Pesquisa revela dados inéditos sobre amamentação no Brasil

Na Semana Mundial de Aleitamento Materno, dados apontam para taxas crescentes de aleitamento materno; ainda assim, números estão aquém do que preconiza a OMS

As taxas de aleitamento materno vêm crescendo no Brasil. Pesquisa inédita coordenada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), encomendado pelo Ministério da Saúde, mostra como a amamentação está presente na vida de crianças de até dois anos e suas mães. Os dados apontam que metade das crianças brasileiras são amamentadas por mais de 1 ano e 4 meses. E, também, que no Brasil quase todas as crianças foram amamentadas alguma vez (96,2%), sendo que dois em cada três bebês são amamentados ainda na primeira hora de vida (62,4%).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os bebês sejam alimentados exclusivamente com leite materno até os 6 meses de idade. E que, mesmo após a introdução dos primeiros alimentos sólidos, sigam sendo amamentados até, pelo menos, os 2 anos de idade.

Segundo o Ministério da Saúde, o aleitamento materno é a forma de proteção mais econômica e eficaz contra a mortalidade infantil, protegendo as crianças de diarreias, infecções respiratórias e alergias, entre outras doenças.

De acordo com o ministério, em 1986, o percentual de crianças brasileiras com menos de 6 meses alimentadas exclusivamente com leite materno não passava de 3%. Em 2008, já tinha atingido os 41%. Atualmente, a amamentação exclusiva chega aos 46%. Percentual próximo aos 50% que a OMS estipulou como meta a ser atingida pelos países até 2025. Além disso, seis em cada dez (60%) crianças são amamentadas até completar 2 anos de idade.

O elenco de indicadores do ENANI-2019 descreve o cenário brasileiro e é pautado pelas recomendações da OMS e do Ministério da Saúde, trazendo informações novas para o contexto nacional, como a prática do aleitamento materno cruzado e a doação de leite humano, informa o coordenador nacional do ENANI-2019, Gilberto Kac.

“As prevalências de aleitamento materno são expressivas. Observamos o aumento, mas ainda estamos distantes das metas da OMS para 2030: 70% na primeira hora de vida, 70% nos primeiros seis meses, de forma exclusiva, 80% no primeiro ano e 60% aos dois anos de vida. No Brasil, chegamos a 62,4% de amamentação na primeira hora de vida, 45,8% de aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses, 52,1% aos 12 meses e 35,5% aos 24 meses de vida. Também percebemos que metade das crianças brasileiras de até dois anos usa mamadeiras, chuquinhas e chupetas, o que pode prejudicar a continuidade do aleitamento materno. A expectativa é que os novos dados possam pautar políticas públicas para o fortalecimento do aleitamento materno no Brasil”, resume Kac.

Campanha

Reconhecido há anos como uma referência mundial em termos de estímulos ao aleitamento materno, o Brasil busca avançar para garantir que as mães, principalmente aquelas que trabalham fora de casa, tenham condições para amamentar seus filhos pelo máximo de tempo possível. Uma iniciativa coordenada pelo Ministério da Saúde visa a esclarecer e conscientizar a população sobre a importância da amamentação, e se insere na Semana Mundial do Aleitamento Materno, promovida pela Aliança Global pela Amamentação (Waba). Este ano, a campanha nacional, que tem como lema “Fortalecer a Amamentação: Educando e Apoiando”, foca não só nos pais, mas também nos trabalhadores da saúde.

“Para nós, o Brasil é uma referência. Pensamos que o país tem a melhor legislação do mundo, o que faz toda a diferença. E há um investimento por parte de várias organizações e do Ministério da Saúde para que essa legislação seja realmente implementada”, disse a representante da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) no Brasil, Socorro Gross.

Conforme a coordenadora de Saúde da Criança e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, Janini Selva Ginani, mães e pais sabem a importância de um profissional bem orientado abordar as dúvidas recorrentes no momento inicial da amamentação. “Seja para mães de primeira viagem, seja para aquelas que já têm mais de um filho, [a orientação é importante] pois amamentar é sempre diferente. A cada [novo] filho, algo é diferente”, diz.

Engajamento

Janini destacou a importância do engajamento dos profissionais de saúde para melhorar o índice de recém-nascidos amamentados durante a primeira hora de vida. “No Brasil, nossa prevalência de aleitamento materno na primeira hora de vida é de 62%. É um dado muito superior às médias mundiais, mas que ainda precisamos melhorar, pois é importante esse estímulo, esse primeiro aleitamento durante o que chamamos de A Hora de Ouro”, ressaltou.

A presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Rossiclei Pinheiro, também destacou a importância da capacitação dos profissionais da saúde e de outros agentes para promover a amamentação na primeira hora de vida.

“As dificuldades [e as dúvidas que surgem] nas primeiras horas, nos primeiros dias [após o nascimento], quando há maior risco de desmame, precisam ser acompanhadas por profissionais de saúde bem preparados”, defendeu Rossiclei. “Precisamos estimular cada vez mais a amamentação na primeira hora de vida, independentemente do parto ser normal ou cesárea, pois a ciência já demonstrou que os bebês que mamam na primeira hora conseguem ter mais sucesso [em seguir] na amamentação exclusiva até 6 meses.”

Em nota, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) manifestou apoio às iniciativas. “Enfermeiros, parteiras, técnicos e auxiliares de enfermagem já são atores-chave no manejo da amamentação e dos bancos de leito humano. Nosso esforço é garantir que tenham informação e formação humana necessárias para realizar esse papel crucial”, disse a presidente da entidade, Betânia Santos.

“Além de orientar a mãe e atuar no manejo da amamentação, é importante também envolver os familiares no apoio à amamentação. O cuidado com o bebê passa pelo cuidado com a recém-mãe”, acrescentou a conselheira federal Ivone Amazonas, na mesma nota.

Licença maternidade

Janini e Rossiclei também destacaram a necessidade de garantias legais que protejam e estimulem as trabalhadoras a amamentar seus filhos, como a concessão de licença trabalhista que permita que elas se dediquem às crianças pelo máximo de tempo possível. “Licença maternidade inferior a seis semanas aumentam em 400% a probabilidade da mulher não amamentar o seu filho ou [recorrer ao] desmame precoce”, alertou Janini, pontuando que, no Brasil, já há exemplos de boas práticas, tais como as empresas cidadãs, estimuladas a conceder 180 dias de licença às funcionárias gestantes – 60 dias além dos 120 previstos em lei. “A questão das trabalhadoras informais, contudo, é [um aspecto] no qual precisamos avançar para protegê-las.”

O secretário nacional de Atenção Primária à Saúde, Raphael Câmara, fez um alerta. “Na condição de ginecologista, peço especial atenção e carinho a aquelas mulheres que não conseguem amamentar, a fim de evitarmos discriminações. Portanto, não dá para ficar falando que toda mulher consegue amamentar, pois, por diferentes motivos, há as que não conseguem e é importante não colocá-las numa posição de que serão menos mães por causa disso.”

Consultoria em amamentação

Ana Paula França Dalanhol é dentista da família, além de consultora de aleitamento. Seu primeiro contato com a profissão foi uma exigência do Sistema Único de Saúde (SUS), e suas primeiras capacitações foram para o atendimento público. Hoje, Ana Paula também oferece consultoria em amamentação de forma privada, e diz que esse movimento de a mulher procurar ajuda para amamentar não é uma novidade.

“Sempre houve a necessidade de ajuda para a puérpera amamentar. Normalmente, esta ajuda era oferecida por mulheres da família ou da própria comunidade. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, as famílias começaram a ficar mais isoladas e, apesar de as propriedades estarem mais próximas, as pessoas ficaram mais distantes. Assim, nasce a necessidade de procurar ajuda fora do seu círculo e, automaticamente, surgiu a profissão de consultora. A certificação de consultora internacional de amamentação (IBCLC) existe desde 1985”, explica Ana Paula.

Amamentação cruzada

Um dado chama atenção: uma em cada cinco mães brasileiras amamentou o filho de outra pessoa ou deixou seu filho ser amamentado por outra mulher. Essa é a primeira vez que uma pesquisa de representatividade nacional aborda a chamada amamentação cruzada. A prática – contraindicada pelo Ministério da Saúde devido ao risco de transmissão de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) – é mais frequente na região Norte (34,8%) e entre mulheres pretas (24,8%) e pardas (23,7%). A prevalência dessa prática é de 21,3% no Sudeste, 20,3% no Nordeste, 18,7% no Centro-Oeste, 12,5% no Sul e de 15,5% entre mulheres brancas. Por outro lado, a doação para bancos de leite humano (BLH) é relativamente baixa: apenas 4,8% das mães de crianças com menos de dois anos de idade aderiram à prática.

*Com agências e assessorias

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