisas acontecerem.”

Em meio a uma série de destruições de hospitais e demais repartições públicas, o país, que se organizava para, em novembro, realizar a escolha do novo presidente, vê o encaminhamento para as eleições somente em 2022.

“Outra coisa é que tem um conflito político lá, entre gangues rivais, estão [bloqueando] estradas que não são permitidas. [Com isso] as pessoas de outras regiões não conseguem chegar, por exemplo, no sul, para visitar seus familiares”, diz Pierre.