Tratamento do Alzheimer avança, mas cura segue distante

Responsável por cerca de 60% dos casos de demência no mundo, o Alzheimer continua sendo um dos maiores desafios da medicina moderna. A preocupação tende a aumentar nas próximas décadas. De acordo com projeções do Ministério da Saúde, mais de 4 milhões de brasileiros poderão viver com a doença até 2050. Diante desse cenário, pesquisadores avançam no desenvolvimento de novos tratamentos e métodos de diagnóstico que prometem melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Nos últimos cinco anos, surgiram medicamentos capazes de atuar não apenas nos sintomas, mas também em mecanismos ligados à origem da doença. Além disso, novas pesquisas apontam caminhos para diagnósticos mais precoces e menos invasivos. Apesar dos avanços, especialistas alertam que a cura definitiva ainda está distante.

Ciência avança no entendimento da doença

Embora o Alzheimer seja frequentemente associado ao acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro, os mecanismos que levam ao surgimento da doença ainda não são totalmente compreendidos. Questões como quais proteínas estão envolvidas, como elas se acumulam e por que esse processo ocorre continuam sendo investigadas pela comunidade científica.

Uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros trouxe novas pistas sobre esse processo. O estudo, publicado em fevereiro na revista científica Nature Communications Chemistry, analisou o comportamento das proteínas tau e TDP-43, associadas ao Alzheimer, e identificou mecanismos que favorecem a formação de agregados tóxicos semelhantes aos encontrados no cérebro de pacientes com doenças neurodegenerativas.

Segundo o médico e pesquisador Vitor Ulisses Monnaka, da Eretz.bio, aceleradora de startups do Hospital Israelita Albert Einstein, essas proteínas exercem funções importantes no cérebro, mas podem se tornar prejudiciais quando passam a formar estruturas insolúveis.

“Essas proteínas são essenciais para o funcionamento do cérebro, mas de forma patológica elas podem se acumular em agregados insolúveis, formando estruturas conhecidas como fibrilas amiloides, que são tóxicas e contribuem para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas”, explica.

Diagnóstico se torna mais preciso

O avanço no conhecimento sobre os mecanismos da doença também contribui para o aperfeiçoamento dos métodos diagnósticos. Atualmente, o diagnóstico definitivo do Alzheimer só pode ser confirmado após a morte do paciente. No entanto, novas tecnologias vêm aumentando significativamente a precisão dos diagnósticos realizados em vida.

Segundo o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Israelita Albert Einstein, a medicina está migrando de um modelo baseado apenas na avaliação clínica para um diagnóstico biológico da doença.

“Estamos transicionando para um diagnóstico biológico da doença, e não só clínico. Já sabemos alguns dos biomarcadores que estamos buscando, mas ainda é caro fazer isso e certamente não será para um rastreio na população geral, mas sim para pacientes já com suspeitas”, afirma.

De acordo com o especialista, a precisão diagnóstica aumentou de cerca de 80% para mais de 95% nos últimos anos graças ao uso de exames como o PET amiloide e análises do líquor obtido por punção lombar.

Exames de sangue ainda enfrentam limitações

Entre as tecnologias em desenvolvimento, os exames de sangue para detectar biomarcadores do Alzheimer despertam grande expectativa. Entretanto, especialistas alertam que a utilização desses testes ainda enfrenta limitações importantes.

A principal dificuldade está na baixa concentração dos biomarcadores na corrente sanguínea, o que torna mais complexo determinar o estágio da doença e a relevância clínica dos resultados. Além disso, ainda faltam estudos específicos que validem esses exames para a população brasileira.

A neurologista Elisa Resende, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), destaca que a interpretação inadequada desses testes pode gerar preocupações desnecessárias.

“Queremos ter essas ferramentas, elas são muito menos invasivas do que o exame de líquor. No entanto, precisamos ter cuidado com a facilidade que tem sido atrelada a elas. Pessoas sem sintomas e sem orientação médica têm feito os exames e interpretado seus resultados por conta própria”, alerta.

Novos medicamentos atuam na causa da doença

Uma das principais novidades no tratamento do Alzheimer é a chegada dos anticorpos monoclonais antiamiloides. Entre eles estão o donanemabe, aprovado em 2025, e o lecanemabe, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro deste ano.

Diferentemente dos tratamentos tradicionais, que atuam apenas no controle dos sintomas, esses medicamentos buscam reduzir o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro e retardar a progressão da doença.

Segundo especialistas, os resultados iniciais são promissores, mas os medicamentos ainda apresentam limitações. Além do alto custo, o tratamento é indicado apenas para pacientes em estágios iniciais da doença.

“Estamos mais perto que nunca de sonhar com um controle dessa doença, mas infelizmente a cura ainda não está no horizonte”, afirma Elisa Resende.

Benefícios ainda são considerados modestos

Embora representem um avanço importante, os novos medicamentos não substituem os tratamentos convencionais utilizados atualmente. Uma revisão de 17 estudos publicada em abril na Cochrane Database of Systematic Reviews apontou que os benefícios observados ainda são considerados pequenos e inconsistentes em parte dos pacientes avaliados.

Por isso, a expectativa dos especialistas é que esses fármacos sejam utilizados em conjunto com as terapias já existentes, especialmente aquelas voltadas ao equilíbrio dos neurotransmissores e ao controle dos sintomas cognitivos.

Desigualdade e diagnóstico tardio são desafios

Além dos desafios científicos, especialistas apontam que o acesso ao diagnóstico e ao tratamento continua sendo uma das principais barreiras para o enfrentamento do Alzheimer no Brasil.

Segundo estimativas da Academia Brasileira de Neurologia, até 80% dos casos de demência no país não são diagnosticados. O desconhecimento dos sintomas, tanto por familiares quanto por profissionais de saúde, contribui para que muitos pacientes cheguem tardiamente ao tratamento.

Outro obstáculo está no custo das terapias. Além dos medicamentos, muitos pacientes necessitam de acompanhamento multidisciplinar com estimulação cognitiva, fisioterapia e atividades físicas, serviços que nem sempre estão disponíveis na rede pública.

Controle da doença é visto como cenário mais provável

Apesar das incertezas, os avanços recentes aumentam o otimismo entre pesquisadores e profissionais da área. A expectativa é que os próximos anos tragam medicamentos mais eficazes e acessíveis, capazes de retardar significativamente a progressão da doença.

Para os especialistas, porém, o cenário mais realista não é a eliminação completa do Alzheimer, mas o desenvolvimento de estratégias capazes de controlar sua evolução por períodos cada vez maiores.

“Me parece que a desaceleração significativa da progressão do Alzheimer é um sonho mais plausível do que a cura”, conclui o pesquisador Vitor Ulisses Monnaka.

Fonte: Agência Einstein

Rolar para cima