A verdade esfarrapada da Revolução Farroupilha

Paulo Argollo

Se eu te contar, periga você não acreditar. Mas é verdade. O Brasil já presenciou a vitória de uma eleição presidencial por um homem que estava preso, condenado! No dia em que saiu o resultado da eleição, o vencedor estava enclausurado numa prisão a quase 3 mil quilômetros de distância da cidade onde ele deveria tomar posse do cargo. É verdade! Existem todos os registros. Exatamente 185 anos atrás, no dia 6 de novembro de 1836, Bento Gonçalves da Silva era proclamado presidente da República Rio Grandense! Nesta data, ele estava preso no Forte do Mar, em Salvador, pois foi capturado numa emboscada ao atravessar o rio Jacuí um mês antes, em outubro de 1836.Ele foi preso pelas tropas imperiais sob a acusação de ser o principal líder da famigerada Revolução Farroupilha.

Longe de mim querer desrespeitar a gauchada, muito pelo contrário. É um povo que eu admiro demais, sou consumidor da sua cultura em larga escala. Mas a gente tem que se curvar perante a verdade, né? A Revolução Farroupilha como a gente conhece hoje, como ela é comemorada todo dia 20 de setembro em Porto Alegre e em todo o estado do Rio Grande do Sul, com um viés heroico, libertário e republicano, não passa de uma história romantizada baseada em alguns fatos reais.

A Guerra da Cisplatina começou em 1825 e terminou em 1828 com o Brasil e Argentina derrotados e o Uruguai vencedor, ganhando sua independência. A situação de Dom Pedro I se tornava cada vez mais insustentável. O país estava numa terrível crise econômica e o imperador sob forte pressão. Neste cenário, o sul do Brasil ficou abandonado. Mas tudo bem, porque os estancieiros viviam em paz, criando gado e vendendo charque para o sudeste e nordeste do Brasil. Em 1831 Dom Pedro I é forçado a abdicar do trono brasileiro e volta para Portugal, deixando aqui seu filho, Dom Pedro II, com apenas 6 anos de idade. Pela lei, Dom Pedro II só poderia assumir o trono aos 18 anos. Tem início assim o período das regências.

Em 1834, numa tentativa de manter boas relações com o Uruguai e estabilizar a economia, a Regência Trina Permanente, que comandava o Brasil, baixou os impostos sobre o charque uruguaio para 12%, enquanto o charque do Rio Grande do Sul era taxado em 25%. Os estancieiros tentaram de todo modo negociar com o presidente da província do Rio Grande do Sul, para que ele pudesse intervir junto à Regência para baixar os impostos. Ignorados, os fazendeiros resolveram juntar seus peões e escravos e organizaram um exército para invadir Porto Alegre e exigir que os impostos fossem renegociados.

Ou seja, de esfarrapados esses revoltosos não tinham nada. Eram fazendeiros ricos e bem criados. Tanto que eles adotaram o nome Farrapos inspirados nos Sans Culote, como eram conhecidos os revolucionários da Revolução Francesa. Liderados por Bento Gonçalves e Antonio de Sousa Netto, no dia 20 de setembro de 1835, um exército invade Porto Alegre, depõe o então presidente da província e exige a nomeação de um novo presidente. Isso não acontece. Porto Alegre permanece tomada durante um mês, mas em seguida consegue expulsar os rebeldes. Entretanto, a cidade permaneceria sitiada por muitos anos. Porto Alegre, assim como as cidades de Rio Grande e Pelotas, nunca se aliaram aos farrapos, permanecendo fiéis à corte ao longo dos longos 10 anos que durou a revolta.

Então a Revolução Farroupilha foi essencialmente uma revolta por conta de abusos fiscais. Mas à medida que ela avançava, ganhava contornos separatistas e involuntariamente republicanos. Ao contrário do que já foi dito, os líderes da revolta, que eram fazendeiros ricos, não tinham ideais abolicionistas. O que fizeram foi enganar seus escravos e peões prometendo liberdade e alforria se eles lutassem. Entre as idas e vindas da revolução, Bento Gonçalves, como foi dito, foi preso, mas conseguiu fugir com a ajuda do legendário Garibaldi, foi presidente da República Rio Grandense, mas sempre buscou uma saída amistosa para o fim do confronto. Em 1845 a revolução chegou ao fim de uma maneira vergonhosa. Houve um acordo entre os líderes farrapos e a corte. As dívidas do Rio Grande do Sul foram assumidas pela corte, que também diminuiu os impostos do charque gaúcho e aumentou as taxas para os uruguaios. E o último confronto foi a Batalha de Porongos, em que há evidências de que os líderes da revolução se associaram ao exército real numa emboscada para dizimar os escravos e peões que lutavam pela revolução, já que não havia interesse em nenhum dos lados de liberta-los.

Lembra da história do Tiradentes? Lembra da história da independência? Lembra da história dos bandeirantes? Todos eventos que foram recontados com pompa e circunstância muitos anos depois dos eventos reais terem acontecido. Pois é. Com a Revolução Farroupilha aconteceu a mesma coisa. Em 1935, o então presidente Getúlio Vargas, gaúcho, resolveu exaltar o seu estado frente a todo o Brasil celebrando o centenário da revolução Farroupilha. No entanto, como era uma revolta pouco conhecida fora do Rio Grande do Sul, Vargas fez uma enorme festa em Porto Alegre no dia 20 de setembro exaltando a Revolução Farroupilha como um levante republicano, abolicionista e heroico dos gaúchos. Todo mundo acreditou e é assim que a revolução é celebrada até hoje. Em especial, e ironicamente, em Porto Alegre, cidade que permaneceu ao longo de toda a revolução do lado da corte e contra os rebeldes.

Mas tudo bem, assim é a história. Ainda que não seja contada de forma realmente fidedigna e contenha alguns exageros, ela ajuda a formar a personalidade de um povo. A Revolução Farroupilha traz consigo o orgulho do gaúcho, sua personalidade indômita, corajosa e cheia de amor pela sua terra. É super louvável. E conhecer a história como ela realmente aconteceu não desmerece em nada o povo gaúcho. Na verdade, só acrescenta, pois faz com que a gente reflita sobre como as coisas foram no passado e nos ajuda a tomar decisões mais sábias e justas no presente.

HOJE EU RECOMENDO
Filme: Filme Sobre Um Bom Fim
Direção: Boca Migotto
Ano de lançamento: 2015
Um documentário inspirador, interessantíssimo e muito revelador sobre o mais importante bairro boêmio de Porto Alegre, que abrigou artistas, intelectuais e agitadores culturais que fizeram história no século XX. Tem completinho e de graça no Youtube. É imperdível!

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