AGORA

O que Pandora nos diria hoje.

rosel beraldo e anor sganzerla

          A precisão milimétrica é uma das palavras mais disseminadas na atualidade, junto com ela surgem outras tais como: inovação, infalibilidade, certeza, eficiência, rapidez, diminuição de custos, maior acessibilidade, resumindo essas e outras mais que poderão aparecer, nos vem a ideia utópica de que tudo ao nosso redor será um mar de rosas, a vida será devidamente colocada em uma estrada plana, sem curvas, sem subidas ou descidas, não ocorrerão acidentes fatais, o ser humano tirará sempre nota dez com cada vez mais automação, é isso e muito mais que estamos sendo levados a crer, um mundo que deixa nas mãos das máquinas a capacidade de fazer, decidir e disseminar aquilo que elas acham certo, entregamos nossos dados pessoais numa inocência sem fim, carregamos cada vez mais um fardo de esperanças que no fundo nos corrompe de muitos modos e muitas vias.

          Porém, queiramos ou não, a vida real, cotidiana, não é feita de precisão absoluta, a vida real tem as suas limitações, mesmo uma absurda enxurrada de material tecnológico a nosso dispor, a natureza, a vida e o tempo de que dispomos não se curvam diante de tantos projetos psicopáticos a nossa disposição, esses ora ou outra nos passam rasteiras, chafurdamos daí em nossas pobres arrogâncias, sentimos o peso daquilo que colocamos as nossas crenças nos esmagarem e não corresponderem às nossas expectativas, com olhar atônito percebemos que continuamos pobres mortais, dependentes uns dos outros, que temos fome e sede, as nossas necessidades mais elementares continuam provando o seu valor, nossa humanidade continua sendo a nossa casa, a porta de salvação para todos; no fundo o projeto humano da convivência entre tudo e com todos é o que ainda mais vale.

Nessa última semana do mês de setembro, aconteceu em Nova York, na sede das Nações Unidas, o encontro anual de todos os países e o assunto mais discutido foi sim a “Inteligência Artificial”, a nova moda em termos de revolução cultural, educacional, politica, religiosa e moral, aquela que pode desencadear a maior era de benesses para a vida em geral, ou também aquela que pode causar a maior desgraça de todas, que é o aniquilamento da vida em todos os seus termos, o Brasil como de costume, sempre mal representado e um mero consumidor guloso, não deu muitas contribuições a respeito, muitos líderes a favor da continuação da pesquisa e outros tantos pedindo urgentemente uma regulação severa para com este tema; dois projetos se digladiando numa luta de poder tremenda e nas suas entrelinhas empurrando o preço para as gerações futuras do planeta.

A “inteligência artificial”, está aí não resta a menor dúvida, com os seus altos e baixos, a humanidade como de costume ainda nada familiarizada com as suas virtudes e percalços, ora idolatrada, ora profundamente questionada por seu tamanho impacto, de um lado o coração de pedra, de outro o coração de carne, simpatia e antipatia, tudo correndo junto ao mesmo tempo, um projeto simplesmente milionário de proporções hercúleas sendo gasto para o fim único de poder hegemônico entre duas nações, pouco ou nada se pensa na vida, nas pessoas, no meio ambiente integral que nos faz realmente humanos, esse projeto é puramente econômico ou alguém ainda duvida? Esse projeto nada tem solidário, de ajuda mutua para resolvermos os problemas que nós humanos criamos, esse projeto artificial nada mais é do que o sonho super antigo de ter tudo para si e nada para os outros.

Bioeticamente, a “inteligência artificial” precisa ser discutida com clareza, prudência e responsabilidade, percebemos o quanto o discurso politico atual em qualquer parte do globo é vazio, disperso, fraco e o pior de tudo, muito vago, os que menos sabem do assunto, são aqueles que mais opinam a respeito e são os maiores defensores dessa causa, o compromisso da verdade que pregam a respeito da “inteligência artificial” está longe de ser verdade, nos bastidores muitas guerras vem sendo travadas pela busca da hegemonia nesse setor, muitas retóricas ocas, a simplificação das ideias, isso e muito mais abre as portas para a desinformação, brigas homéricas, um futuro incerto para ambos os lados e como de costume se as coisas saírem dos trilhos já sabemos de antemão que pagará por isso; não custa absolutamente nada trazermos a tona a crise humanitária do ano de 2020.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia, ambos pela PUCPR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, Doutor e Mestre em Filosofia, professor titular do programa de Bioética pela PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com

Tags: pandora

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Rosel Beraldo e Anor Sganzerla

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, é Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR. Emails: ber2007@hotmail.com e anor.sganzerla@gmail.com

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