Magnífica Humanidade (5).
rosel beraldo e anor sganzerla
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No seu capítulo quatro, a Encíclica Magnífica Humanidade se debruça numa questão delicada e que tem trazido repercussões dramáticas, trata-se da exposição da verdade, hoje atacada em muitos âmbitos, está muito difícil de sabermos com exatidão que aquilo que nos chega realmente é confiável, há avalanches de desinformações, uma cachoeira sem fim de imagens e reportagens enganosas, “realidades” criadas para confundir e não para levar a paz e harmonia entre os povos. Vemos com preocupação ataques às pessoas, as instituições, perde-se o respeito e a compostura por acontecimentos banais; os meios de comunicação são importantes veículos de crescimento, porém hoje exercem funções que não ajudam, ao contrário disseminam, destruição e morte; assim a verdade é construída a partir de interesses quase sempre falsos, poucos lucrando com essa desgraça.

Perdemos em muito a noção de tempo e espaço, tudo é para ontem ou mais ainda, para antes de ontem, a pressa tornou-se agora o carro chefe dos relacionamentos, sejam eles com os seres humanos ou com a natureza em geral, absolutamente nada pode ficar para depois, por isso a nossa época é ricamente ornada numa profundidade superficial sem fim, hoje se crê piamente, sem reflexão nenhuma que a técnica é o melhor meio a ser seguido, como consequência as intermediações, as conversas, as ponderações e debates, são vistos como algo ultrapassado, a escola tradicional é hoje apenas mais uma em meio a um mar de outras escolas, há uma ruptura sem precedentes dos saberes, não há porto seguro, muito menos certezas, nenhuma delas se liga num ponto comum, apenas vagueiam sem eira nem beira, o que antes era um orgulho para todos, hoje é apenas vaga lembrança.

O desejo ardente de mudança está no ar, não à toa, a inteligência artificial, nos dá a impressão de que todas as dores humanas serão solucionadas, que os fardos da limitação, dos infortúnios e as desgraças serão varridos para longe, ela tem nos propiciado sensação de liberdade, de cada um criar o seu mundo, o seu próprio espaço, prescindido do restante, a experiência mostra que ninguém consegue viver muito tempo sozinho, numa redoma, a vida é muito mais do que estar enjaulado, teclando o tempo todo, recebendo ou não likes, que nada nos ajudam no passar dos dias. O trabalho diante da inteligência artificial parece um peso, um estorvo, mas nós não vivemos somente da computação, dos jogos eletrônicos, esses não substituem a família, não superam uma boa conversa olho no olho; o vírus da inteligência artificial parece ter entrado em muitos corações e esses tornaram-se pedras.

Quando temos audácia e coragem de estudar as tecnologias a fundo, assim como as grandes mudanças de paradigmas, logo descobrimos que nem tudo são flores nesse caminho, como nos tinham passado como sendo a última tábua de salvação, logo vemos surgir nuvens de intensa preocupação, pois aquilo que nos foi imposto como bem, tornou-se então uma enorme pedra no sapato, assim foi a globalização, o exemplo por excelência das profundas e marcantes estruturas de desigualdades que se estenderam no planeta ao longo de décadas, por outras palavras, tudo foi criado para fins unicamente econômicos e jamais pensando no bem estar das pessoas e do meio ambiente; lá atrás nos disseram que com o advento da globalização não haveriam mais guerras, nem fome, nem miséria e muito menos exclusões, caímos direitinho nessas e tantas outras mentiras que ainda estão aqui.

Bioeticamente, o capítulo quatro, da Magnífica Humanidade, é um convite a responsabilidade global, que nenhum fenômeno que ora acontece não é isolado, são crises gestadas ao longo de décadas, onde o único objetivo foi lucrar, tirar proveito, montar estruturas que permitiram com maestria manter a escravatura sob diferentes nomes, a era da inteligência artificial, nos diz que somos livres, mas aí é que reside o paradoxo monumental, vieram de mansinho até nós novas e potentes formas de colonialismos, esses invadem tudo e todos, o poder de manipulação está toda parte, a seletividade está no ar, quem decide o que viver e o que morrer não o sabemos; o poder que demos aos inovadores da técnica é muito grande, em muitos casos “as terras raras” que os tecnocratas vem buscando,  somos nós mesmos, simples material de consumo para logo sermos eliminados.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, mora em Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com


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