Após termos nos debruçado na leitura e em alguns dos principais temas abordados pela extensa Encíclica “Magnífica Humanidade”, de Leão XIV, acreditamos ser agora um momento propício para dela tirarmos algumas lições e ensinamentos que podem servir de baliza para o nosso entendimento sobre as muitas questões atuais que povoam o nosso mundo, isso tanto de modo local, quanto global; a nossa geração é herdeira de uma rica tradição e desenvolvimento em todos os campos, elas estão aí não podem ser ignoradas ou mesmo desprezadas, se vieram para ficar, já é outra história, o importante é que vivemos uma mudança profunda, tudo e todos são afetados pela técnica, novas maneiras se ser, de existir, de viver a vida, em maior ou menor intensidade, estamos imersos num mundo ainda não claro sobre as suas reais intenções, o que se nos apresenta ainda é algo a ser definido.
O pano de fundo da Magnífica Humanidade não resta dúvida é a inteligência artificial, uma espécie de pandemia que vem ganhando terreno e adeptos todos os dias, é uma promessa com muitas faces, um marketing sem igual pulula nossas telas e também o nosso imaginário, a inteligência artificial é um produto produzido pelo ser humano, um sonho muito antigo, que hoje toma proporções inimagináveis, a nossa vida tornou-se exageradamente cansativa, muitos trabalhos para dar nada, para tudo continuar na mesmice, pensam muitos, então é a hora de mudar, tentar algo novo, mudar de ares, criar algo além do humano para nós humanos fazermos coisas mais legais, termos nossos hobbys, aquilo que gostaríamos mesmo de fazer, o que nos faria felizes, mas toda criação traz desafios, implicações imediatas e a longo prazo; a inteligência artificial é a faca com muitos gumes.
Leão XIV, no início da sua Encíclica levanta um questionamento, qual seja: “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos” (MH 06). Estará a inteligência artificial pronta para nos oferecer o seu melhor? Ela pode nos ajudar de uma vez por todas a resolvermos os problemas mais básicos que a humanidade enfrenta a milênios? Com a inteligência artificial estaremos livres das dívidas cotidianas? Dos impostos que nos massacram todos os dias? A inteligência artificial será capaz de frear todas as doenças, colocará um ponto final em nossas estradas assassinas. A inteligência artificial promete demais realmente, é característico de seus propagadores e entusiastas como eles só, no entanto precisamos e devemos estar vigilantes, ler na inteligência artificial tudo aquilo que não está nela escrito.
A inteligência artificial pode claro ter as suas vantagens imensas, ela pode fazer um grande bem a humanidade, mas ela também pode ser limitada, ter apenas uma alcance parcial em sua aventura, prometer demais e não cumprir à risca aquilo que seus epígonos vem trombeteando, na caminhada cotidiana bem sabemos que nem sempre tudo corre da maneira como gostaríamos, há dias ensolarados, outros nublados, há ainda dias com muita chuva, raios e alagamentos, então: será que com a inteligência artificial a nossa vida será mesmo um paraíso? Um novo jardim do Éden, até o presente momento bem observamos que esse tema não é assim tão simples e unânime, pois esse novo tipo de vida está muito perto e ao mesmo tempo muito longe de cada um de nós; para a inteligência artificial somos apenas números, códigos, cifras, meros objetos manipuláveis para um futuro incerto e frio.
Bioeticamente, a inteligência artificial está no início, mas já provoca suas discussões, não se trata de demonizá-la e muito menos colocá-la num pedestal como o mais novo bezerro de ouro que nos conduzirá a dias melhores, podemos sim com certeza até em nosso intimo esperar o pior, mas torcemos profundamente para que apenas o melhor aconteça com essa nova proposta tecnológica. O mundo tecnológico tem as suas belezas, mas também ele esconde mistérios e segredos profundos que somente poucos conhecem, por isso a inteligência artificial em mãos pouco escrupulosas ou com total desconhecimento da vida em geral, pode colocar tudo a perder, deixar a humanidade a deriva de inúmeros perigos ainda por nós totalmente desconhecidos; nunca é demais alertar que toda e qualquer tecnologia tem seu tendão de Aquiles, com a inteligência artificial não é diferente.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com

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