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Óleos essenciais como forma de mercado sustentável

Eles são terapêuticos e estão em alta, mas vão muito além disso. Uma turma da UTFPR apostou na sua produção como forma sustentável de renda, desde as técnicas de plantio, escolha das ervas até chegar a extração

O uso dos óleos essenciais é uma das terapias naturais em alta no momento. Basta consultar o Google para saber que o assunto está em revistas, jornais, blogs, Instagram, Facebook, Youtube, etc. Além disso, é possível perceber um certo movimento de mercado com muitas marcas de cosméticos e produtos de limpeza lançando produtos que destacam os óleos essenciais na composição.

Conforme Stéfani Cezak, aromaterapeuta pela Fédération Française d’Aromathérapie (Federação Francesa de Aromaterapia) e terapeuta natural pela Faculdade de Tecnologia IBRATE (Instituto Brasileiro de Therapias e Ensino), é legal lembrar, no entanto, que essa prática é milenar. “Desde os tempos antigos, os egípcios, por exemplo, já usavam óleos essenciais, pois já conheciam o poder medicinal desses compostos aromáticos, usando desde os conhecidos banhos de jasmim da Cleópatra e tratamentos de saúde faraônicos aos processos de embalsamento de múmias. Esse tipo de cuidado era disponível apenas para realeza e famílias da nobreza, pois os óleos essenciais eram raros e muito caros. O óleo essencial de olíbano chegou a valer mais que ouro, por exemplo”, explica. 

Na verdade, não se sabe quando a humanidade começou a usar os óleos essenciais. Há relatos bíblicos e em vários outros livros históricos, como o livro do Imperador Amarelo, em torno de 2.600 a.C., sobre vários procedimentos de cura da medicina chinesa. Não é a toa que certas ervas e especiarias eram extremamente caras e causavam guerras intermináveis entre os povos, pois os grandes sábios e líderes da época sabiam o valor que o poder medicinal delas tinham.

As terapias com óleos essenciais foram relegadas durante um tempo, mas agora voltam com tudo. E é partir desse retorno que a produção de óleos essenciais passou a ser um ótimo negócio sustentável também em Pato Branco.

Luiz Fernande Casagrande, vice-coordenador do curso de Ciências Contábeis da UTFPR e sócio da Luese Óleos Essenciais conta que foi a partir de uma tese de doutorado no Programa de Agronomia da UTFPR, apresentada em 2018, que Michelle Fernanda Faita Rodrigues pesquisou sobre a avaliação de tecnologias ambientalmente sustentáveis para a extração de compostos bioativos.  

O destaque do estudo foi a “erva baleeira” ou maria-milagrosa (Cordia verbenácea), que é uma planta endêmica e nativa da mata atlântica brasileira, sendo encontrada nas praias da região sul e sudeste. Conforme o estudo levantou, essa erva é muito utilizada pelas populações nativas do litoral e interior brasileiro como cicatrizante, analgésico e um potente anti-inflamatório. Além dos compostos voláteis da planta, conhecidos popularmente como óleos essenciais, também foi pesquisada a viabilidade econômica para exploração comercial da planta. 

Os resultados promissores da pesquisa incentivaram Michelle, que hoje é doutora no assunto, a empreender na ideia, submetendo um projeto para incubação de uma empresa de óleos essenciais na Incubadora Tecnológica da UTFPR – Campus Pato Branco. Após a estruturação da empresa e diversas assessorias e consultorias fornecidas pela incubadora da UTFPR, a Luese Óleos Essenciais participou, em 2019, do programa “Sinapse da Inovação”, organizado pela Fundação Araucária. Após concorrer com outros 1850 projetos, foi selecionada entre as 100 melhores ideias inovadoras e recebeu um prêmio de R$ 40.000,00 para investir no projeto de cultivo, produção e comercialização de óleo essencial de erva baleeira.

Atualmente, o projeto é desenvolvido por três sócios: Michelle, Casagrande e Geocris Rodrigues dos Santos. Conta ainda com apoio da Incubadora de inovações da UTFPR, onde encontra-se a matriz da empresa; da Fundação Araucária, por meio do Programa Sinapse da Inovação; da UTFPR, que disponibiliza seus laboratórios para análise e controle de qualidade dos óleos essenciais produzidos; e da Unicamp (Universidade de Campinas), na produção de mudas e sementes selecionadas de plantas medicinais. 

A empresa possui uma filial no município de Itapejara D´Oeste, onde possui uma propriedade rural para produção de plantas medicinais e extração de óleos essenciais e um colaborador contratado para operação da filial.

Sustentabilidade 

Para viabilizar o cultivo das plantas, foi construída uma estufa sustentável, com estrutura de bambu, na filial de Itapejara do Oeste, em uma área de 3.5 hectares arrendados na “Fazenda Sonho de Infância”, de propriedade do professor Adair Casagrande. O local foi escolhido por apresentar excelentes condições para o desenvolvimento do empreendimento, visto que é cercado por mata ciliar nativa, sem contato próximo de culturas convencionais, pois o projeto pretende obter toda produção de plantas para extração de óleos essenciais de forma orgânica. 

Conforme o chefe do departamento de Engenharia Mecânica da UTFPR- Campus Pato Branco, Fabiano Ostapiv, a estufa experimental de bambu foi produzida com quatro colmos de bambu gigante (Dendrocalamus asper) provenientes de um agricultor de Itapejara D´Oeste e 30 colmos de cana da índia (Phyllostachys aurea), também conhecido como bambu das varas de pesca, provenientes da Comunidade São João Batista, de Pato Branco.

O projeto e a execução da estufa experimental foi desenvolvida por alunos do curso de Engenharia Mecânica através da  PatoBamboo, empresa que busca desenvolver soluções em biotecnologia estrutural e que atualmente também está incubada na UTFPR-PB. 

A estufa tem 6 x 7 metros, e teve custo final de aproximadamente R$ 8,5 mil. 

Já a Erva Baleeira foi a primeira espécie selecionada para a empresa por ser objeto de estudo da tese de doutorado de Michelle, e um dos fatores decisivos pela escolha foi a comprovação científica da eficácia do óleo essencial para tratamentos anti-inflamatórios, inclusive já sendo utilizado pela indústria farmacêutica como princípio ativo do medicamento “Acheflan”, da farmacêutica Aché. 

Após uma análise de mercado e critérios para certificação orgânica, dentre eles a diversificação de culturas, os sócios decidiram cultivar também outras plantas, como alecrim, hortelã-pimenta (peppermint), capim-limão e citronela. 

“Ainda esse ano iniciaremos o plantio de lavanda, com variedade aclimatada para nossa região, selecionada pela UTFPR”, revela Casagrande. 

Ciclos e processos

As mudas selecionadas de erva baleeira, primeira óleo a ser produzido, foram plantadas em outubro de 2019. De lá para cá já foram realizadas duas colheitas, uma em fevereiro e outra em julho de 2020. Contudo, elas demoram em torno de um ano para atingir o porte adulto, formando arbustos de 2 metros de altura. Depois de atingir sua maturidade, pode ser colhida até três vezes ao ano, por um período de até 20 anos. 

As outras espécies apresentam manejo e produção similar.

O processo de extração do óleo essencial é conhecido como “arraste a vapor”, com um processo parecido a destilação de cachaça. A Luese realiza a extração de óleos essenciais de suas plantas em um extrator que também foi desenvolvido com a ajuda de professores especialistas da UTFPR que atuam nos cursos de Engenharia Mecânica e Química. Em pleno funcionamento, ele apresentando ótimo desempenho no processo de extração e baixo consumo de energia.

Os óleos essenciais já estão sendo produzidos, mas a Luese está agora em processo de certificação com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além de fechar parcerias com laboratórios especializados para o envase dos produtos. “Até o mês de outubro pretendemos lançar 10 tipos de óleos essenciais para aromaterapia além do óleo de erva baleeira diluído em óleo de semente de uva para massagens”, informa Casagrande. “Nessa fase inicial, com as colheitas realizadas nas plantas jovens, já conseguimos extrair mais de 2 litros de óleo de erva baleeira. Também já conseguimos extrair óleo de outras plantas medicinais e aromáticas em quantidade suficiente para iniciarmos a fase de envase dos produtos em recipientes de 10 ml cada. A capacidade total da área e do extrator é para a produção de 50 litros de óleos essenciais por ano, podendo ser ampliada se necessário”.

Há, ainda, a ideia de diversificação do portfólio de produtos, que além dos óleos de massagens e para difusores em aromaterapias, deverá ganhar uma linha de sabonetes e cremes à base de óleos essenciais orgânicos.

Para isso, além das plantas cultivadas, os sócios pretendem realizar parcerias com produtores locais para extração de óleo de pitanga, eucalipto e alecrim do campo. “A Luese Óleos Essenciais pretende ser uma empresa inovadora, sustentável e com propósito de oferecer produtos naturais e orgânicos para melhorar a saúde e bem-estar das pessoas”, finaliza.

Como usar essas maravilhas da natureza?

Conforme explica Stéphani, os óleos essenciais são compostos aromáticos naturais, extraídos de folhas, flores, seiva e até raízes das plantas. São moléculas levíssimas e muito voláteis que se espalham facilmente pelo ar, propagando seu aroma. 

Um único frasco de óleo essencial tem cerca de 100 componentes naturais diferentes, e uma grande quantidade de matéria-prima (planta) é necessária para se extrair um pouco de óleo essencial puro, extremamente concentrado e potente caso sejam feitos sem solventes e aditivos, com plantas cultivadas nas regiões do mundo onde são nativas.

A lista de benefícios do uso desses óleos é muito extensa, com ações e funções particulares que variam em cada planta. Mas, em geral, eles podem ser usados das seguintes formas:

  • Topicamente – Pode ser aplicado diretamente no local ou diluído em uma base de óleo vegetal puro ou creme natural e aplicado sobre a pele.
  • Aromaticamente – É feita a inalação por meio de difusores, sprays de ambiente, pingando nas mãos e aproximando ao nariz ou inalando do próprio frasco.
  • Internamente – pode ser ingerido, uma gota por vez, em água, em óleo vegetal puro ou ser usado como aroma natural para bebidas e alimentos.

Existem alguns cuidados a serem tomados, já que nem todos os óleos essenciais podem ser aplicados diretamente na pele e precisam ser diluídos devido a sua alta concentração. Dessa  forma, você pode usar óleos vegetais naturais como azeite de oliva, óleo de coco, jojoba, amêndoa, etc., para essa diluição. Para a aplicação tópica dos óleos cítricos, deve-se evitar a exposição ao sol por ao menos 12 horas.

Quando falamos de ingestão, é super importante fazer o uso de uma gota por vez, pois devido a concentração não é necessário mais do que isso — nem sempre mais é melhor. Você deve ingerir os óleos quentes de especiarias, como orégano, cravo, canela, manjericão entre outros, em bebidas gordurosas ou em cápsulas de gelatina vazias.

Comece com poucos óleos essenciais e escolha os mais versáteis, como os óleos cítricos, que tem a habilidade de elevar seu humor, conferir maior energia e desintoxicar o corpo; a lavanda, que promove sensação de relaxamento e sono profundo; e o peppermint (hortelã-pimenta), que te mantém alerta, dá energia e tem propriedades analgésicas, que ajudam muito com dores de cabeça, por exemplo.

Quanto ao uso dos óleos essenciais produzidos por aqui, pode-se afirmar que atendem a diversas finalidades. Enquanto a erva baleeira é indicada para uso tópico (massagens) para fins terapêuticos (analgésico, cicatrizante e anti-inflamatório), os outros óleos podem ser usados para “aromaterapia”, com a ajuda de difusores. Para citar alguns exemplos, o óleo essencial de lavanda é muito indicado nas terapias auxiliares para tratamento de ansiedade e depressão, enquanto os óleos de hortelã-pimenta, alecrim e eucalipto podem ser usados na culinária, indústria de cosméticos e até mesmo em produtos de higiene e limpeza. 

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