MP de Santa Catarina pediu arquivamento do caso nesta terça (12) após analisar quase 2 mil arquivos digitais. Laudo pericial afastou agressão. Cronologia das câmeras tinha erro de 30 minutos. Polícia Civil enfrenta apuração interna por condução tendenciosa do inquérito
Durante quatro meses, o Brasil inteiro pediu justiça por Orelha. Protestos em sete capitais, campanhas nas redes sociais, pedidos de federalização do caso, debate sobre maioridade penal e adolescentes tratados como assassinos antes mesmo de qualquer julgamento. Agora, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) concluiu: os jovens não mataram o cão. Provavelmente, ninguém matou.
Após reanalisar quase dois mil arquivos digitais — entre laudos periciais, vídeos de câmeras de segurança, fotografias, dados extraídos de celulares apreendidos e depoimentos —, o MPSC divulgou nesta terça-feira (12) seu pedido de arquivamento do caso, apontando que a morte do cachorro estaria associada a uma doença grave preexistente, e não a agressões.
A reviravolta é uma das mais impactantes da história policial recente do Brasil.
O começo: um cão encontrado agonizando na praia
Orelha era um cão comunitário conhecido havia cerca de dez anos na Praia Brava, bairro no Norte da Ilha de Florianópolis. Fazia parte da rotina de comerciantes, surfistas, moradores e turistas que circulavam pela região.
No dia 5 de janeiro de 2026, o cão foi encontrado em estado grave: apresentava ferimentos, sinais de desorientação, ausência de reflexos neurológicos e dificuldades severas de locomoção. Poucas horas depois, diante da gravidade do quadro clínico, foi submetido à eutanásia em uma clínica veterinária.
A Polícia Civil de Santa Catarina abriu investigação. A hipótese inicial: Orelha havia sido brutalmente espancado por um grupo de adolescentes de famílias abastadas da região, numa suposta “brincadeira” de ver quem conseguia machucar mais o animal. Relatórios policiais indicavam que os jovens e o cão teriam permanecido juntos na praia por cerca de 40 minutos na madrugada.
A comoção que parou o Brasil
A repercussão nacional e internacional transformou a investigação em um dos episódios mais acompanhados de Santa Catarina em 2026. Nos dias seguintes ao aparecimento de Orelha em estado grave, moradores da Praia Brava começaram a compartilhar imagens, homenagens e pedidos de justiça nas redes sociais.
O caso gerou protestos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Vitória e Florianópolis. Moradores improvisaram memoriais, flores, placas e mensagens no espaço onde Orelha vivia, que se tornou um ponto de peregrinação espontânea. O local virou símbolo. Turistas de outros estados viajaram à Praia Brava apenas para visitar a casinha do cachorro.
A repercussão foi tão intensa que vereadores pediram a federalização do caso, o Poder Judiciário ordenou que redes sociais excluíssem publicações que identificassem os adolescentes suspeitos — que eram menores de idade —, e o governo estadual anunciou a construção de um hospital veterinário público em homenagem ao cão. Em algum momento, a internação compulsória de um dos jovens chegou a ser recomendada pela autoridade policial.
Leia também
A prova que derrubou tudo: 30 minutos de diferença
O ponto de virada do caso está em um detalhe técnico aparentemente pequeno, mas com consequências enormes: o horário das câmeras de segurança estava errado.
Os relatórios da investigação policial sustentavam que o adolescente apontado como responsável pela agressão e o cão teriam permanecido simultaneamente na praia por cerca de 40 minutos. Mas uma comparação na reconstituição da linha do tempo evidenciou uma defasagem de aproximadamente 30 minutos entre os horários registrados pelas câmeras do condomínio e pelo sistema público de monitoramento Bem-Te-Vi, usado para acompanhar o cão. “Essa diferença de horário é nitidamente perceptível pelas condições de luminosidade solar”, afirmam as Promotorias na manifestação.
Em outras palavras: o adolescente e Orelha nunca estiveram no mesmo lugar ao mesmo tempo. A cronologia que sustentava toda a investigação estava fundamentada em câmeras com horários dessincronizados.
A análise minuciosa das câmeras de vigilância realizada pela 10ª Promotoria de Justiça da Capital, com apoio do Grupo de Trabalho instituído pela Procuradoria-Geral de Justiça, confirmou o que já havia sido identificado pela Polícia Científica: houve descompasso temporal nas imagens, e os adolescentes investigados e o cão Orelha não estiveram juntos na praia no período da suposta agressão.
Além disso, as imagens analisadas pela perícia mostraram que o animal mantinha plena capacidade motora e padrão de deslocamento normal quase uma hora depois do horário em que a investigação presumia ter ocorrido a agressão. Para o órgão, o dado afasta a hipótese de que o cão teria retornado da praia já debilitado.
O laudo que mudou tudo: Orelha morreu de doença, não de agressão
Além do problema na cronologia, a exumação do corpo de Orelha demoliu a hipótese de crime.
Segundo análise pericial feita após a exumação do cachorro, comprovou-se que não havia fraturas ou lesões compatíveis com ação humana. O que se comprovou é que o cão tinha sinais de osteomielite na região maxilar esquerda — uma infecção óssea grave e crônica —, possivelmente relacionada a doenças periodontais avançadas, evidenciadas pelo acúmulo de cálculos dentários. Imagens do crânio de Orelha revelaram ainda uma lesão profunda e antiga, com perda de pelos, descamação e inflamação compatíveis com infecção de evolução prolongada. A localização da ferida, abaixo do olho esquerdo, é compatível com o edema observado pelo veterinário que atendeu o animal.
O exame de imagem não mostrou nenhum outro sinal de violência. Orelha não morreu espancado. Morreu de uma infecção óssea grave que provavelmente já o afligia há muito tempo — invisível aos olhos dos moradores que o amavam, mas devastadora por dentro.
A investigação sob suspeita: Polícia Civil agiu com viés?
A conclusão do MPSC não poupa a Polícia Civil. O Ministério Público acusou a Polícia Civil do estado de seguir uma linha única de investigação para incriminar os jovens. A hipótese principal é que a comoção em torno do caso acabou influenciando na condução do inquérito.
O MPSC solicitou o envio de cópia dos autos à Corregedoria da Polícia Civil de Santa Catarina para análise de possíveis irregularidades na investigação. Também pediu à 9ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital a apuração de possível infração administrativa relacionada à divulgação de informações sigilosas à imprensa, com referência nominal a adolescente investigado.
Em outras palavras: além de pedir o arquivamento do caso principal, o MP quer investigar quem investigou. A difusão de narrativas não verificadas, como a suposta existência de vídeos que mostrariam agressões ao cão, teve impacto direto na fixação precoce e equivocada de autoria, direcionando a investigação a partir de suposições e afastando outras linhas investigativas que poderiam ter sido exploradas.
Em abril, o MPSC já havia entrado com ação de improbidade administrativa contra o ex-delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, por sua atuação no caso.
E os outros episódios atribuídos ao grupo?
A investigação também envolvia outros supostos crimes. Todos foram descartados.
Quanto ao caso dos cachorros caramelo: as provas produzidas demonstraram que não houve a prática de maus-tratos. Ao contrário, a própria polícia esclareceu que os jovens estavam apenas brincando com um deles na praia e que não houve qualquer tentativa de afogá-lo nas águas do mar.
Quanto à suposta coação de testemunhas — um dos episódios mais graves imputados às famílias dos adolescentes: as provas demonstraram que os fatos ocorridos na noite do dia 12 e na madrugada de 13 de janeiro de 2026 não têm relação com a investigação do cão Orelha, mas sim com um desentendimento isolado entre adolescentes e o porteiro do Condomínio Água Marinha. O episódio aconteceu seis dias antes da instauração do inquérito policial — ou seja, antes mesmo de existir formalmente o procedimento que a defesa estaria, em tese, tentando influenciar.
O que acontece agora?
O pedido de arquivamento do MPSC ainda não é a palavra final. O parecer, com 170 páginas e assinado por três Promotorias de Justiça, foi encaminhado à juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, da Vara da Infância e Juventude da Comarca da Capital. O processo tramita sob sigilo devido ao envolvimento de menores de idade. Até o momento, não houve decisão judicial sobre o pedido de arquivamento. A magistrada pode acatar ou rejeitar o parecer do MP.
Se acolher o pedido, o caso será oficialmente encerrado e os adolescentes estarão livres de qualquer responsabilização pela morte de Orelha.





