A crise climática que assola o Brasil e muito em especial a região sul do país, tem deixado marcas profundas, seja nas pessoas, no próprio meio ambiente, no comércio em geral e também o que não podia ser diferente, em toda a sociedade, os dias tem sido difíceis para todos, ainda estamos como que engatinhando nessa nova onda que vira e revira a vida no seu todo, quase tudo o que aprendemos nos coloca como donos e senhores da terra, dominadores da natureza, no fundo nos tornamos destruidores de pequenos mundos humanos e extra-humanos, a conta agora chegou para todos, uns mais, outros menos, sem exceção, mais do que estar em salas de aula bem climatizadas, regadas a conversas pouco ou nada eficazes, o bom é andar na realidade nua e crua, conversar e sentir com os atingidos, ser ativista de gabinete não resolve muita coisa, falar e não dizer nada, idem.
A realidade quando vivida com serenidade e seriedade, nos diz muito mais do que os livros e aqueles que pensam que sabem de tudo, daquilo que eles julgam que não sabemos, a realidade atingida pela crise climática nos coloca em parafuso, ela diz muito mais do que aquilo que vemos nas imagens da televisão, enquanto uns ficam em suas casas belamente confortáveis, falando, escrevendo e pensando sobre justamente aquilo que não vivem na pele é muito fácil, mais fácil ainda é achar culpados sabe-se lá onde, quando os culpados estão perto de nós, sabemos que o meio ambiente nunca foi prioridade nesse país, não demos importância para o clima, incutimos uma mentalidade voltada para a escravização da natureza, poucos senhores do engenho, milhares de escravos sejam humanos ou não, a senzala ambiental foi e continua sendo um dos crimes mais bárbaros.
Temos informações demais e inteligência de menos, temos máquinas pensantes de última geração, há quem diga e até trombeteia que temos cidades “inteligentes”, mas qual não é a nossa surpresa quando um detalhe aparentemente banal nos torna indefesos, por outras palavras, uma mísera falta de luz coloca muitos em pânico, noutros falta ar e noutros ainda a vida perdeu o sentido, tamanha é a nossa capacidade em não admitirmos as limitações ao nosso redor e conosco mesmos. Enquanto criamos engenhocas para movermos montanhas, morremos de medo por ficarmos no escuro ou ver quem curtiu nossas postagens, o mundo atual tão rico e tão pobre ao mesmo tempo, tão cheio de si e tão vulgar ao mesmo tempo, as aparências falam alto, a desfaçatez assume ares de imponência, vozes melífluas que no fim de tudo nos empurram cada vez mais para o final.
Estamos cada vez mais muito atarefados em nada fazer, por outras vias ocupamos o tempo com frivolidades, banalidades e milhares de leviandades que esquecemos o que realmente importa, ou seja, a vida nossa de cada dia está cada vez mais distante de nossas prioridades, pensamos, falamos e escrevemos na maioria das vezes sobre coisas que não escrevemos, falamos ou pensamos, a superficialidade profunda tornou-se agora o porto seguro, o motor com potência máxima deslizando ferozmente quase sempre em busca do inatingível. A técnica em seu ritmo vertiginoso nos faz esquecer quem somos, nos faz perder as esperanças naquilo que realmente poderíamos ser, ela está nos fazendo acreditar que o nosso sucesso irá destruir toda e qualquer barreira de limitação, quando na verdade o contrário também poderá se tornar verdadeiro, caminhar é o que nos resta fazer.
Bioeticamente, a questão climática em nossa região passa por um momento crucial, delicado e também muito perigoso, um tema que pouco está na ordem do dia, mas muito presente na vida de cada um, pois cada projeto que escolhemos como modelo de vida pode ou não nos colocar num caldeirão de infortúnios, nossa segurança vem sendo colocada em números que não podem nos salvar, em meio a tantas luzes, a escuridão nos tem deixado perplexos, confusos, são tantas as válvulas de escape que geralmente escolhemos a menos pior, quase sempre aquela que nos colocará em novos e desconhecidos apuros, a atitude de precisão que deveria fazer parte do nosso ser seria a verdade nua e crua que se nos apresenta e não aquela que nos é apresentada em vãs propagandas enganosas, o que temos é o agora, o ontem evaporou-se, o amanhã quem sabe pode ser tarde para todos.
Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com

Deixe um comentário