Desafios da convivência familiar: novas aprendizagens!

* Por Dirceu Antonio Ruaro

Amigos leitores, especialmente pais que acompanham minhas publicações aqui no Diário do Sudoeste.  Eu, tanto quanto vocês, estou vivendo momentos de “ansiedade coletiva”, gerada pelas indefinições e inseguranças que a pandemia da Covid-19 proporciona.

Desde 20 de março, no Paraná todo, vivemos momentos de esperança, de alento e, de quebra, de insegurança, de ansiedade, de medos, porque não pensávamos que a “quarentena” fosse se estender tanto.

No início, mesmo com todo o “susto” que tivemos, algumas coisas foram se ajeitando e, entre elas, o desafio do convívio familiar mais intenso, provocado pelo isolamento social decretado pelas autoridades.

As famílias, a despeito de todas as insatisfações, conseguiram, de alguma forma, se reorganizar e enfrentar a situação.

Muitas famílias se “redescobriram” e outras, a bem da verdade, tiveram imensas surpresas, ao perceber que era necessário refazer o “pacto familiar” e as relações interpessoais dentro da própria família.

Esse, talvez, tenha sido um dos bons aprendizados que a pandemia proporcionou. Evidentemente que existe na literatura uma família ideal, mas na vida real não há fórmula, cada um tem a sua, do seu jeito, mas todas, basicamente todas, são constituídas de pessoas.

E são essas pessoas, que nos ensinam a interagir uns com os outros e, mais que isso, nos ensinam o sentido da existência do “outro”.

Entendo, como educador, que, para além das atividades escolares, das aprendizagens de conteúdo necessárias para dar continuidade ao desenvolvimento acadêmico das crianças e jovens, há outras aprendizagens que podemos construir em família nesse momento de isolamento social.

Apesar da carga de trabalho dos pais, aos poucos retomada no seu modo presencial, as crianças e jovens continuam em casa. As escolas ainda não receberam o “sinal verde” para reabrir. E, quem sabe, os pais ainda pudessem aproveitar esse “período de quarentena” para proporcionar outras aprendizagens.

Uma delas, sem dúvida alguma, é a aprendizagem da convivência, do respeito humano, do sentido da família. E é exatamente nesse convívio e respeito humano que precisamos agir e educar nossos filhos. Por isso, os pais precisam proporcionar outras aprendizagens nesse momento usando a máxima de João Batista de La Salle: “educar com a ternura da mãe e a firmeza do pai”.

Entendo que a quarentena tem exigido muito dos pais, especialmente dos que têm filhos pequenos na educação infantil e ensino fundamental. É claro que muitos pais estão tendo que exercer funções antes nem pensadas, e ensinar o filho a estudar, a fazer tarefas, cumprir cronogramas de atividades escolares. Nesse momento da quarentena sentimos o impacto que isso tem provocado; muitos pais revelam-se cansados e esgotados, tanto física, como mentalmente.

Por isso, propor atividades que gerem aprendizagens é essencial para manter a mente e o corpo ocupados. Muitas situações ajudam as crianças a desenvolver habilidades como a autonomia, senso de responsabilidade, capacidade de gerenciar suas tarefas e suas emoções também, de lidar com frustrações como a falta da companhia dos amigos da escola.

E aí, quem sabe, os pais pudessem fazer os filhos participarem do funcionamento da casa. Pequenas tarefas domésticas, como arrumar sua cama, arrumar a mesa, cuidar da limpeza, da higiene das coisas. Não se fala em novos combinados, novas rotinas, reinvenção?

Muitas crianças e jovens pensam que a casa se arruma sozinha, que não é trabalho arrumar, limpar, cozinhar, passar.  Então, que tal exercer a reinvenção começando por “novos combinados” para o funcionamento da casa?

Fazer tarefas juntos, como preparar o café, uma salada, tirar a louça suja da mesa, lavar pequenas loucas (evidentemente que com segurança), explicar as fases de como fazer alguma coisa em casa,  arrumar  a cama, alimentar o “pet”.

Há muitas rotinas na casa que podem ser desenvolvidas pelas crianças e jovens. Sei de muitos que sentam e gritam: “mãe, água”. ‘Mãe, acende a luz”. “Mãe, liga o computador”; “mãe…me dá…. me traga… faça…”.

Percebem onde quero chegar? Pequenas tarefas educam; pequenas tarefas tornam os filhos corresponsáveis; pequenas tarefas não são exploração de trabalho infantil. Pelo contrário, é criar uma forma de relacionamento interpessoal e familiar responsável.

Pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela Unicamp, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco (PR)

1 comentário

1 comentário

  1. Vania

    3 de setembro de 2020 às 8:13 PM

    Muito bom seu artigo prof.Dirceu.Parabéns pelas palavras tão bem colocadas para esse momento de pandemia.

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